Deep shit – 27


Teresa Ribeiro,

 

SISTEMA DE AVALIAÇÃO

Os “culpados” vão-se sucedendo (primeiro, eram os próprios alunos, depois foi a sociedade, agora é a escola) e a desorientação teórica permanece – num ensaio desencantado sobre Contradições e Disfunções no Sistema de Ensino em Portugal é assim que Mário Machaqueiro, professor de Filosofia do secundário, descreve, em  2009, os problemas que afectam o exercício da sua profissão.  

A «escola democrática» traduz-se por “escola de sucesso para todos”. Mas, como se sabe que esse sucesso é incompatível com a fixação normativa de um tipo ideal de aluno, resolve-se o problema relativizando o conceito de «sucesso escolar»: a cada um o seu “sucesso”, acusa. Quanto ao “sucesso de todos”, essa é uma mentira que, na melhor das hipóteses, significa o sucesso da mediocridade. E a mediocridade, tanto quanto sei, está longe de ser emancipatória. – desabafa o também fundador da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino (APEDE) movimento de professores que se constituiu para contestar a reforma do ensino de Maria de Lurdes Rodrigues.

Sem concessões, este professor do secundário descreve o que classifica como “cultura da irresponsabilidade”: Apresentar indicadores de sucesso escolar traduzíveis num reduzido número de reprovações, é uma operação de marketing político que tem dois endereços: o dos destinatários internos – as famílias que importa tranquilizar a troco dos seus favores eleitorais –, e o dos destinatários externos – os organismos da União Europeia, junto dos quais interessa promover a miragem de um “Portugal de sucesso”.

Indiferente às reais competências dos alunos, a propaganda exige a renúncia à avaliação das mesmas. O sociologismo que encontramos em muitas destas teorias da educação tem também um corolário: desresponsabilizar sistematicamente os alunos pelos resultados obtidos. É a cultura da irresponsabilidade que se promove: “A culpa é sempre dos outros”.

O desfecho deste processo traduz-se numa situação que Mário Machaqueiro resume de forma lapidar: A maioria dos jovens chega ao secundário sem possuir as competências mínimas para enfrentar uma disciplina como a que eu lecciono.

Designando a avaliação que se pratica no ensino básico como avaliação formativa, o professor refere a pressão que este modelo exerce nos docentes: para que as práticas educativas se transformem radicalmente. É, sublinha, o triunfo da oralidade sobre a escrita, o colectivismo pedagógico (a obsessão pelos trabalhos de grupo), a relativização dos conteúdos lectivos (imersos numa espécie de debate permanente que facilmente os reduz ao estatuto de simples “opiniões”) e a redução do papel do professor ao de um animador cultural.

A descontinuidade que de acordo com Mário Machaqueiro se verifica entre o ensino básico e o secundário, com sistemas de avaliação completamente opostos, passando de uma avaliação predominantemente formativa na escolaridade obrigatória para uma avaliação quantitativa e hierarquizante no secundário, tem como corolário de tudo isto o facto de nenhuma ideia minimamente coerente de educação presidir ao sistema escolar que temos. Ler tudo aqui.

3 comentários em “Deep shit – 27”

  1. Talvez por o meu filho (mais velho) estar apenas no quarto ano, isto é, na escola primária, eu ainda não vi nenhum desses defeitos que supostamente perpassam o sistema educativo português.

    1) Trabalhos de grupo é coisa que não vejo, de todo. Todos os trabalhos que o meu filho tem para fazer em casa são individuais.

    2) Triunfo da oralidade sobre a escrita, também não vejo. O meu filho farta-se de fazer trabalhos escritos.

    3) Relativização dos conteúdos letivos, não há. Há livros de texto e os conteúdos letivos são claros e bem definidos. A professora tem um programa para dar e dá-o até ao fim.

    4) Professor reduzido a animador cultural, não vejo. Aliás, há bem pouca “cultura” na sala de aula.

    Não sei como será no secundário. Mas na primária, tudo isto não existe, ou existirá só muito pouco.

    1. Ainda bem, porque uma coisa é certa: em algum momento tudo muda de figura, visto que a “produção” de gerações com muito mais habilitações e muito menos conhecimentos é um facto íncontestável.

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