«Dê a pata, não seja mau»


Pedro Correia,

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Até há poucos anos, era padrão corrente o excesso de formalismo no modo como as pessoas se dirigiam umas às outras na televisão. Recordo uma entrevista conduzida por Judite Sousa na RTP em que a jornalista tratou cerca de trinta vezes o seu convidado por sôtor. Sem ninguém a ter advertido, antes ou depois, que duas vezes já é de mais.

De repente, passámos para o extremo oposto. Hoje quase toda a gente se trata por tu. Ontem à noite, uma dessas jovens certamente mal pagas mas com “bom visual” postas à frente da pantalha para apresentar alegados espaços informativos tratava por tu um convidado com idade para ser seu avô enquanto este resistia à tendência, tratando-a respeitosamente por você. 

São sinais dos tempos. Por óbvia importação da televisão americana, onde as formas de tratamento “igualitário” se tornaram de uso corrente, facilitadas pela inexistência de diferença entre tu e você (you, em ambos os casos) no idioma inglês.

 

Acho muito bem que se desengravate a linguagem. Andámos demasiado tempo amarrados a pompas retóricas, em parte relacionadas com supostos graus académicos de que se usava e abusava nas formas de tratamento verbal. Hoje nem no Parlamento se emprega a antiga excelência, salvo para uso sarcástico. 

Mas há o risco de cair no exagero contrário. Reparem, uma vez mais, no que sucede nas televisões: quase todos os intervenientes num debate ou numa entrevista se tratam hoje pelo nome próprio. Como se fossem velhos conhecidos e estivessem a dialogar em ameno convívio nos sofás lá de casa. Também aqui por óbvio mimetismo dos EUA.

Já temos o “Presidente Marcelo”, as bloquistas Catarina e Marisa, o comunista Jerónimo e até o cê-dê-esse Chicão. Nisto o partido fundado por Freitas do Amaral e Amaro da Costa tornou-se precursor: não tarda muito, teremos a proliferação dos diminutivos (embora Chicão pretenda ser aumentativo). Uma vez mais, seguindo o exemplo dos States, onde já houve um presidente chamado Jimmy e outro chamado Bill – que assinavam assim até em documentos oficiais. Não custa vaticinar que também por cá surgirão um Jaiminho ou um Gui na caça ao voto.

 

Enquanto isto sucede, inversamente, a forma de tratamento dos animais torna-se mais solene, grave e reverente. Verifico isso agora com frequência, quando caminho nas ruas do meu bairro. Não faltam damas e cavalheiros a tratar por você os cães que levam a passear, o que para mim constitui novidade absoluta. Nunca tinha ouvido nada semelhante, nem na Lisboa mais snobe.

«Sente-se aí, dê a pata, não seja mau, mostre como é bonito.» São exemplos de frases que vou escutando, reveladoras da fulgurante ascensão canídea na hierarquia urbana deste nosso século XXI. Por vezes atrevo-me pensar que anda tudo um bocado às avessas. Mas é capaz de ser defeito meu, por absoluta incapacidade de acompanhar a marcha imparável do progresso. 

Como qualquer de nós, vou-me adaptando. Há dias, pedi ao canário: «Canta para mim, Caruso.» Mas logo emendei: «Cante para mim.» E ele cantou.

101 comentários em “«Dê a pata, não seja mau»”

  1. Por falar em cante… há uns anos o Cante chamava-se Cantar Alentejano ou, ainda melhor, Cantares Alentejanos. Uma denominação que ecoava com grandeza e ficava bem, visualmente, assim escrita.

    Depois para os telejornais (esse monumento à imbecilidade humana) inventaram o nome não menos profundamente estúpido de “Cante” na pronúncia local para lhe dar um ar mais banal e autóctone. Whatever, a estupidez e o universo… já dizia Einstein.

    Mas será que o Vira do Minho um dia destes aparece no Tachos, Textinhos Estúpidos e Panelas da SIC como o “Bira”, o Bira do Mînho?

    1. Pois. Pela mesma lógica de equiparar a ortografia a uma transcrição fonética, deve escrever-se bira. E corredinhe, como se pronuncia em grande parte do Algarve.
      Sem esquecer o malhom, em vez de malhão.

      1. Pela mesma lógica de equiparar a ortografia a uma transcrição fonética, deve escrever-se bira.

        Não, porque tem que se ter em atenção a pronúncia da palavra em todas as regiões do país.

        Quando numa parte do país se pronuncia v, então escreve-se com “v”, mesmo que noutra parte substancial do país se pronuncie b.

        Tal como em alemão, as sílabas que se pronunciam ig numa parte do país escrevem-se “ig”, ainda que em grande parte da Alemanha essas sílabas se pronunciem ich. (Exemplos: “Koenig”, “fertig”, “billig”.)

        1. Este é um blogue muito ecuménico. Salta da pronúncia alentejana para a língua alemã, sabe-se lá a propósito de quê, mas fica sempre bem.
          “Chic a valer”, como diria o Dâmaso Salcedo.

        2. Nunca apanhei ninguém a dizer o “g” nessas palavras como o diríamos em Portugal. Apanhei de facto como o “ch” em “ich” e o “ch” em “machen”. Este último será influência do holandês, que pronuncia os “g” (e os “ch”) como o “j” espanhol.

          Pedro, já disparei para o holandês. Tens a oportunidade de lançar outra língua à conversa

          1. Nunca apanhei ninguém a dizer o “g” nessas palavras como o diríamos em Portugal.

            Pois não. Em alemão, escreve-se com g mas lê-se k. Mas isso é uma regra geral da língua alemã, não tem a ver com a questão de pronúncia diferenciada que eu estava a discutir.

            Por exemplo, “fertig” lê-se “fertik” em parte da Alemanha, mas “fertich” na maior parte. Tal e qual como “Aveiro” se lê “aveiru” numa parte de Portugal, mas “abeiru” em grande parte de Portugal (incluindo em Aveiro).

          2. O neerlandês, não existe o holandês, falado no sul e também na Flandres é o neerlandês ‘saloio’, como cá diríamos, talvez devido influência da ocupação espanhola. P.ex. zee (mar) pronuncia-se zéi, como os alentejanos, mas no sul e Flandres pronuncia-se géi.

        3. Felizmente os alemães não são todos estúpidos e não vão nessa cantiga de a ideologia (ainda por cima uma ideologia de merda) mandar na Língua.

      2. Isso vê-se no servo-croata. Há regiões (não apenas países) onde a letra “e” (que se ê como o “é” em português é transformado em “ié” (foneticamente falando, “je” escrito).

        É um caso onde a escrita imita a fala e pronúncia.

  2. «Já temos o “Presidente Marcelo”, as bloquistas Catarina e Marisa, o comunista Jerónimo e até o cê-dê-esse Chicão»

    E tivemos o primeiro-ministro Sócrates (embora aí provavelmente muita gente julgasse que era apelido).

    No caso da Catarina Martins e do Jerónimo de Sousa, penso que seja em parte por terem apelidos extremamente vulgares.

  3. Este post lembrou-me a sensação de mau estar, incomodo mesmo, quando uma vez tropecei numa entrevista da Cristina da Malveira à D. Helena Sacadura Cabral . Parecia que estava numa tasca de tapas pitorescas com uma colega.
    Desarmonioso simplesmente e fatal…

  4. Na mouche.
    Estenda-se o comentário aos consultórios médicos, já que estes profissionais parecem sofrer do síndrome de pivot televisivo atrevido, abolindo o tratamento por senhor ou senhora dona aos seus pacientes, sem se escusarem a ser tratados – eles próprios – com a máxima deferência.

  5. ” vou-me adaptando.”
    Principalmente nas derrotas do Sporting, já faz parte da incapacidade de um Presidente que não sabe cantar.

  6. Pois eu acho muito bem que se respeitem os animais, e pelo teor epigramático deste seu postal a gozar com os defensores dos direitos de respeito entre os seres animais da natureza, muito gostava de saber o que tem o Pedro Correia contra.
    Quer dizer; não basta o canário tenor ser prisioneiro à vida, ainda se desrespeita o infeliz enclausurado para o ouvir exercer o lírico canto.
    O que por aqui não se aprende.

  7. A mim que sou do povo e por isso não tenho sangue azul, soa-me tão estranho isso de tratar os cães por você como me soa estranho tratar criancinhas de dois anos também por você.

    De qualquer maneira, e se fizesses mas é um post com assuntos sérios, como por exemplo a entrevista do embaixador amaricano ao expresso, ah?

    Cumprimentos

      1. Não é meu embaixador mas fala como se fosse, sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar.
        Desculpa lá qq coisinha mas isso chateia-me mais que uma tia qq tratar o cão por você.

    1. Claro que não sou o Pedro Correia como preferiria mas digo-lhe nada encontrei de invulgar na entrevista. Muito desagradável, é certo, pois ninguém gosta de ultimatos mas, ainda mais do que o inglês do Mapa-côr-de-rosa este era previsível.

      A empresa que investiu na EDP é controlada pelo PC chinês e os americanos já tinham feito saber que se essa participação financeira não fosse reduzida a valores simbólicos os investimentos da EDP renováveis nos EUA seriam comprometidos.
      O conflito EUA-China é conhecido há muitos meses e que a Huawei é um alvo há alguns. Ora o governo preparava-se para dar a rede de 5G há Huawei (ou seja dar acesso à China à informação digital portuguesa) e, no concurso para o porto de Sines, em grande parte pelo desenho do caderno de encargos, só concorreram duas empresas, ambas chinesas
      Pessoalmente, até acredito que, esgotados os canais informais sem resposta do governo de António Costa, a entrevista fosse, na óptica americana, uma última oportunidade concedida a Portugal.
      Como disse ninguém gosta de ultimatos mas o que mais me incomodou foi a reacção portuguesa.

      Augusto Silva ME declarou que quem decide a política portuguesa são os representantes do povo português ou seja, levantou uma falsa questão – nunca o embaixador sequer sugeriu algum sentido para a decisão, apenas disse que ela teria de ser tomada – e não tocou no essencial. E, não querendo ou não podendo falar no essencial, o que lhe competia era uma declaração tipo: o governo português tomou conhecimento da entrevista e oportunamente abordará o assunto pelos canais apropriados. Mas o que disse, além de também nada dizer, sugere uma crítica ao embaixador o que não tem consistência factual e só pode vir a dificultar futuros contactos com a embaixada dos EUA.

      E inacreditavelmente o presidente Marcelo, vem repetir Augusto Silva sem nada mais acrescentar. Ou seja em vez de estar calado e ficar disponível para vir ajudar o governo na provável hipótese do diálogo com o embaixador se tornar difícil, fecha essa porta e comete um erro protocolar primário: de facto, quem responde a um embaixador é o ministro dos Negócios Estrangeiros, nunca um chefe do Estado (o assessor diplomático de Marcelo, ou deve ser imediatamente demitido ou devia demitir-se por ter sido ignorado, se foi o caso).
      Isto foi mencionado e duas vezes repetido por Ana Gomes na sua última entrevista onde disse achar (pausa prolongada) insólita a atitude de Marcelo.

      Fica por referir a questão da Mota-Engil e por esclarecer o que está em causa para Portugal se os EUA ostracizarem Sines ou suspenderem o apoio militar a Portugal via NATO questões, para mim, cruciais.
      Dentro do meu pessimismo estrutural, como não acredito que o governo português consiga a substituição do embaixador (que não daria a entrevista sem aval do secretário de Estado) acho que vai acabar a pedir batatinhas a Bruxelas para o ajudar a sair do buraco.
      Em qualquer caso, como desagradar aos EUA será muito caro e indemnizar os chineses também, além do problema político que talvez se possa atenuar na UE, vai haver mais uma continha jeitosa para todos pagarmos.

      1. Tem razão em tudo o que diz, mas um diplomata é um diplomata e por muito pequenos que sejamos temos direito a exigir ser tratados com respeito, independentemente da velha máxima de que manda quem pode e obedece quem deve.
        E nesta guerra sem quartel pelo futuro próximo, de que a Huawei é o epicentro, entre os EUA e a China, não é obrigatório sermos tratados desta maneira ainda por cima por uma América que uma vez mais se fecha sobre si própria, de uma forma despudorada, arrogante, literalmente sem máscara.

        Cumprimentos

  8. Ao mesmo tempo que os casais não têm filhos e adoptam cães e gatos como tal, o tratamento generalizado por tu causa-me uma certa alergia.
    Chocou-me num programa da RTP1 em que o apresentadorzito tratava por tu Sérgio Godinho.
    Há mais casos, mas este ainda ´não o consegui digerir
    Dizem que sou eu que tenho mau feitio
    Dno

  9. Parece lógico.
    Tive colegas de liceu cujos pais os tratavam por você. Sendo o Tareco neo-familiar, é normal ter a mesma reverência.

    Ps: um “profe” (stor) fez queixa da turma do meu petiz porque alguns alunos se dirigiam a ele na 2ª pessoa do singular.

  10. Mas por outro lado continuamos a ter engenheiros e doutores a serem chamados como tal, quando não o são.

      1. Pois um dia já num passado remoto conheci uma arquit-teta,em que tive o prazer de ter muitas conversas amenas, mas o que me irritava era quando ela ia passear o seu Lassie(raça collie) e punha-se a chamar o patudo, quase a gritar, anda cá Dick.

          1. Já vi acontecer isso. Várias vezes.
            Agora há essa mania também: dar nomes de gente aos cães e aos gatos. Outra importação dos States.

  11. Eu gostava de ver se você acordasse às 3 da manhã com uma matilha a uivar um “cante” se você reagia com esses formalismos da língua.

  12. E os nomes compostos?
    Mora cá em casa um Deutsche Maria, mais conhecido por Dodi. Até há pouco tempo, acompanhado pela Sasha Manuela Cadela, a Sasá (de registo, um Daktari e uma Fontequebrada – afixo dos canis onde os comprei; mas esses nomes, só servem para o registo formal).

    Primos do Baltasar Sinatra (um peluche gigante que resgatei no meio de uma movimentada estrada – rafeiro alentejano que foi, felizmente para mim, rapidamente adoptado; precedido, no posto, pela Becki Babalou, raça indeterminada e que dificilmente alguma vez será adoptada).

    Mas bom, centrando no essencial, a iniciativa de preceder o nome do cão cá de casa por ‘Senhor’, partiu do meu pai. Suponho que altamente influenciado pelo facto de ter chegado à sala e constatado a presença do surpreendente Sr. Deutsche… no seu sofá. Aquele sofá de canto, vista privilegiada para todo o espaço, que ser vivo senciente algum ousou ocupar. Diz o pai, ainda fumador à data, que se sentiu observado e que se houvesse um balão por cima da cabeça do animal haveria de lá estar qualquer coisa como:”Isso que traz aí nas mãos, o que é? É a minha latinha de salsichas?”. Era o cinzeiro. “Não é a minha latinha de salsichas? Então já sabemos o que fazer, não já? Veja lá que a minha humana deixou-as em cima da bancada, nem as arrumou no armário que estava cheia de pressa. É uma latinha por dia, mas se sentir generoso, faço-lhe o obséquio, claro.”

    A minha tia, quando em plena clínica veterinária ouviu ‘Avó do Billy Beane’ (não é o jogador, não senhor, é mesmo o Buldogue francês pertença do filho mais novo), hesitou. Diz ela que ouvir ‘Billy Bean’ ajudou muito (primeira vez que a tia se prestou ao papel, e só porque o primo estava fora de Portugal e ligou para a Clínica para explicar quem lá ia, e porquê, e encomendar a graçola).

    Graçolas à parte, também conheço a tendência clara para usar os graus de parentesco como se os animais fossem filhos das donos.

    Cada vez que chego a casa, vinda de casa do meu pai, e sou sujeita à revista do Sr. Deutsche, sinto que há ali um:”Foi a casa do avô, que eu sei! Onde é que está o presunto, hein!?”.

    Está em curso uma clara antropomorfização dos animais. Parece-me evidente.

    Festinhas ao Caruso. 🙂

    1. Bela crónica que lhe saiu, minha cara colega.

      Uma vez, passeava eu o meu cachorro ali para as bandas de Telheiras, quando me cruzei com um miúdo todo empertigado, com um vira-lata pela trela.
      Perguntei ao puto:
      – Como se chama o teu cão?
      E ele, de imediato:
      – Johann Sebastian Bach.

      Deixou-me sem palavras. O que não é fácil.

      P. S. – O Caruso cantarolou, grato pela atenção.

      1. Só mesmo a sua enormíssima generosidade justifica o elogio. 🙂

        Até os vira-latas, no mundo dos animais, podem ser distintos, já viu!? ‘Bach’ era claramente insuficiente…

        Nomes de personagens, só mesmo o ‘Tarzan’ (arraçado de cão de pastor alemão) e o ‘Rocky’ (cão de água português), contemporâneos, até. Tivemos um ‘Scott’ (pastor alemão), mas diria que a escolha foi influenciada pela publicidade à marca de papel higiénico.

        Contudo, reafirmo a importância do uso da terceira pessoa…

        – Dá-me um beijinho, Dodi (aproximo uma das faces)…

        Vira, desavergonhadamente, a cara para o lado…

        – Vá lá Dodi, dá um beijinho à dona… (repito a aproximação)

        Repete a sem vergonhice…

        – O Cão quer uma salsicha?

        Guina a cabeça a 45°, orelhinhas em pé e uma lambidela no vazio, olhos fixos no meu rosto…

        Aproximo o rosto, enquanto digo:”O Cão quer uma salsicha, pois quer…
        dou a face, e repito: um beijinho!

        A estuporada (mas adorável) criatura, finge que me lambe a face (já percebeu a mecânica da coisa, não é preciso chegar a vias de facto, basta dar o ar) e eu dou-lhe uma salsicha. Win win, e ninguém me tira da cabeça que a terceira pessoa faz t-o-d-a a diferença. 🙂

        É sempre um gosto, caro Pedro Correia.

        *Acompanhado, até há pouco tempo,* e não o que lá está.

        *Beane* e não *Bean*

        *se se sentir e não *se sentir

        *Babalu e não *Babalou

        *algum, ousou ocupar

        *armário, já que estava cheia de pressa

        *buldogue

        (vírgulas mal colocadas, nem começo )

  13. Sim senhor. Então agora seleccionam-se comentários?
    E agora nem há a desculpa do futebol que nem falei no penalti oferecido em Paços, nem nada.

  14. Leopedro.
    Texto muito interessante, os comentários nem tanto.
    Mas, faltou-lhe aquela ‘sabe com quem está a falar’ para marcar a distância e o ‘por favor descubra-se’ num quadro bem visível das repartições públicas.
    Também houve a moda do tratamento por tu entre pais e filhos e entre filhos e pais, na classe média urbana que não foram corrigindo as criancinhas e assim foi ficando, mais as raparigas que os rapazes, e por isso é que os ‘ricos’ tratam os filhos por você para as criancinhas aprenderem boas maneiras.
    Mas o mais incrível era o tratamento por tu dos médicos para os pacientes e dos polícias para os cidadãos. Diziam que no caso dos médicos era para por os pacientes mais à vontade e os polícias era para serem mais respeitados, evidentemente que só acontecia a pessoas modestas com os médicos e aos pouco engravatados com os polícias.
    E quanto a sotaques faltou o das ‘tiás de Cascais’, com o ‘piqueno’, o ‘dezer’, o ‘psebe’, e ‘sabe lá’ mais.

  15. A entrevistadora bem apresentada a tratar o entrevistado por tu, que vai resistindo tratando-a por você.

    As pessoas a tratarem os cães por você.

    Será que o entrevistado não estaria, qual misógino a desferir discurso de ódio a preceito – algo que constitucional e penalmente não existe – a tratar a entrevistadora como se de uma cadela se tratasse? Remeto desde já a questão para uma qualquer comichão da igualdade do género alimentício. É chocante, tipo rosa-choque.

    Lembro-me de um nosso ex-primeiro ministro afirmar que tratava um congénere por tu, esquecendo-se de acrescentar que apenas falava com ele em inglês, onde o “you” é difuso, e fico com saudades do brasileiro onde todos se tratam por você, como em “si cê quisé”. Ai que saudades da língua portuguesa.

      1. Ou um gato. Em qualquer caso, em lugar de comprar, por favor adoptem. Ou, se o sentido de filiação próprio do termo vos repugnar, quando aplicado a um dito “irracional”, acolham. Pode não ser da mais apurada raça, pode não ter genealogia fidalga (de nome, enfim), pode ser um perfeito rafeiro. Será com toda a certeza, e mesmo que tenha a sua peculiar personalidade, um amigo.

        Adoptem, acolham. Ou o que seja. Mas com responsabilidade e compromisso; um potencialmente longo compromisso. Respeitem-nos. Não, não são coisas.

        Costa

          1. Perdido anda o Leão
            no meio do ramadão
            a saltar como um sapinho
            e a miar como um gatinho!!

  16. Ainda há poucas semanas vi a Clara de Sousa entrevistar o Ricardo Araújo Pereira tratando-o por tu enquanto este a tratava por “a Clara”. Não sei como é o seu relacionamento na vida privada mas, se já acho bastante absurdo o telejornal de um canal televisivo fazer notícia da sua grelha de entretenimento, aquele familiar e corporativo “tu” quadrava a bizarria.

    Em contraste, vi muitas emissões do Livro Aberto, programa literário apresentado há uma quinzena de anos pelo Francisco José Viegas (e tanta falta faz este na televisão), e não me recordo de o ouvir tratar por “tu” os convidados, mesmo aqueles que eu sabia serem seus amigos. Ai acontecia amiúde o oposto: enquanto FJV dizia “o António escreveu”, “a Inês organizou”, “o Mário publicou”, as pessoas em questão respondiam com “sabes”, “disseste”, etc.

    A diferença entre entrevistadores como Francisco José Viegas e Clara de Sousa é os primeiros terem a noção de que estão ali como representante do espectador e não como “amigo de jantaradas” do convidado.

    1. A importância de saber estar. Nunca falamos da mesma forma quando estamos na intimidade, em casa, em conversas privadas, ou em locais públicos. E nenhum local é tão público como a televisão.
      Eu sou da escola do Francisco. Estamos ambos muito fora de moda.

      1. “A importância de saber estar.”

        Para mim tão ou mais importante do que os tratamentos são as posturas. Assisti a diversos programas de Júlio Machado Vaz e nem sempre apreciava as abordagens mas quando se espojava no sofá ficava incomodado.

          1. Um psiquiatra que parecia um Messias, que levou as mulheres a loucura com tanta conversa sobre sexo.

  17. Já me surpreendi a ralhar com os cães em inglês , a indiferença deles é a mesma… how snob!
    Não tratar os familiares por “tu” são apenas hábitos familiares, nada mais. Entre colegas dependerá da cultura laboral específica (pessoalmente, prefiro reservar o “tu” para amigos próximos).
    E nos mídia, têm razão é absurdo confundirem coloquial com falta de educação.
    Incomoda-me tratarem os idosos por tu (incluindo alguns médicos que tratam todos os doentes assim…)

  18. Em relação as pessoas

    O que existe hoje em dia é muita falta de educação!
    Sem dúvidas que tudo isto terá as suas consequências.

    Em relação ao cães
    Não vejo mal nenhum em serem tratados com nomes de pessoas.

    Faz-me mais confusão o bobi, o pantufa o piruças, lassi,tininha etc.
    Que demonstra bem a bimbalhice ….

      1. Para ter ficado ao que parece tão incomodado!
        Não me diga que o seu cão é um Bobi ou uma Tininha !?
        Fui a autora do comentário das 14H33

        Clara Costa

        1. Nada incomodado. Apenas surpreendido por, num debate sobre nomes, aparecerem pessoas a deixar opiniões anónimas.
          Ao menos nesta matéria deviam suspender o anonimato.

          Quanto aos animais, que os tratem por você ou por tu ou por Excelência e que lhes chamem como quiserem. Desde que não lhes ponham Anónimo como “nome”. Não deve dar jeito nenhum chamar-lhes assim.

  19. Não deveriam ficar escandalizados. Nunca se sabe, como nas pessoas, o que está debaixo da pele de um cão! O hábito não faz o monge. Um cão que vai a passear pela mão de alguém, pode muito bem ser arraçado de príncipe, de ministro de igrejas, pode pertencer aos morgados de Fafe, gente de grande estirpe, pode andar cheio de rendas por baixo, pode ter já uma medalha de comendador…, nunca se deve julgar a peça sem uma “lupa”!
    Para não virem para aqui depois com reclamações.

    1. Eu não me escandalizo com quase nada. Mas continuo a criticar esta crescente tendência urbano-depressiva de bestializar as pessoas e humanizar os animais. Como se para dar boas provas de que tratamos bem a bicharada tivéssemos de os equiparar a seres humanos.

      1. Tendência urbano-depressiva é o futebol e a violência gratuita com que se expressa como se fosse um comportamento humano aceitável.

        Clara Costa

        1. Pois claro. Olha-se para o Cristiano Ronaldo e vê-se logo que está ali um indivíduo cheio de tendências urbano-depressivas. Olha-se para o João Félix e toda a gente percebe que o miúdo só pode incentivar a violência gratuita.

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