A degradação do debate no espaço público, designadamente nas chamadas redes sociais, está bem patente nos comentários a este anúncio televisivo de um lóbi antitaurino.
Repare-se como o diálogo entre quem pensa de maneira diferente se vai enquistando e obstruindo à medida que se processa a troca de argumentos. Ao ponto de alguns alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas. Aparentemente sem repararem até que ponto esta indefensável posição invalida toda a sua lógica argumentativa anterior.
Vivemos num mundo de valores erráticos em que se cruzam correntes antagónicas: não falta, por exemplo, quem pugne pela humanização dos animais enquanto revela uma tolerância sem limites perante a irreversível bestialização do ser humano.
Há quem, ironicamente, aponte a principal responsabilidade por esta inversão de valores sobretudo às produções Walt Disney, organização pioneira na tendência de antropomorfização dos bichos. Mas a questão é mais séria. E deve mesmo levar a interrogar-nos sobre a saúde das democracias liberais num mundo onde toda a divergência de opiniões suscita reacções de brutal intolerância — desde logo da parte dos que se proclamam tolerantes. Nem todos os sistemas se equivalem, nem todos os valores são relativos. A democracia é um bem demasiado frágil e demasiado escasso: não merece ser desbaratada a todo o momento nas novas plataformas digitais. Que deviam estar ao serviço da cidadania e acabam afinal por pervertê-la a todo o passo.

Tentando ignorar a ameaça de generalização no que toca à “brutal intolerância” dos defensores dos direitos dos animais, vou directa à questão que me parece essencial: a escola tem falhado de forma obscena na formação de “pensadores”. Essa preocupação, simplesmente, não existe. Aposta-se sobretudo na capacidade de assimilar e reproduzir (debitar) a informação, mas raramente na capacidade de a trabalhar, e os resultados são estes. Também do lado dos defensores das touradas, caro Pedro, também desse lado…
De acordo consigo, Susana. Sem a menor dúvida.
Pedro, penso que este anúncio é apenas uma moda!
Hoje é fino ser a favor dos animais e contra as touradas.
É in ” ser tolerante para os filhos mal educados, é fixe não acreditar em religiões (sejam elas quais forem), é perfeitamente normal que os filhos gastem 50 euros numa noite de farra e os pais não tenham dinheiro para comer.
Os valores (erráticos ou não!!!) deixaram de existir, ponto
Este anúncio, ao contrário do que se diz, não foi censurado: muita gente lembra-se de o ter visto na TV. Mas seja qual for a questão de fundo é chocante ver a atitude hipócrita de tantos “humanistas” que acabam afinal por defender a lapidação – física e moral – de seres humanos.
Não tenho especial gozo por touradas, no entanto aceito que outros o tenham. Sinceramente, este video não me parece que defenda a condenação à morte, seja lá de que forma for, mas sim precisamente o contrário! Podemos eventualmente criticar a comparação entre a condenação morte de um ser humano e um outro qualquer animal, mas a ideia que video me transmite é:se não aceitamos uma, porque aceitamos a outra?
Claro que posso estar a ter uma visão otimista da coisa!
Dina, leu a caixa de comentários do video? É aí que está toda a intolerância e toda a raiva acéfala, e não no video propriamente dito.
Tal e qual. Vale a pena perder algum tempo a ler esta caixa de comentários para constatar o crescendo de agressividade e belicosidade verbal de quem opina.
Okey! já percebi! Isto é dos comprimidos, às vezes não os tomo, ando a tentar o desmame, porque isto lá para o meio de 2012 vai ser um luxo se os puder tomar!
Mas mais sériamente, acho que a intolerancia, a agressividade, quer fisica quer verbal, esta raiva toda que cada vez mais se sente nas pessoas, tem muito a ver com o estado social, politico, económico e financeiro, com a injustiça patente nas medidas implementadas e a implementar para fazer face à já demoniaca crise com que nos atiram à cara quase ao segundo e que nos deixa num estado indescritivel de tristeza e preocupação.
É Natal, dizem que é tempo de paz e amor, de esperança, de fé, mas……..
Isto é mesmo dos comprimidos, ou da falta deles!!!(email???)
Será que já disse que isto é mesmo resultado da falta dos comprimidos? email, mocinha, atão ???
Têm a certeza de que não é um anúncio televisivo de um lóbi antit-sahria islâmica?
Por acaso parece…
Esta esquerdalhada de trampa (no dito Ocidente) inverteu de maneira nojenta a ordem dos valores humanos: os valores morais da dignidade, da honra, do patriotismo, da família, do mérito, para só citar alguns, para essa gentalha não valem nada, a ponta de um chavelho. Para essa canalha, valores são a casamento de gaja com gaja e gajo com gajo, a matança de crianças que não chegam a nascer, a descriminalização dos bandidos e cadastrados, a livre circulação de drogas, o ‘fuzilamento ‘, puro e simples. de quem goste de touradas, e por aí fora…
Esta canalha não tem um pingo de compaixão pela velhinha que, para lhe roubarem a pequena pensão, por bandidos que não estudam e se recusam a trabalhar, foi violentamente violada, sovada e assassinada.
Releia o seu post pensando no que o vosso blog tem escrito sobre José Sócrates. Que acha? Onde fica a sua tolerância?
Este é o típico debate à portuguesa, vulgo conversa de café. Que quer você dizer com semelhante insinuação? Será que confunde deliberadamente a legítima crítica política com insultos rasteiros? Alguém aqui defendeu a pena de morte para qualquer primeiro-ministro, seja o actual ou o antecessor? Eu trago aqui um caso concreto, com opiniões concretíssimas, e a sua achega para o debate é uma comparação infundada e totalmente inaceitável.
Os Abrantes pioraram significativamente de qualidade nos argumentos. O líder abandonou-os, deve ser isso.
Andam a fazer um esforço, até agora infrutífero, de se adaptar ao “francês técnico” do chefe.
Touché! Sendo (so what?) defensor das touradas enxofra-me sempre o argumentário miguelista em sua defesa, que nunca teria convencido Picasso ou Orson Welles a admirá-las. Do outro, manifesta-se sempre aquela intolerante “bondade universal” que condena ao opróbio quem não partilha de tão belo desígnio. Nos EUA os debating sclubs são atividade corrente nas escolas, o que tem elevado a qualidade do argumentário, da retórica e, sobretudo, do respeito pelas regras de fair play da discussão pública de ideias. Por cá o que se tornou paradigma (e isso seria um belo post) foi o apreço pela “coerência” do facciosismo clubista.
Isso mesmo, meu caro. Começou nos debates da bola, em que os eleitos eram aqueles que se apresentavam com cachecóis mais exuberantes, e resvalou por aí abaixo. Sempre dentro desta lógica: quanto mais sectário e zarolho melhor.
Fundamentalismos deste estilo são muito prejudiciais. Gente desta acaba por prejudicar ainda mais os animais, pois, quem despreza os animais, vê-se confirmado nas suas convicções. E, quem fica a perder, são mesmo os bichos, que não têm culpa nenhuma.
Permitam-me lembrar que há activistas anti-aborto que também defendem a condenação à morte dos médicos que os fazem; na América, até já houve atentados a clínicas! Uma posição que igualmente invalida toda a lógica argumentativa desses activistas: a defesa da vida!
Logicamente, Cristina.
Tens muita razão. Eu, que gosto de touradas e até já o confessei aqui no Delito num post que deu muita conversa (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1 096497.html), sei que elas não são defensáveis em termos de direitos dos animais. Mas sempre achei que todo o fundamentalismo – todo mesmo, até o que se refere a causas justas – está contaminado por uma cegueira perigosa: acabar enfermando do mesmo mal de que se acusa os outros, pelo exagero e por causa dessa cegueira.
No fundo, o que me parece é que muitas pessoas estão cheias de frustrações e de ódios vários, que acabam por descarregar onde podem ou lhes parece mais fácil. Foi o que aconteceu na miserável caixa de comentários deste video no YouTube. A propósito, lembro-me de tê-lo visto na televisão (RTP2, se não me engano), por isso não foi censurado coisa nenhuma.
Claro que não foi censurado, Ana. Aliás na era da Internet isso não faria o menor sentido. Mas há sempre quem esteja à espera de receber um atestado de vítima da “censura”, ou da “ditadura”, apesar de a censura e a ditadura terem terminado há 37 anos em Portugal. Coitados: chegaram tarde a esse encontro com a História, nada a fazer. Agora só mesmo se emigrarem para Cuba, China, Irão, Síria ou Coreia do Norte.