DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ivone Mendes da Silva: «Na casa dos meus avós, entrando-se pela porta da frente, havia um cor­re­dor de onde, a meio, par­tia uma escada. Basta-me fechar os olhos e chego lá. A memó­ria é a reco­nhe­cí­vel planta de uma casa para onde se volta repe­ti­das vezes. Eu, é sem­pre pela sali­nha do pri­meiro andar que começo, logo ao cimo das esca­das. Devia ter sido pen­sada como ves­tí­bulo mas era longa e tinha uma janela grande que dava sobre o alpen­dre onde cres­cia uma videira. É sem­pre Setem­bro na minha memó­ria e uma brisa coisa de nada faz ondu­lar o cor­ti­nado de renda que dese­nha som­bras góti­cas na parede. Quem pres­tar aten­ção ao que escrevo, verá que nunca saí de lá, da com­pa­nhia das gár­gu­las e dos gri­fos fei­tos per­fil na parede. Os anjos e os lobos vie­ram depois, mas isso já é outra his­tó­ria.»

 

João André: «Depois de Miguel Relvas se demitir e Miguel Gonçalves começar a disparar as suas pérolas de sabedoria, chego á conclusão que isto não mais é que deixar a cama feita ao governo, um simples acto de boa gestão para quem fica: Miguel Gonçalves é um palerma, mas é um palerma que gosta do seu trabalho e distrai as atenções. E é nisso que consiste o seu trabalho de embaixador.»

 

Laura Ramos: «O blogue da semana é o Duas ou Três Coisas, de Francisco Seixas da Costa. Textos deliciosos e perpassados de humor sobre temas da actualidade cívica e política, ou imprevistos bilhetes postais de Vila Real, tudo por entre o sabor principal que é, naturalmente, o das memórias andarilhas do diplomata,  inspiração dominante que me encanta e por entre a qual encontrei esta evocação gratificante de um dos meus escritores favoritos, Álvaro Guerra. Não percam este blogue de escrevivências, como diria David Mourão-Ferreira.»

 

Patrícia Reis: «Era apenas segunda-feira e disso se quis mentalizar às oito da manhã. Pelas nove, a cabeça já estoirava. Ao meio-dia, no trânsito, maldisse tudo e todos e depois entrou numa reunião estranha, com muitos papéis, telemóveis e ipads. Não se sentiu bem. Bebeu água. Saiu quase em passo de corrida para escapar ao sol. Atravessou a praça, entrou numa outra reunião e a cabeça estalava e repetia: um dia pode ser que seja diferente. Um dia, então.»

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