Sócrates publicou há dias um artigo no Expresso (a que tive acesso por o ver transcrito em vários lugares; não contribuo voluntariamente para o sustento de um órgão oficioso do Poder, independente apenas na exacta medida necessária para gente inocente acreditar que o seja) em que casca vigorosamente no seu antigo número dois. O ex-PM pode dizer o que quiser, e tem aliás todo o tempo do mundo para o fazer: já se percebeu que será julgado pelos seus crimes sim – mais década menos década; e que não é impossível que os seus advogados venham, com razão, invocar a prescrição num tempo em que a opinião pública já mal se lembrará do que é que ao certo ele estava acusado.
Sucede que Sócrates, desta vez, está coberto de razão: lista os triunfos (falaciosos uns e imaginários outros, mas não é esse aqui o ponto) dos seus governos e queixa-se de a direção do PS “se manter apostada em desmerecê-la [a maioria absoluta do PS], juntando-se, assim, ao discurso de todos os outros partidos que têm óbvio interesse político em fazê-lo”.
É realmente o que Costa faz: para dizer que “os portugueses têm má memória das maiorias absolutas, quer as do PSD quer a do PS” seria preciso que em algum momento, durante a carreira ascensional de Sócrates, e mesmo depois de passar para a câmara de Lisboa (onde foi uma nódoa igual à dos antecessores, e do sucessor) e para a Quadratura do Círculo, tivesse manifestado em algum momento a mais remota dúvida sobre os méritos dos governos PS, as excelsas qualidades do líder do seu partido e as fundas culpas no desastre a que o país foi conduzido em 2011.
Isto é tanto assim que se um canal de televisão se desse ao trabalho de pesquisar encontraria sem dificuldade, sempre que Costa ou o seu alter-ego para assuntos de aldrabices financeiras atroassem os ares com os méritos do equilíbrio orçamental, ou as cativações, ou o respeito pelos credores, declarações em que o próprio defendia precisamente o oposto. E, para isso, nem seria preciso remexer em mais do que a extinta Quadratura: Costa a pôr Sócrates, que Pacheco crucificava (quase sempre por más razões, que Nosso Senhor a Pacheco deu o gosto pela leitura e boa memória, mas discernimento nem por isso) nos cornos da lua, e a gabar até à vigésima quinta hora o descalabro perante as cordatas objurgatórias de Lobo Xavier, os dois persignados de grande respeito pelo “António”, como ainda hoje.
Seria essa obra, a de confrontar Costa hoje com o que consistentemente e anos a fio andou a fazer e defender, um serviço à democracia. Porque, a ser verdade o que dizem as sondagens, o eleitorado homologou uma maioria contranatura que não tinha sido aventada na campanha eleitoral; engoliu a patranha da reversão do brutal aumento de impostos, ao mesmo tempo que a receita fiscal cresceu mais do que o produto; e atribuiu ao governo o aumento das exportações, a diminuição do desemprego e um clima geral de alívio (ilusório decerto, o eleitorado suspeita, mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas) como se o turismo tivesse explosivamente crescido por alguma política que o tivesse induzido, como se alguma empresa exportadora pequena ou média tivesse visto o seu quadro fiscal, declarativo e regulamentar, melhorado, e como se a mudança da ortodoxia do BCE (exigente e até insolente nos tempos da troica) para uma orgia de facilitação tivesse tido alguma coisa a ver com a gordurosa e parlapatona bonomia de Costa.
O homem tem sorte, mas a sorte dele é o nosso azar. Porque, à cautela, já vai admitindo que não é impossível uma crise internacional, o tal diabo cuja chegada Passos Coelho previu. E, ao contrário do que diz, não estamos “melhor preparados” nem “temos mais instrumentos para resistir”: em 2015 a dívida pública bruta por cabeça, que era de 22.300 Euros, passa agora alegremente os 23.800. E como o sector privado está exausto, investimento que se veja não há, e se houver será sobretudo público (o que quer dizer elefantes brancos), a banca está ligada à máquina do BCE, o turismo não pode crescer muito mais porque não há muito mais para descobrir ou inventar, e o número de funcionários públicos cresceu em todos os anos do governo PS e são já 700.000, os tais instrumentos consistem na prática na boa-vontade dos nossos “parceiros” europeus.
Não é nada mal vista, a chantagem: convém que nos sustentem porque a União é um sucesso. E vejam lá se mantêm indefinidamente aquela coisa dos juros negativos: se trocar dívida velha por nova dá lucro a máquina do movimento perpétuo, afinal, existe.

O FMI já não vem !
O PS quer é vencer as eleições legislativas porque as ultimas perdeu-as, se ganhar fará dessa vitória a sua maioria absoluta.
Já quanto ao diabo ele acabar sempre por vir, é como dizer que estar vivo é o contrário de estar morto.
WW
São incríveis as nossas conquistas como país tendo 700.000 funcionários públicos!!
Só de pensar que o Staff do Império, na sua versão mais extensa quando ia de Ceuta ao Japão, teria entre 5000 a 6000, clérigos incluídos.
Gostei da comparação que fez entre a margem de manobra que o individuo tinha fora da esfera do estado no tempo da ditadura, e agora, no regime da liberdade ou lá o que é. Até para beber um café nos pedem o número de contribuinte.
a câmara de Lisboa (onde foi uma nódoa igual à dos antecessores, e do sucessor)
Não é bem assim. Verdadeira nódoa à frente da Câmara de Lisboa foi Nuno Kruz Abecassis, o do partido no qual o José Meireles Graça vota, que transformou a cidade num esgoto de automóveis a céu aberto. O atual presidente da Câmara de Lisboa distingue-se dos anteriores (inclusivé de António Costa) por ser o primeiro que faz alguns favores aos peões (e aos ciclistas, já agora), melhorando sistematicamente alguns passeios e eliminando os privilégios dos automobilistas nalgumas zonas.
A título do exemplo, veja-se a praça do Saldanha, que foi completamente destruída por Kruz Abecassis para a tansformar num escoadouro de automóvies, e que agora foi restaurada por Medina voltando a torná-la aceitável, quiçá mesmo apetecível, para os peões.
em 2015 a dívida pública bruta por cabeça, que era de 22.300 Euros, passa agora alegremente os 23.800
O que interessa não é a dívida por cabeça, mas sim a dívida em relação ao PIB. Essa diminuiu de 2015 para cá. Isso é que interessa.
Por exemplo, se um homem dever ao banco 100 mil euros deverá mais do que outro homem que deva 50 mil euros. Mas se o primeiro homem ganhar 2 mil euros por mês e o segundo homem ganhar apenas 600 euros por mês, então o primeiro homem estará em melhores condições para pagar a sua dívida, e isso é o que interessa.
Pois, mas o segundo também tem que pagar.
investimento que se veja não há, e se houver será sobretudo público
O José Meireles Graça contraria a líder do partido em que vota, a qual ainda na noite passada disse na televisão que tem sido o investimento privado quem tem aguentado o país, uma vez que o investimento público está (segundo ela) em mínimos históricos.
o eleitorado homologou uma maioria contranatura que não tinha sido aventada na campanha eleitoral
Errado. Essa maioria foi aventada por Catarina Martins no debate que fez com António Costa antes das legislativas de 2015. Martins sugeriu nesse debate que o BE se poderia coligar ao PS após as eleições.
“… a patranha da reversão do brutal aumento de impostos, ao mesmo tempo que a receita fiscal cresceu mais do que o produto…”
Na verdade não custa nada repetir, alto e bom som, um caricato “prometi e cumpri”.
O azar é que a realidade desmente a prometi e (pior) o cumpri.