Counting out Time


Maria Dulce Fernandes,

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Atravessar a adolescência na década de 70 foi uma corrida, um susto, um espanto, um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.

Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido. 

Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-me nela, mergulhar de cabeça até perder o pé. Foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.

 

Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo: Os Genesis, no Dramático de Cascais, a arte cénica do Peter Gabriel, os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo de mais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem “The lamb Lies Down on Broadway”, mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.

 

Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto, arranhar, morder, rasgar um par de camisas, pôr gelo num olho azul… valia tudo para fazer valer um credo, um valor, um dogma, uma religião.

 

A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo a felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.

 

Depois retornaram os que viviam além-mar. Trouxeram outra alegria, outros ritmos, despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde, que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

 

Mas foi bom enquanto durou

 

Vislumbrando o aproximar de um novo ano que se prevê difícil, radical em promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.

 

(Imagem Google)

30 comentários em “Counting out Time”

  1. Ser adolescente nos anos 70 não foi fácil, mas foi sem dúvida uma década de muitas revoluções (exteriores e interiores) para quem vivia em Portugal. O mundo entrou-nos pela porta adentro quase de repente, e houve tanto que foi preciso absorver tão depressa… Sendo a adolescência já é em si mesma um período de grandes transformações, vivê-la numa época tão rica em mudanças – sobretudo nas mentalidades – foi um grande desafio, e contribuiu indelevelmente para quem e como sou hoje. Não sou minimamente nostálgica em relação à minha infância e adolescência, mas essa década foi sem dúvida marcante para mim (mesmo que nem sempre pela positiva 🙂 ).

      1. São tempos diferentes com desafios diferentes, mas eu também não trocava. É um privilégio ter passado por experiências que hoje seriam no mínimo impensáveis, e ler nos livros não é o mesmo que sentir.
        Um óptimo fim-de-semana também para si, Dulce :-*

      2. Melhor resposta é impossível. Belo texto, belas recordações. Havia mais verdade e amizade entre as pessoas nesses tempos e na década de 80. Hoje reina a mentira o cinismo e a hipocrisia. A competição desenfreada destrói a verdade e a beleza da simplicidade. Vivemos tempos de relações humanas de plástico.

  2. Ah, anos 70 !
    E os pais a meterem o bedelho nos gostos musicais e políticos.
    Por acaso, comigo foi tu é que sabes para ir a Vilar de Mouros, e a outras vilas e cidades.

  3. E os Profirios? E o Apolo70? E as passagens de ano em Cascais?
    As calças à boca de sino, os bailes nas garagens dos amigos com gira discos manhosos.
    Naquele tempo vivia-se, agora passamos o tempo a ver a vida passar num ecrã.

  4. Muitos desses mitos já lá vão. Tudo era saudável e sem terramotos.Tudo circulava sem medos. Hoje olha-se para as esquinas.
    «O melhor professor da vida é o tempo.Porquê você mesmo sem fazer perguntas ele sempre lhe dará as melhores respostas»

  5. Nasci em 58, pelo que vivi muito os anos 70 (também em Cascais e arredores). Do ponto de vista política sabe do que me lembro? Da ideia de que tudo era mais claro: sabíamos quem estava por nós e contra nós; tínhamos determinados princípios (os do outro lado também) e sabíamos quem estava apostado em destruir esses princípios ou esse modo de vida em que acreditávamos. A luta era clara, os adversários eram claro. Agora é tudo mais confuso. E em miúdos vivíamos na rua, em segurança. Agora…
    Enfim, outros tempos, com coisas boas e menos boas quando comparados com os tempos de agora.

    1. Foi “o” concerto da minha vida. Por ser jovem, por ser diferente, por ser espactacular, todos os outros perdem por comparação, jpt.
      Curiosamente este album duplo que vieram promover era o menos conhecido nessa altura, mas ficámos a sabê-lo da melhor maneira.

  6. trabalhava 16 horas / dia.
    meu filho veio dum festival e na roupa suja nem deitou fora as ‘camisas’ usadas

  7. Na década de 70 aparecem as mulheres cheias de taras e manias é o principio das feministas a saírem da casca com vontade de esganar e escravizar o homem bom.

  8. Grande Pavilhão do Dramático.
    A verdadeira catedral da música na altura.
    Ele era o jazz (obrigado saudoso Villas Boas)
    Lembro-me muito bem dos Procol Harum em 73 que só puseram entrar em Portugal porque o Villas Boas convenceu a censura que eram um quarteto de música clássica.
    Como diz o Herman, éramos tão felizes e não sabíamos

    1. O Villas Boas era um castiço. Quando fomos à URSS ele fazia parte do grupo e era um fartote.
      A verdade é que eramos muito mais alegres, despreocupados e livres, porque tinhamos a juventude na mão.
      Tenho tantas saudades.

    2. Cascais Jazz 1971. O Vilas-Boas e o João Braga com o embaixador dos EUA lá conseguiram sacar Charlie Haden dos calaboiços da pide. Não se podia falar contra na guerra colonial, e Charlie Haden, o Quarteto Coleman e outros já tinham dedicado as suas actuações contra a guerra.

  9. Também vi esse concerto dos Geneses no Pavilhão de Cascais. Foi uma aventura com muitas peripécias para conseguir ir vê-los. Os meus anos 70 tiveram coisas muito boas e coisas horríveis.

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