Tive uma surpresa agradável, provocada pela minha série Resistência em alemão, iniciada a 22 de Outubro de 2022. Depois de ter escrito sobre o grupo “Rosa Branca”, passei a exemplos de sacerdotes (católicos e protestantes), que pagaram com a vida a oposição aberta ao regime nazi. Há um par de semanas, fui contactada pelo Professor Mendo Henriques, da Universidade Católica, ele próprio surpreendido pelos exemplos de coragem mostrada pelos padres.
Em colaboração com a Paulinas Editora, o Professor Mendo Henriques e a sua equipa preparam a tradução de um livro do filósofo austríaco Friedrich Heer, intitulado “O Primeiro Amor de Deus” (Gottes erste Liebe), publicado em 1967. Resumindo em poucas palavras, trata-se da falta de uma condenação oficial do nazismo, antes do fim da 2ª Guerra Mundial, por parte da Igreja Católica, nomeadamente em relação ao Holocausto. No seu livro, Friedrich Heer faz a análise do ódio dos cristãos pelos judeus, que, como sabemos, dura já há dois milénios.
O Professor Mendo Henriques tinha conhecimento de alguns exemplos isolados de resistência, como o de Dietrich Bonhoeffer, mas pensava que se resumiam a isso: casos pontuais. Por isso, o impressionaram os relatos sobre os Mártires de Lübeck, aqui descritos. E, através da nossa troca de mensagens, revelei-lhe ter havido um bloco reservado a padres, no Campo de Concentração de Dachau, por onde passaram 2720 sacerdotes, 95% dos quais católicos (Pfarrerblock im Konzentrationslager Dachau, ou, em inglês, Priest Barracks of Dachau Concentration Camp). Este é um tema que estou ainda a pesquisar e do qual falarei na minha série. Entretanto, descobri já ter sido publicado um livro (em alemão) sobre este bloco, em 2004, escrito por um sacerdote luxemburguês que lá esteve preso. Deu inclusive origem a um filme com o título Der neunte Tag.

O Professor Mendo Henriques tem realizado uma Acção de Formação online sobre a relação problemática entre cristãos e judeus e considera tão importante a revelação destes casos, que teve a amabilidade de me convidar como oradora para a próxima sessão deste curso, na quarta-feira, dia 22 (visualização através de Zoom).

Aqui fica a informação, para quem estiver interessado. A visualização é livre e qualquer pessoa pode pôr questões em relação às contribuições dos oradores. O link está na imagem, mas torno a pô-lo aqui, para ser mais fácil o acesso:
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/82771955229
E, last but not least, agradeço ao Pedro Correia por me ter convidado, já há alguns anos, a escrever num dos mais lidos blogues portugueses.

Um mais recente: https://www.tallandier.com/livre/la-bara que-des-pretres/
E porque irá certamente passar pela série, recomendo: VR0
https://www.youtube.com/watch?v=qJXmdY4l
Sim, Franz Jägerstätter passará pela série. Mas ainda não pesquisei verdadeiramente sobre ele e não sabia deste filme, obrigada.
Muito obrigada aos dois comentadores anónimos (ou ao mesmo, não sei
)
Já enjoa esta questão dos judeus… Ninguém se importa qd os cristãos são perseguidos em Portugal, que é o seu próprio território, é só judeus, judeus… E depois branqueiam o que sucede no Médio oriente…
Não há causas mais importantes do que as outras, quando estão em causa os Direitos Humanos.
Direitos Humanos ou direitos da Torah?
O que sucede no médio oriente são vários regimes Nazis que querem expulsar os Judeus.
O Professor Mendo Henriques tem realizado uma Acção de Formação online sobre a relação problemática entre cristãos e judeus e considera tão importante a revelação destes casos
Eu penso haver aqui uma ilusão.
Os padres e pastores que se manifestaram contra o nazismo não o fizeram por este ser antissemita ou por gasear os judeus, mas sim por se tratar de uma ditadura e por ter exterminado deficientes (alemães não-judeus).
Ou seja, parece-me despropositado falar, no âmbito de um curso sobre antissemitismo, da luta de alguns padres contra o nazismo, uma vez que esses padres não se estavam a manifestar contra o antissemitismo, e sim contra outras facetas do nazismo.
Em primeiro lugar, o que está em causa, na minha participação, é apresentar exemplos de padres que ousaram fazer oposição aberta ao nazismo e a Hitler, ao contrário da sua Igreja.
Em segundo lugar, sim, o nazismo tinha muitas facetas e nem todos contestaram cada uma delas. Mas houve vários destes padres que combateram o antissemitismo, como Dietrich Bonhoeffer, ou Engelmar Unzeitig que aliás esteve em Dachau, oferecia produtos alimentares que os familiares lhe enviavam a prisioneiros doentes, independentemente da sua etnia, e, ao rebentar uma epidemia de tifo no campo, ele ofereceu-se para tratar dos doentes (todos). Morreu infectado.
Além disso, praticamente todos estes padres defendiam os Direitos Humanos. Apelavam ao exercício da Justiça entre todos os humanos.
Pfarrerblock in Konzentrationslager Dachau
“in” ou “im”?
Tem razão, vou corrigir.
“relação problemática entre cristãos e judeus”
Não me parece que isto seja linear. Por exemplo quanto mais perto de Itália a terra do Papa mais os Judeus estavam seguros na 2 Guerra Mundial. Se formos ainda mais ao passado, um padre católico muito conhecido por todos António Vivaldi fez obra como o oratório militar Juditha Triumphans baseado numa judia como heroína. aier
Os Judeus Franceses fugiram dentro do próprio pais da área controlada por outros Franceses de Vichy para iram para a área de ocupação Italiana mesmo que aliados dos Nazis porque os Fascistas/Monarquistas de uma maneira geral recusavam-se entregar os Judeus aos Nazis ao contrário de Vichy.
No caso da Alemanha julgo que o Protestantismo acentuou elementos anti-Judeus. Por exemplo investigar quantos católicos e quantos protestantes apoiaram o Nazismo na sua corrente racial, isto é apenas suposição mas sinto que o catolicismo em proporção resistiu mais ao Nazismo.
Como a Austria fazia parte do Reich também penso que se deva incluir os Austríacos:
Padre Heinrich Maier
https://en.wikipedia.org/wiki/Heinrich_M
Finalmente nos EUA foram os conservadores católicos que mais resistiram os progressistas do movimento Eugénico de purificação da raça. Aqui também não foram os protestantes.
Sim, de facto, houve bastante mais católicos do que protestantes a fazer oposição aberta ao nazismo (pelo menos, no meio clerical). Entre os 2720 sacerdotes presos em Dachau, os protestantes não chegavam aos 200. Mas a própria Igreja Evangélica Luterana alemã reconhece, hoje em dia, o entusiasmo com que a maioria dos protestantes apoiaram Hitler.
Obrigada pelo link.
Obrigado pela informação e confirmação sobre a diferença na resistência ao nazismo entre alemães católicos e protestantes
Gostei muito de saber, Cristina. Boa iniciativa do professor Mendo Henriques, que aproveito para felicitar.
É excelente vê-la cada vez mais reconhecida, também pela qualidade do que vai escrevendo aqui.
Muito obrigada, Pedro.
Considero ter sido muito boa ideia inclui-la neste excelente lote de redactores.As suas contribuições acrescentam pela qualidade e pelos temas a riqueza do blogue.
O mesmo não direi dalguns comentadores entre os quais me incluo.
Mesmo pelo negativo se aprende,querendo.
Obrigada.
Muitos parabéns, Cristina, por esta acção e divulgação meritórias. Também já há uns tempos que não ouvia falar do Prof. Mendo Castro Henriques.
Muito obrigada, João.
quando durante 10 anos vivi em Viena (excepto inverno) tive ocasião de ver documentação que mostra aspectos varridos para debaixo da carpete. se indicar pegam-me fogo
Apesar do muito que se tem escrito sobre o nazismo, ainda há tanto por descobrir! É espantoso! Obrigada Cristina, por tanta informação que nos tens trazido via Delito. E parabéns pelo reconhecimento alcançado – totalmente merecido.
Muito obrigada, Teresa.