Adaptado à televisão como peixe na água


Pedro Correia,

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Ignoro se Daniel Oliveira possui carteira de jornalista. Talvez não, por ser director de programas da SIC. É injusto excluí-lo desse título profissional, tratando-se de alguém que domina como poucos a arte de entrevistar e sendo a entrevista uma das mais nobres disciplinas do jornalismo.

Muitas entrevistas agora exibidas em antena são feitas por não-jornalistas. E algumas das novidades mais sonantes são veiculadas por comentadores, também eles sem habilitação formal para revelações de âmbito noticioso nas televisões. O que em nada os impede de proceder assim. Já nem falo do chamado “jornalismo de cidadania”, graças ao qual se vão alimentando telediários em grau crescente.

As rígidas fronteiras do passado estão diluídas, queira ou não queira a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Basta reparar nisto: blocos informativos como o Polígrafo, da SIC, dedicam cada vez mais atenção ao que cidadãos desconhecidos vão debitando nas redes.

 

Com ou sem carteira profissional, Daniel Oliveira pode orgulhar-se de ter conduzido duas das entrevistas mais importantes do ano político – ambas emitidas fora da área reservada à Direcção de Informação, no seu programa Alta Definição, existente há 12 anos. São entrevistas de autor que estabelecem assumida cumplicidade com os entrevistados, à margem dos estritos formatos do jornalismo clássico.

A primeira ocorreu no início de Setembro, quando Paulo Rangel o elegeu como confidente para revelações exclusivas sobre a sua orientação sexual escassas semanas antes de anunciar a malograda candidatura à presidência do PSD. A segunda foi exibida no passado sábado, tendo como entrevistado o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, hoje um dos homens mais populares do país.

Daniel Oliveira mostrou-nos um Gouveia e Melo como nunca tínhamos visto. Revelando o seu lado mais reservado, registando confidências de carácter íntimo, recolhendo reflexões do militar que se tornou presença familiar junto dos portugueses ao conduzir a bom porto o processo de vacinação. Após ter cumprido 31 mil horas de navegação, incluindo 20 mil em submarinos.

 

Nada ali aconteceu por acaso. O entrevistado fardado a rigor. O magnífico Museu de Marinha como cenário. As imagens de arquivo, algumas em que parece sósia do Rei de Espanha. As frases curtas e de impacto óbvio. Registei algumas: «Um líder deve ter visão, coragem e valores»; «Eu não gosto de mandar, gosto de convencer»; «Um grupo é uma força muito grande»; «O meu pai transmitiu-me o orgulho de ser português»; «A política é a mais nobre das profissões por ser dedicação à causa comum».

Gouveia e Melo, nascido em Moçambique, só começou a «ver televisão a sério» quando tinha 15 anos. Foi muito a tempo de se adaptar ao meio: sente-se ali como peixe na água. Pode repetir cem vezes que não tem ambições políticas: age e fala como se as tivesse. Algures no futuro, talvez esta entrevista seja lembrada como prelúdio de uma candidatura presidencial do homem que confessa «gostar imenso de desafios». As grandes caminhadas começam com pequenos passos.

 

Texto publicado no semanário Novo

13 comentários em “Adaptado à televisão como peixe na água”

  1. Tzvetan Todorov | Fronteiras do Pensamento
    Qu’est-ce qui n’est pas un voyage? Pour peu qu’on donne une extension figurée à ce terme – et on n’a jamais pu se retenir de le faire -, le voyage coïncide avec la vie, ni plus ni moins: celle-ci estelle autre chose qu’un passage de la naissance à la mort?

  2. Compreendo as boas intenções em sua posta. Mas assumo que o Pedro deverá ser maduro suficiente para se libertar de sebastianismos.
    Pássaros de gaiola que cantam sem encantar só fingem que não estão presos.

  3. Criticas ao Sr Correia,

    1-Falar de Rangel e de Gouveia e Melo neste texto até parece que os dois tem algo em comum.
    2- Daniel Oliveira já irrita um santo com aquela frase: “o que dizem os seus olhos”
    3- Isto de carteiras há muitas e cada vez mais tesas.
    4- Um líder deve ter tomates
    5- É preciso mandar para convencer
    6- Um grupo por vezes é só isso.
    7- A política devia de ser mais do que política.
    8- Sr. Correia deixe lá o General Gouveia e Melo ser candidato presidencial porque é mais homem do que a maior parte dos políticos que andam para aí a enganar o povo trabalhador.

  4. Podem recusar-se sebastianismos mas o que é certo é que Gouveia e Melo não abriu mas escancarou uma janela de esperança, no meu caso e que, espero, não será único, por motivos que ainda não vi expressos.
    Todos assistimos a um deplorável início da vacinação, com o que o PS teria de melhor para oferecer, um experiente médico várias vezes secretário de Estado. E todos vimos Gouveia e Melo em relativamente pouco tempo pôr a funcionar a mesma máquina e com as mesmas pessoas e que antes não funcionava.
    Ora é este o quadro geral da administração pública e o que Gouveia e Melo mostrou é que criando uma “task force” com cultura militar (como disse Portas, essa gente sabe mandar e sabe obedecer) objectivos definidos e limites temporais, seria possível devolver a eficácia à maquina administrativa, aumentando a eficiência e mesmo reduzindo custos. Mas, provavelmente, será optimismo a mais.

    1. Se há coisa que a História nos mostra (e que os emigrantes lusos constatam diariamente) é que quando são bem comandados, os portugueses vão até ao fim do mundo.
      Mas também a História diz que tal costuma ser excepção à regra: continuamos arreigados à tradição de ser um povo que não se governa nem se deixa governar.

    2. O quadro geral da administração pública assemelha-se ao quadro geral da administração privada. A única diferença é que a primeira continua agir mal e bem paga e a segunda age mal pagando mal. + de 800,000 trabalhadores foram abrangidos pelo aumento do salário mínimo nacional (assim vive o sector privado), 1 em cada 3 pobres em Portugal é trabalhador, significando que o trabalho não dignifica (e destes pobres trabalhadores vive o sector privado), 11% dos trabalhadores em Portugal são pobres,32,9% são trabalhadores (com vínculos laborais sem termo), 27,5% serão reformados, 26,6% são precários e 13% são desempregados.
      E vem o meu caro pensar que o Sebastião vice-almirante é que põe isto a funcionar.
      Se o Pedro Correia não tivesse em tempos mostrado indignação para com uma palavra minha, eu até diria: fodaaaa-se!

      1. Pois como eu próprio disse, será optimismo a mais.

        Contudo eu não personalizei exclusivamente no vice-almirante mas tal como o PS quando viu as barbas a arder por causa de um sindicato independente, pôs militares a conduzirem camiões-tanque, acho que intervenções cirúrgicas militares, como disse com objectivos predefinidos e tempo limitado, poderiam melhorar muita coisa.

        Também não posso concordar na equiparação geral do público e do privado, pelo menos no atendimento público em que no público o bom atendimento é a excepção enquanto no privado o mau atendimento é que é a excepção.
        Directamente relacionado com o anterior, também as reclamações têm diferentes resultados, embora aí, muitas grandes empresas tenham mais semelhanças com o sector público.

  5. Desconfio sempre quando um homem se põe em bicos de pés para aparecer na comunicação social. São esses e os que têm uma voz muito grossa, como o Marinho e Pinto. Foi só até ir para Bruxelas, depois viu-se…
    Como diz o velho ditado, queres conhecer o teu irmão dá-lhe um chicote para a mão, espero que não seja este o caso.
    Penso é que já era altura deste senhor recolher ao submarino e dar por finda a sua inestimável participação, senão até parece que o seu sucessor na task force é um atrasado mental.

  6. Recato, precisa-se. Quando lhes sobe à cabeça o EGO são todos iguais.
    Ninguém fala daqueles que nos fazem chegar as boas coisas. Agricultores, Pescadores,Padeiros, Cozinheiros,Electricistas, carpinteiros, pedreiros, etc…
    Mundo cão!

  7. Gostava muito que fosse um Eanes pós Covid. Creio que é uma pessoa muito capaz que teve o mediatismo que o seu cargo e a sua tarefa lhe impuseram. Um desempenho sem froufrous.
    E a quem enjoa o Alta Definição apenas tenho a dizer que tem tido ao longo destes doze anos, verdadeiros momentos de boa televisão. Até nem sou espe(c)tadora assídua, mas não espeto farpas pelo simples prazer de dizer mal.

  8. Qs nossos melhores aos mais altos cargos não é regra que uma democracia cheia de vícios nocivos contemple.

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