Da indignação


Teresa Ribeiro,

Painéis sobre painéis de comentadores têm desfilado diariamente nas televisões e nos jornais a perorar sobre a nossa crise, com uma indignação que me interessa. Como cresci a ver portugueses a indignar-se com outros portugueses e eu mesma, é claro, aprendi cedo a fazer o mesmo, pergunto-me porque me anda a interessar tanto esta indignação.

Também vejo políticos a desfilar nesta montra, muito ofendidos, quase revoltados, com o estado a que isto chegou. Os políticos são quem mais me fascina. É notável a sua prestação. Levam o estado de negação, tão característico dos tugas, ao paroxismo, quando recordam que estamos agora a sofrer o resultado de trinta anos de políticas erradas. Todos se indignam com a inépcia de todos como se não fizessem parte do problema.

Sempre foi assim. Nós somos assim. Se calhar é atávico. É, de certeza, disfuncional. Andarmos permanentemente a fazer papel de outsiders, excluindo-nos assim das responsabilidades, é o nosso maior problema estrutural, porque viabiliza a inconsequência em que nos estamos a dissolver. 

Talvez o espectáculo da indignação me interesse mais agora porque nunca foi tão pujante. Com a casa a arder o teatrinho evoluiu, como seria de esperar, para um registo operático. É mais alucinante e insano, o que  me permite ter uma consciência muito mais apurada da nossa realidade demencial.

7 comentários em “Da indignação”

  1. Partilho do seu interesse em tanta indignação. Mais, são tantas as vozes a apresentar soluções que me pergunto: se há tanta solução para a crise, por que não saímos dela?

      1. Nada tem de privado, que a Ana já o tornou público. Mas acho que ela própria se encarregará de vir aqui dar-te conta do apreço e estima que nutre por aranhas, moscas e outros representantes do submundo animal.

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