Crónicas que o tempo não apagou


Teresa Ribeiro,

Toda a gente sabe que “reduzir o peso do sector público” significa “passar a patacos as EP’s que dão lucro e fazer os contribuintes pagar os prejuízos das outras”, que “competitividade” significa “salários baixos”, que “flexibilidade das leis laborais”, significa “despedimentos fáceis”, que “competência” significa “é do meu partido”, que “não tenho nada a declarar” significa “é tudo verdade”, que “isto é off the record“, significa contem tudo mas não digam que fui eu que disse – se leram até aqui, por favor contenham o bocejo. O desabafo não é meu. Sei que soa a lugar comum e é mesmo. De tão repetida esta conversa cheira mal, mas na data em que foi escrita por Manuel António Pina no Jornal de Notícias, talvez ainda tivesse alguma frescura. Em Crónica Jornalística – Século XX, uma recolha da autoria de Fernando Venâncio (Círculo de Leitores) descubro que em 12.12.1987 já se discorria assim nos jornais.

Passaram 25 anos. Bem sei, bem sei. Não é grande proeza. Se consultar o Eça ou o Ramalho encontro mais e melhor. Mas sempre que isto me acontece não consigo evitar o desconforto. E a seguir o cansaço. Ando a ler e por conseguinte a meditar nas mesmas coisas há demasiado tempo. Só pode fazer mal.

4 comentários em “Crónicas que o tempo não apagou”

  1. Há coisas que mudam:
    The onward march of the Chinese consumer continues, with China overtaking the U.S. as the biggest grocery market in the world in 2011, according to new research out of the United Kingdom.

    The Chinese grocery sector was worth $970 billion (607 billion pounds) at the end of 2011, while the U.S. market came in at $913.5 billion (572 billion pounds), research by food industry analysts IGD showed.

    http://www.cnbc.com/id/46940039

  2. Excelente antologia essa, organizada por Fernando Venâncio. A crónica é um excelente género literário, infelizmente nem sempre muito valorizado entre nós. Mas quando o texto tem qualidade – como é o caso dessas crónicas que figuram na referida antologia – resiste sempre à passagem do tempo, transcendendo o contexto em que foi escrito.
    Fizeste muito bem em lembrar isso, Teresa. A importância dos blogues também passa por aqui: é cada vez mais urgente reavivar a memória das pessoas.

  3. Teresa, isso só prova que a natureza humana não muda muito ao longo do tempo. Mudam as circunstâncias, mas não as reacções a elas.

    A propósito, gosto muito de crónicas.

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