As horas de transmissão da série televisiva Covid-19, vamos agora na temporada Ómicron, foram ontem de manhã seriamente abaladas.
O ex-banqueiro foragido à justiça João Rendeiro foi apanhado pela polícia sul-africana num resort de luxo.
A história tinha ingredientes de natureza diversa que lhe asseguravam espessura para estarmos perante um bom romance. Começando pela ascensão social e financeira da figura, até à sua fuga planeada com o rigor que se encontra apenas nos filmes mais realistas, passando claro pela implosão do seu banco, a revelação das suas burlas artísticas e sem faltarem as contradições entre a frieza do crime financeiro e a melosa paixão pelas três cadelas deixadas para trás a tomar conta da esposa. Tinha quase tudo para ser uma boa história. Claro que se dispensava bem o longo compasso de espera provocado pela sempre demorada e aborrecida justiça portuguesa, mas tudo o resto era muito bom.
Ficamos a saber que afinal, tal como nos filmes, a polícia consegue mesmo seguir o rasto dos pagamentos feitos com meios electrónicos. Se Rendeiro dedicasse algum tempo à filmografia de acção já saberia que devia ter outros cuidados e mais imaginação.
Num filme razoavelmente verosímil o ex-banqueiro agora fugitivo nunca teria sido apanhado sem primeiro obrigar a polícia sul-africana a uma perseguição automóvel pela baixa de Durban, com direito a carros destruídos às voltas pelos ares.
Mas para desmentir definitivamente a teoria da treta que afirma que a realidade ultrapassa a ficção, soubemos que a personagem principal da história foi apanhada de pijama e que se mostrou surpreendido.
Estes últimos detalhes revelam um deprimente desmazelo do romancista. O guião, que chegara a ser promissor, neste ponto já estava a caminho de ser arrastado para aquele cesto dos papéis no canto do écran. O que é que que podia ser mais infantil do que isto?
Mas para arrematar o afundanço, ainda faltava a cereja no topo do bolo. Então não é que o João de Portugal, viajante individual, logo depois de torrar uma boa maquia num programa de encriptação topo de gama, não resistiu em avaliar a sua experiência no Forest Manor Boutique Guesthouse?
Que saudades do Duarte e Companhia. Aquilo é que eram histórias bem apanhadas.

a personagem principal da história foi apanhada de pijama
Eu também fiquei muito desapontado com esta parte. Então o homem dorme de pijama?! Quem é que atualmente ainda usa pijama para dormir?
as três cadelas deixadas para trás a tomar conta da esposa
Dantes deixava-se a esposa com um cinto de castidade a tomar conta dela. Agora usa-se cadelas…
Não havendo perseguição pela baixa de Durban, no mínimo deveria estar de roupão, a fumar um charuto e com companhia… enfim.
RENDEIRO E RENDADOS
Não sei se Rui Rio tem provas ou indícios das alegadas influências que deixa entender.
Esta é a primeira pergunta com que deve ser questionado sem tiques pré concebidos.
Só um sistema democrático padecente trata um cidadão entregue à justiça como talhado troféu de caça.
Com tantos carrascos de chicote em riste multipliquem cópias do símbolo para pendurar nos cabides lá de casa.
Nunca se viu uma tal avalanche festiva, ainda haverá mais fogueteiros?
Tanta propaganda dá que pensar, ainda por cima como publicidade não paga.
Toda a gente pela extradição do visado não acham muita fartura?
Sem os nossos heróis de ocasião, agora na esfera da justiça, não somos nada.
Não sei o que será mais deplorável, se o permissivo episódio da fuga ou o arraialesco foguetório da detenção.
Se Rendeiro não nos surpreender com uma fuga como a do El Chapo, para a história ficará apenas com uma estória sensaborona. Falta-lhe o requinte do Duarte e Companhia.
ao lado deste o zé do telhado é um moriarty
O Zé do Telhado nunca se deixaria apanhar de ceroulas, que segundo consta era o pijama do seu tempo.
Eu uso ceroulas em noites muito frias.
Mas pijama, nunca!
Isso é que ninguém precisava de saber.
O balio é mais westerns.
Por ele o Rendeiro era preso enquanto estava sentado na sanita, de ceroulas, ou com as calças em baixo
A promoção da guesthouse em resort sempre melhorou um pouco o cenário.
Resort de cinco estrelas avaliado pelo João de Portugal como “excecional”. Ainda se recorresse à grafia anterior ao acordo ortopédico (foi feito com os pés) ainda lhe podia servir como atenuante, mas nem isso.
Não fiquei feliz com a detenção de Rendeiro (já agora, por agentes da Interpol sediados na RSA e não pela polícia da mesma).
Em primeiro lugar estraga-me a “boutade” de que Portugal tinha uma justiça muito desenvolvida, de facto 4 justiças, uma para pobres, outra para ricos, outra para banqueiros que nunca eram presos e outra para motorista que eram sempre culpados. Foi o Bibi da Casa Pia, o Perna do Sócrates, agora o Pontes do Cabrita e, esperava-se, o ex-de Rendeiro e filho do rei dos frangos.
Em segundo lugar, confesso que fui sensível às afirmações de Rendeiro de que, em comparação com outros, nem era amigo de presidentes da república, nem nunca teve sacos azuis para pagamentos a políticos e jornalistas (a propósito quando vamos saber quem eram os jornalistas avençados pelo grupo Espírito Santo?). E, vá lá, o homem tinha estilo. Quando ontem ouvi o Marques Mendes a arrasá-lo não pude deixar de pensar que ali também havia uma ponta de inveja.
Se Rendeiro tivesse um motorista em condições em Durban, então já poderíamos ter direito a uma perseguição na baixa. E tudo ao mesmo tempo que decorria o GP que decidiu o título de Formula 1. Isso sim, era um bom argumento.
Na verdade cheira a pião das nicas, bode expiatório ou tapa buracos. O certo é que com a invasão Rendeiro foam passadas para o baú das reliquias pérolas como a vacinação regimental e outros mimos viciados ainda frescos das ações governativas e presidenciais.
É um folgo temporário mas não deixa de ser um folgo.
Como dizia o outro, isto está tudo ligado. Este texto vem na sequência daquele em que se critica a ficção científica no cinema português (vou ter de encontrar aquelas pérolas, e ainda o Second Live, esse ícone esquecido). Olhando para a nossa sociedade, conseguimos inspiração para umas comédias, e daquelas baseadas em traques e berraria, porque intelectualmente os intérpretes deixam algo a desejar.
Já em Tancos, quando a notícia saiu, fiquei a imaginar um “heist” feito por uma quadrilha altamente qualificada, com um Tom Cruz a entrar paiol adentro, estando este protegido com uns lasers, enquanto uma hacker loura e voluptuosa comprometia o complexo sistema de câmaras a partir do seu portátil.
Afinal foram o Pisca e o Fechaduras, com um alicate e um carrinho de mão.
Neste caso, tudo abaixo de uma fuga envolvendo um helicóptero içar o Rendeiro enquanto um grupo de mercenários faz fogo, é uma desilusão.
Os franceses tem uma expressão que me ajuda a transmitir esse sentimento: “c’est vraiment dégueulasse”.
Mas a história ainda não acabou. Ainda ontem discutíamos isto, entre nós – agora, falta a parte em que ele contrata X especialistas, a um milhão de euros cada, para o tirarem da prisão…
Isso poderia ser o mote para a próxima temporada, mas não me parece que alguém pegue nisso. O argumento ficou inquinado com a avaliação do hotel feita pelo João de Portugal.
Free Nelson Rendeiro! Free Rendiba!
Já agora, 25 de Abril, Sempre!
Quando o homem deu a entrevista toda a gente se focou nos cortinados. Por sua vez, a mulher guardou os quadros na garagem. Agora que foi apanhado, toda a gente se focou no pijama.
Será que mudaram a programação?
Isto não será o “Querido mudei a casa”?
Queridos (portugueses), mudei de jurisdição!
Então mas o actor principal desse filme não era o Vale e Azevedo?
Como estamos na quadra do Natal não será melhor o “Sozinho em casa IV”? Assim o Rendeiro já podia andar de pijama a fazer traquinices aos gajos da polícia judiciária.
Pedro Lima faz de Rendeiro, a Soraia Chaves de mulher dele. Espero ver algumas cenas tórridas na adaptação cinematográfica, com a colecção de arte em pano de fundo.
Só se for o realizador for o António Pedro Vasconcelos.
Convenhamos que essa do Pedro Lima é de muito mau gosto.
Tirando este deslize, agradeço as gargalhadas que me fizeram dar: caramba, mesmo muito divertida esta análise
Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão!
Quem eram os tubarões sérios cheios de guita que não sabiam administrar os tostões?
Eu saberia.
Já todos sabemos que em Portugal os ricos estão fora da jurisdição definida pela declaração universal dos direitos do homem.
Está lindo, o esquisso da historinha. Custa-me a entender como é que o povo se entretém com desempenho tão aquém do esperado. Ora bolas.
Esta história vai bem entremeada com a série covid. É como quem acompanha acompanha nozes com pão.
O Homem é apanhado em pijama , presumo que no quarto, sòzinho? Nem uma loura ao lado?
Com tantos cartões!
Tanso.