Painéis sobre painéis de comentadores têm desfilado diariamente nas televisões e nos jornais a perorar sobre a nossa crise, com uma indignação que me interessa. Como cresci a ver portugueses a indignar-se com outros portugueses e eu mesma, é claro, aprendi cedo a fazer o mesmo, pergunto-me porque me anda a interessar tanto esta indignação.
Também vejo políticos a desfilar nesta montra, muito ofendidos, quase revoltados, com o estado a que isto chegou. Os políticos são quem mais me fascina. É notável a sua prestação. Levam o estado de negação, tão característico dos tugas, ao paroxismo, quando recordam que estamos agora a sofrer o resultado de trinta anos de políticas erradas. Todos se indignam com a inépcia de todos como se não fizessem parte do problema.
Sempre foi assim. Nós somos assim. Se calhar é atávico. É, de certeza, disfuncional. Andarmos permanentemente a fazer papel de outsiders, excluindo-nos assim das responsabilidades, é o nosso maior problema estrutural, porque viabiliza a inconsequência em que nos estamos a dissolver.
Talvez o espectáculo da indignação me interesse mais agora porque nunca foi tão pujante. Com a casa a arder o teatrinho evoluiu, como seria de esperar, para um registo operático. É mais alucinante e insano, o que me permite ter uma consciência muito mais apurada da nossa realidade demencial.


Somos bons na indignação e no entanto muito fracos na acção. Temos o hábito de nos indignar num momento e de nos resignar pouco tempo depois.
Partilho do seu interesse em tanta indignação. Mais, são tantas as vozes a apresentar soluções que me pergunto: se há tanta solução para a crise, por que não saímos dela?
Tenho a certeza de que a Ana Vidal vai adorar a ilustração.
Hum… essa da Ana é uma private joke, ou sou eu que estou um bocadinho lerda?
Nada tem de privado, que a Ana já o tornou público. Mas acho que ela própria se encarregará de vir aqui dar-te conta do apreço e estima que nutre por aranhas, moscas e outros representantes do submundo animal.
Ah, isso. É mais um dos muitos pontos em comum que ando a descobrir que tenho com ela 🙂
Muito bom post Teresa. Gostei particularmente da referência ao “estado de negação”. É a nossa especialidade.