
Ivone Mendes da Silva: «Na casa dos meus avós, entrando-se pela porta da frente, havia um corredor de onde, a meio, partia uma escada. Basta-me fechar os olhos e chego lá. A memória é a reconhecível planta de uma casa para onde se volta repetidas vezes. Eu, é sempre pela salinha do primeiro andar que começo, logo ao cimo das escadas. Devia ter sido pensada como vestíbulo mas era longa e tinha uma janela grande que dava sobre o alpendre onde crescia uma videira. É sempre Setembro na minha memória e uma brisa coisa de nada faz ondular o cortinado de renda que desenha sombras góticas na parede. Quem prestar atenção ao que escrevo, verá que nunca saí de lá, da companhia das gárgulas e dos grifos feitos perfil na parede. Os anjos e os lobos vieram depois, mas isso já é outra história.»
João André: «Depois de Miguel Relvas se demitir e Miguel Gonçalves começar a disparar as suas pérolas de sabedoria, chego á conclusão que isto não mais é que deixar a cama feita ao governo, um simples acto de boa gestão para quem fica: Miguel Gonçalves é um palerma, mas é um palerma que gosta do seu trabalho e distrai as atenções. E é nisso que consiste o seu trabalho de embaixador.»
Laura Ramos: «O blogue da semana é o Duas ou Três Coisas, de Francisco Seixas da Costa. Textos deliciosos e perpassados de humor sobre temas da actualidade cívica e política, ou imprevistos bilhetes postais de Vila Real, tudo por entre o sabor principal que é, naturalmente, o das memórias andarilhas do diplomata, inspiração dominante que me encanta e por entre a qual encontrei esta evocação gratificante de um dos meus escritores favoritos, Álvaro Guerra. Não percam este blogue de escrevivências, como diria David Mourão-Ferreira.»
Patrícia Reis: «Era apenas segunda-feira e disso se quis mentalizar às oito da manhã. Pelas nove, a cabeça já estoirava. Ao meio-dia, no trânsito, maldisse tudo e todos e depois entrou numa reunião estranha, com muitos papéis, telemóveis e ipads. Não se sentiu bem. Bebeu água. Saiu quase em passo de corrida para escapar ao sol. Atravessou a praça, entrou numa outra reunião e a cabeça estalava e repetia: um dia pode ser que seja diferente. Um dia, então.»
