De boca bem tapada


Pedro Correia,

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Passeio nas ruas de Lagos, onde me desloco pela segunda vez neste Verão. Mais gente por estes dias, mas confirma-se a tendência: muito menos turistas do que no ano passado. Tanto em terra como sobre as águas, fluviais ou marítimas.

Cruzo-me com um número crescente de pessoas, na rua, usando máscaras. Devem confundir o Algarve com a Madeira, onde – aí sim – as autoridades forçam a utilização permanente de máscara em todos os locais públicos ao ar livre, exceptuando (por enquanto) praias e piscinas.

 

Não falta, no entanto, quem utilize aquilo só como enfeite. Transportando-a na testa, no queixo, na orelha, no ombro, no pulso, no cotovelo, onde calha. Para andar assim, não será melhor ficar guardada?

No passeio público, junto à ribeira de Bensafrim, cruzo-me com um pai e dois filhos pequenos: vão todos de máscara encarnada, com o símbolo do Benfica. Sinto-me como espectador de um Carnaval antecipado.

 

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Bem à portuguesa, na hora de comer, formam-se filas. Todos acorrem à mesma hora aos mesmos locais. Largas dezenas de pessoas – sem manterem distância de segurança – amontoam-se, aguardando vez, à porta de estabelecimentos como a Casa do Prego e a Adega da Marina.

Chegam a esperar mais de uma hora por um lugar em espaços apinhados, onde a comida é de uma banalidade confrangedora, quando existem, ali bem perto, muitos restaurantes com melhor ementa e espaço disponível.

 

Nunca hei-de entender estes comportamentos. Mais risíveis só as pessoas que vou vendo, de toalha estendida no areal da Meia Praia, também de máscara posta: devem imaginar que a brisa marítima transporta o vírus.

Reparo num par de namorados caminhando de mão dada à beira-mar. Vão ambos mascarados, como se receassem contaminação mútua. Até o amor cede passo à disciplina sanitária, mesmo na idade em que a líbido comanda a vida.

Também se beijarão de máscara? Não me custa imaginar tal coisa. Em tempo de pandemia, todas as precauções são poucas.

 

O maior dilema ocorre na hora de comer. Creio ter chegado a hora de o Presidente da República fazer um apelo aos criativos da indústria portuguesa, incentivando-os a conceber uma máscara com fresta removível na zona labial para permitir a rápida ingestão de alimentos sem necessidade de retirar o famigerado adereço. Portugal registaria a patente e mostraria ao mundo como se faz.

Poderia chamar-se Máscara Marcelo, em merecida homenagem ao cidadão português que transporta aquilo há mais tempo e durante mais tempo. Foi, aliás, o primeiro a correr sagazmente para casa, encerrando-se durante duas semanas em voluntária quarentena doméstica, enquanto quase todos andávamos por aí, à vontadinha, expostos à codícia do Covid.

Ele é que a sabe toda, vou pensando entre dois mergulhos. A praia continua desafogada – sinal evidente de que o inquilino de Belém permanece longe daqui.

 

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50 comentários em “De boca bem tapada”

  1. Cruzo-me com um número crescente de pessoas, na rua, usando máscaras.

    O mesmo se verifica em Lisboa. Eu diria que atualmente mais de metade dos transeuntes, em Lisboa, usa máscara. E usa-a bem posta, tapando tanto o nariz como a boca.

    Sinal de que o medo se encontra bem espalhado entre a população. Os mídia estão fazendo bem o seu trabalho.

    1. Claro que tem de haver medo.

      Ontem, o Executivo do “irritante optimista” antecipava – com três semanas de antecedência – um novo “plano de contingência” que representa a confissão antecipada do fracasso governamental neste domínio.

    1. Estivesse a estagiária obrigada a usar máscara em espaços fechados e o Clinton teria sido poupado a quantos trabalhos…

  2. “Máscara Marcelo”, gostei à farta.
    Um exemplar mascarado de origem que nem precisa dela.
    As que vai consumindo para a fotografia são um inútil exercício.

  3. Uma máscara com fecho. Como esta
    https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/61wQ4VjH6HL._AC_SL1000_.jpg

    Há poucos dias Marcelo dividia bolos e beijava crianças. Daqui a 15 dias estou proibido de conviver com as minhas 16 concubinas.
    Agora que os camones vieram largar algum guito e a malta refrescou as ideias na praia, é hora de voltar ao regime espartano. Casa-transportes-trabalho-transportes-casa. Ao fim de semana o Regime passa uma autorização especial por agregado válido para uma ida ao cinema ou a um stand-up do Mário Nogueira. Perdão, Bruno Nogueira.

      1. Família numerosa. Infelizmente ainda não reconhecida por este Estado de valores conservadores de direita.
        Antes ainda o perro da casa vai ser reconhecido como membro do agregado familiar.

  4. Máscara em espaços abertos? Para além de ridículo é ineficaz.

    Por isso a Preservita, empresa virtual que até agora fabricava preservativos de lã e cachecóis para os ditos cujos, destinados a resguardar do frio as partes pudendas de namorados machos frequentadores de jardins em pleno Inverno, se propõe agora fabricar preservativos de latex gigantes, quais burqas antivirais dos tempos modernos.

    Tendo já efectuado registo provisório de patente, a empresa destaca a total protecção que um verdadeiro meio não-poroso garante quando desenrolado pela cabeça abaixo e estendendo-se até aos pés.

    De acordo com os mais recentes estudos de mercado, a empresa espera vender milhões de unidades deste inovador dispositivo de protecção. Inúmeros governos manifestaram já intenção de adquirir quantidades substanciais do produto para uso obrigatório de todos os políticos, jornalistas e otários avulso, afinal os únicos merecedores de tão elevada protecção.

  5. Como o compreendo! Cada figura com as ditas. Mas para mim o pior,são as pessoas com as máscaras no queixo e a fumar…

  6. Boa! É uma ideia usar máscaras com publicidade; também já pensei em máscaras artísticas, com pinturas, flores, pássaros, folhas…. Máscara com pedaço amovível para a entrada de alimentos ou beijo, por muito publicitada que seja pelo senhor Presidente Marcelo, não convence.
    Também julgo que o uso de máscara na rua, sem ajuntamento e proximidade extra é excessivo purismo. Na praia, vi apenas uma ou duas pessoas de máscara em todo este tempo. A ideia de usar a máscara no braço, na orelha, ou onde seja, pode ser prática, mas é um bocado parva. Penso eu de que.
    Talvez alguns namorados tenham mesmo deixado de beijar (se não haja motivo, é pena). Outros, tenho quase a certeza que não.

  7. Uso obrigatório de máscaras na Madeira?
    Uff! muita falta faz lá o ‘aqui neguem use máscara’ ou o coitado que nunca mais apareceu ‘isto das máscaras é tudo uma jardineira’.
    Mas, ‘pera lá. O que está a ser obrigatório na Madeira não pode ser?
    Afinal os de Legos, quase falam como os de lá, é que estão certos?

  8. O objectivo ultimo é estarmos de boca bem tapada e de olhos bem fechados.

    Eu sinto-me tão a leste disto que muitas vezes esqueço-me de pôr a máscara, mas os olhares que variam entre o surpreso e o amedrontado logo me fazem descer à terra.

    O que vale é que falta pouco para chegar em massa a “vacina chinesa”, ou a “variante Sputnik”, ou alguma mezinha à portuguesa, quem sabe descoberta pelo Marcelito, perdão, Sua excelência, o Sr.Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

    Nunca mais é 2022.

  9. Não há dúvida que é um caso de estudo, esta pandemia das máscaras.
    Sou obrigado a dar razão ao outro, é que não vejo nenhum médico com coragem para denunciar os malefícios das máscaras nomeadamente a disseminação de bactérias e fungos.
    Disseminação essa que é ampliada pela própria respiração.
    E os cobardes não dizem nada.

  10. E então o uso do preservativo!
    Que é contranatura, os únicos com coragem para denunciar foram a Igreja Católica que diziam não ao agasalho, que comprimia a liberdade de acção.
    Porque os outros todos apenas mostraram o que são…..

    Júlio bastos

  11. mesmo quanto a tematica nao interessa ao leitor, a prosa pode ser agradável. E portanto alem de direito do Pedro, corre sempre o risco de ser apreciado na forma.

    Ou seja, eu preferia que e de forma concisa, explicasse o que o move contra o uso da mascara.

    Bons banhos

    E mascaras impermeaveis.

    1. Na praia, tudo me move contra as máscaras. Acho ridículas aquelas imagens do PR de papo para o ar, no areal de Porto Santo, com a máscara na cara. Só falta ir tomar banho de burca.

      Este fundamentalismo mascarado gera um fundamentalismo oposto. O daquelas pessoas – em número crescente – que recusam usar máscara, seja onde for.

      1. pronto, assim…o lado mais vou dizer fundamentalista.

        Nao é segredo, pelo contrario, que as noticias e as imagens nos fazem felizes ou nos chocam. Quanto relativas a pessoas que odiamos, esta sempre tudo mal. Nao sei se entre os simpatizantes do tal inquilino, alguns os acham assim, de mascara, ainda mais querido.

        Só teoricamente o fundamentalismo gera outro fundamentalismo contrario. A questao nao é essa, e o Pedro também o sabe.

        O que está determinado, e cada vez mais, e a nivel mundial, é que o uso da mascara é necessario.

        Portanto , nao se trata de moda ou birra, mas da saude geral, da minha e dos mais. E nao havendo saude, tudo pára, tudo acaba, morre.

        E o Pedro melhor faria, se evidenciasse a importancia da mascara.

      2. e faltou abordar a referencia ” em numero crescente “.

        Muitas pessoas estao a passar mal, mesmo desesperadas, e nao querem morrer de fome, portanto estao contra tudo, contra as mascaras. Muitas pessoas, preferem correr o risco de passar entre os pingos da chuva.

        Mal lembrado, tambem muita gente era contra os cintos de segurança, etc, mas tiveram de cumprir, mais nada !!!

  12. isto é fora do tema, talvez o Pedro nao saiba tudo e pode ser util :

    ouvi ontem a apresentaçao de um livro : a segunda vida de fernando pessoa, de um tal joao felix.

    A parte interessante é que tera feito uma cronologia, com base na leitura dos jornais diarios, do ano 1971 e 1975.

  13. Eu não sei como é que as pessoas se comportam no sul ou na capital, mas no Porto e nas praias locais, ninguém se desvia dos outros. Se não se tem uma máscara vai-se acabar por cruzar com alguém (pensemos num passeio sem hipótese de manter um distanciamento) que também não usará máscara. Nestas situações, inevitáveis em zonas que não estão desertas, sugere-se que se sustenha a respiração? Colocar o cotovelo a tapar a boca e o nariz?
    Se temos uma sociedade na qual uma medida de auto preservação já começa a ser alvo de chacota por quem vê a sua liberdade de mostrar uma dentição perfeita posta em causa, realmente vivemos tempos bem peculiares.

    1. As pessoas não têm de andar o tempo todo de máscara, em lugares públicos, ao ar livre. Acabo de saber que o PM recusa aprovar essa medida, que lhe tem sido recomendada por alegados especialistas em saúde pública, e faz ele muito bem.

      O uso permanente de máscara fora das quatro paredes domésticas provoca problemas respiratórios, aumenta os níveis de ansiedade, afecta o equilíbrio psicológico e é altamente lesivo do convívio social. Como se víssemos permanentemente nos outros uma espécie de inimigos prontos a infectar-nos.

      Caramba, não é preciso resvalar para esses extremos que só poderão causar maus resultados. Ou péssimos.

      Como os tais namorados que vi passear de mãos dadas aqui na Meia Praia, em pleno Agosto, de máscara na cara. Este comportamento não augura nada de bom. Qualquer dia acabamos todos vestidos de “preservativos humanos”, como no tal filme. A começar, claro, no Presidente da República.

      1. Subscrevo na íntegra.

        Em abono da verdade se diga que Costa não estava pelos ajustes quando decretou o primeiro confinamento mas com o PR confinado em antecipação é a decretar o estado de emergência e a abertura dos telejornais a criar a psicose e o espírito persecutório sobre quem ainda andava nas ruas, não teve outra alternativa. Com histórico de mortos de Pedrógão que ele tinha, qualquer pessoa de 90 anos a morrer de covid ser-lhe-ia cobrado. Seria a sua morte política.

        1. Sim, mas não creio que a situação vá repetir-se. Uma coisa são as legítimas precauções sanitárias, outra são excessos totalmente desproporcionados face ao problema concreto que existe. Hoje a máscara, amanhã a mordaça. Um pequeno passo para o homem, um retrocesso para a Humanidade.

          1. Deste clima de mentecaptos à solta, lembro-me recorrentemente de um Prós e Contras com uma convidada que era professora de Ciências na faculdade pública do Porto completamente azougada a exigir o uso de máscara em qualquer lugar e a defender confinamento compulsivo e outras pérolas. Qualquer voz que não se enquadre no discurso puro e duro é remetido para programas de nicho.

  14. Passámos do confinamento para aliviar o SNS para o (quase certo) uso obrigatório de máscara em qualquer lugar. A CS tem uma grande quota parte de responsabilidade no clima de medo e paranóia que se instalou. Estou curioso (e muito apreensivo) com a maneira como a CS vai descalçar a bota. Se calhar nem lhe interessa, nem que para isso continue a abrir telejornais com anúncios de 1 morto e 300 novos infectados (com referência a menos internados e mais recuperados, feita quase em surdina).

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