DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Ganhei o dia a ler Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco, do Nuno Costa Santos. Sobre o livro, desde ele valer a pena até ao rigor da escrita, falarei outro dia. Agora, que o fechei, apetece-me ficar a pensar num conselho dado pelo Assis a uma das filhas: uma pessoa tem de parecer-se com aquilo que ela é. São tantos anos a ouvir aquela coisa da mulher de César que quase nos esquecemos de que o parecer, ou vem do ser, ou então não interessa para muito. E isto é só o começo. Cheira-me que vou andar com esta frase por uns tempos.»

 

Ana Vidal: «A partir de hoje, aos domingos volto a armar-me em detective musical, de lupa no ouvido, para dar-lhe conta de plágios, batotas, “inspirações” e estranhas coincidências musicais. E começo com uma descoberta recente, um tanto decepcionante por envolver dois músicos de quem gosto muito e respeito: Eric Clapton e Mark Knopfler. Mais do que decepcionante, foi uma descoberta que me deixou boquiaberta.»

 

Cláudia Köver: «Sou um pouco filha de toda a gente, abandonada pelo desejo inalcançável de ser grande e de infantilidade desprendida na mente. A estúpida que eu sou, achando que já sei viver, num mundo que só gosta dos pequenos quando estes também são pequena gente.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Pergunto-me, mais uma vez: a Convenção de Viena para o Direito dos Tratados é letra morta? Não conta para nada? Teve o mesmo destino das consoantes não articuladas: só alguns é que sabem que ela existe?»

 

José António Abreu: «Despojos de Inverno tem um ponto de contacto com Indomável: é acerca da luta de uma rapariga num mundo violento. Porém, em comparação com o filme dos Coen ou qualquer dos outros mencionados acima, é um filme simples, realizado com pouco dinheiro, sem efeitos especiais ou recurso a grandes estrelas – mas com imenso cinema. A história é simples: nas montanhas Ozark (centro do Estados Unidos), nuns USA muito longe do glamour e da riqueza que esta noite veremos na televisão, Ree Dolly (fabulosa Jennifer Lawrence, a seguir com atenção), uma rapariga de dezassete anos, toma conta do irmão e da irmã, ambos mais novos, e da mãe, mentalmente ausente. O dinheiro escasseia e muitas vezes a família depende da ajuda dos vizinhos mais próximos.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Afortunados os cientistas que não têm de se preocupar senão com os do próprio meio. Já os artistas são obrigados a tolerar uma horda de chicos-espertos a comentar o seu trabalho, como se percebessem verdadeiramente da poda. Como a arte, contrariamente à ciência, é subjectiva, não é difícil a um leigo fazer parecer que tem algo para dizer. Pior que isso: não é difícil a um leigo pensar que tem algo para dizer.»

 

Luís Menezes Leitão: «Depois da cada vez mais próxima bancarrota da Grécia, será seguramente Portugal o próximo país a ser alvo deste tipo de propostas irrecusáveis, quando em 2013 não conseguir regressar aos mercados, como se torna por demais evidente. O que me pergunto é por que razão o país tem que continuar a seguir este caminho que o exemplo grego já nos demonstrou aonde conduz.»

 

Rui Rocha: «Sim, sim. No dia em que eu tiver de vender os brincos da Tia Marquinhas quero muito que estes amigalhaços andem por aí a fazer uma descrição circunstanciada da situação.»

 

Teresa Ribeiro: «Quem quer uma biografia política, desilude-se. Ainda assim não considero A Dama de Ferro um filme falhado, porque apesar de tudo dá-nos muito: uma narrativa com um ponto de partida inesperado, que é o da decadência do fim da vida, e um perfil psicológico que embora limitado, nos ajuda a perceber melhor a mulher que governou, durante onze anos, o Reino Unido.»

 

Eu: «Só vi quatro dos nove filmes que concorrem ao Óscar da Academia destinado a premiar a melhor longa-metragem de ficção de 2011. Não posso, por isso, tecer considerações fundamentadas sobre aquele que merece levar a estatueta. Mas como gosto de apostas adianto o meu palpite sobre o vencedor: O Artista, de Michel Hazanavicius – fascinante revisitação dos anos pioneiros de Hollywood num filme que recupera a estética do cinema mudo que parecia sepultada a oito décadas de distância. Já alguém lhe chamou, e com razão, “a quintessência da nostalgia”.»

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