Desde 1993 – ano em que entrei para a universidade – que ouço falar disto. Ou melhor, que presto atenção a este assunto (provavelmente é muito mais antigo). As universidades oferecem cursos sem interessados que acabam com uns 2 ou 3 gatos pingados a cada ano. Alguns deles foram sendo descontinuados (adoro este termo) e outros foram continuados à força de duas ou três pessoas por ano. Em Coimbra, o caso paradigmático era engenharia de minas, com a qual a AAC tinha frequentemente de gerir o interesse dos estudantes (não queriam que o curso acabasse) e da universidade (desperdício de recursos).
No passado, como a notícia esclarece, já se tinha cortado o financiamento a cursos com menos de 20 inscritos (pessoalmente parece-me um número baixo). Agora o governo decidiu mesmo acabar com os cursos com menos de 10 inscritos. Autonomia das universidades? Um termo giro.
Já os cursos e a necessidade de profissionais na área são ignorados. Não conheço todos os casos e admito que a maioria seja de cursos que, de facto, não tem saída. Algumas áreas haverá, no entanto, que não necessitando de muitos profissionais por ano, vão necessitando de alguns. Volto à engenharia de minas: passados uns anos encontrei alguns engenheiros num encontro internacional. Explicaram-me que tinham frequentemente que pagar valores exorbitantes pelos poucos engenheiros de minas portugueses ou para trazer outros do estrangeiro. Não era para trabalhos de minas. Era para construção de pontes, túneis, edifícios, estradas, etc. Não eram necessários muitos por ano, explicaram-me, mas havia necessidade deles.
E é isso que, mais uma vez, o Governo (e aqui falo do Governo em geral, não só deste) volta a falhar. Não há uma ideia real para o ensino superior em Portugal. Ao invés de fechar a maioria desses cursos mas mantê-los abertos em menos universidades, para continuar a fornecer estes profissionais, o Governo fecha. Contenção de gastos e cobrança de propinas, é a palavra de ordem. Uma visão, boa ou má, é aquilo que nunca aparece.
Voltarei a este assunto numa série de posts que ando a escrever.

Este argumento não é válido. Um país não pode pretender formar nas suas universidades todos os especialistas em todas as matérias de que necessita. É normal e adequado que se contratem especialistas estrangeiros, ou então que portugueses se formem em universidades estrangeiras. Isto sempre assim foi, numa pluralidade de saberes: sempre houve portugueses a formarem-se no estrangeiro, e sempre houve contratação de estrangeiros.
Caro Luís, discorde à vontade, mas permita que o meu argumento seja válido. Por favor. Pode ser?
Não digo que um país tenha que formar todos os especialistas de que precisa (já agora, num caso ideal, haveria mal se o fizesse e sem desperdícios?). O que digo é que não formar nenhum especialista numa determinada área (o que resultaria do encerramento do curso X em todas as universidades) será contraproducente.
permita que o meu argumento seja válido. Por favor. Pode ser?
Pode, caro João, com certeza que pode. Não quero aborrecê-lo!
Com a mudança da licenciatura para 3 anos, o que me parece é que são ridículas especializações feitas à pressão. O conhecimento base não deveria permitir haver muito mais que umas 50 formações nucleares, o resto deveria ser obtido a nível de mestrado.
Ora, se havia aí umas 50 licenciaturas até aos anos 80, depois com a explosão dos “nomes da moda”, passaram a mais de 500… no final dos anos 90. Agora não faço ideia.
Consequência… em vez de se ensinar a mecânica do parafuso, temos o curso de aparafusar para esquerda e o de aparafusar para a direita, consoante as modas e “necessidades do mercado de trabalho”.
“Mercado de trabalho” e governos quiseram transformar as universidades em estágios pré-laborais, em vez de serem pólos de conhecimento.
Os alunos entraram na lógica, e por isso é que acham que têm direito a emprego no fim do curso… porque fizeram o seu estágio pré-laboral.
A ligação emprego-universidade é perigosa quando levada demasiado a sério.
Uma coisa é as universidades estarem próximas das empresas, outra coisa é definirem os cursos em função do mercado. Cursos de ciências fundamentais nunca deveriam fechar, nem que a empregabilidade fosse zero. É uma questão de preservação do conhecimento, independentemente das modas circunstanciais.
Bem visto e melhor escrito.
Há uns anos com abertura de universidades privadas apareciam cursos que nem cogumelos e provavelmente os planos curriculares eram quase perfeitos decalques razão pela qual havia os Turbo- Professores e só os nomes os distinguiam.
Nos politécnicos e universidades também se fez muito isso mas por outras razões (manter e ou alargar o quadro docente) , o que se vê hoje em dia com a crise económica e a não renovação geracional é o facto das instituições de ensino superior apostarem muito na captação de alunos maiores de 23 para pelos menos manterem o nível de receitas oriundas das propinas a que se habituaram.
O problema do Ensino Superior é que se passou de uma forte regulamentação para uma desregulamentação exagerada , não foi encontrado um ponto de equilíbrio pensado a longo prazo e o resultado são 100 mil licenciados no desemprego alguns com aptidões sempre necessárias outros (a grande maioria) não. A proliferação de licenciados foi o culminar de uma estratégia pensada no curto prazo , era uma forma de camuflar o desemprego da altura.
É obvio que cursos que mantém o conhecimento “vivo” são válidos mas esses devem ser promovidos pela própria universidade para seu óbvio interesse.
Tal como tudo em Portugal o ensino superior a partir de uma dada altura passou a ser pensado no curto prazo e o resultado agora está aí , muitos cursos que de certeza têm um interesse válido para o País e sociedade são fechados para que outros se mantenham só porque têm mais candidatos mesmo que não sirvam o País ou os candidatos.
«Cursos de ciências fundamentais nunca deveriam fechar, nem que a empregabilidade fosse zero».
Aplaudo absolutamente. Esta é a visão que qualquer governante deveria ter.
Só discordo do seu comentário num aspecto: diz que os estudantes «acham que têm direito a emprego no fim do curso». Haverá certamente quem o ache, mas parece-me que o problema é diferente: um estudante que ou terá que pagar os seus estudos após terminar o curso (empréstimos) ou que esteve a sobrecarregar os pais para estudar, esse estudante sentirá certamente que merece retorno pelo investimento que lhe venderam. Não podemos culpar estudantes (ou famílias) que passam o tempo a ouvir dizer que quem tem educação superior tem salários superiores e melhores oportunidades, por quererem que haja emprego para quem termine o curso.
Eu como liberal, acredito que não deve competir a um poder centralizado a definição dos cursos que devam ou não abrir, mas deverá competir ao estado, pelo menos promover, a oferta do mais variado número de cursos possível, dando um maior número de opções aos candidatos. Cursos com pouca procura, seja por que razão for, acabarão sem grande alarido, até porque essa é uma realidade que já se vê há muitos anos em certos politécnicos que implantaram em cidadezinhas por esse país fora. E este deve ser o único critério para manter, ou não, um curso a funcionar. O facto de ser o mercado de trabalho a condicionar isso faz-me lembrar planeamentos económicos ao nível soviético. O que as pessoas não se podem queixar é de tirar cursos com pouca procura e depois exigir que alguém lhes dê um emprego.
E hoje em dia é muito fácil adaptar cursos com pouca procura, já que muitas vezes são adaptados a currículos de mestrados, como certamente aconteceu com a citada engenharia de minas.
O que tem acontecido em Portugal é uma certa simbiose dos dois factores, uma vez que há certas corporações que gostam muito de limitar o acesso à sua profissão e têm exercido pressão para encerrar muitos cursos.
Temos que diferenciar as questões.
1. cursos com pouca procura. Neste caso, se houver 10 universidades a receberem 2 alunos por ano para o curso X fará algum sentido eliminar o curso em 9 universidades e juntar os 20 alunos numa outra. Pode haver pouca procura, mas há alguma. Aqui o estado não tem que fazer nada, mas pode lembrar as universidades que têm fóruns onde discutir estas questões e onde podem harmonizar este tipo de decisões. Penso que a questão aqui não está nos alunos, na procura, no estado ou no mercado, antes está no corporativismo dos professores do curso X, que não querem ser dispensados.
2. Adaptar cursos através dos mestrados faz sentido, mas há funções que são mais específicas e deveriam ser garantidas já ao nível do bacharelato (lamento, não consigo chamar a essa coisa licenciatura). Claro que não há necessidade de (voltando às minas) ter cursos de eng. geológica, de minas ou quejandos logo a partir do primeiro ano. Um curso de 3 anos de eng. “da terra” serviria, com o mestrado a distinguir o resto. Mas há casos em que um curso de 3 anos já mais direccionado para minas faria sentido. Claro que não tem que estar na universidade, poderia ir para os politécnicos. Mas é também por isso que digo que falta uma ideia de educação.
3. corporativismo: disse tudo em três linhas. Não tenho uma palavra a acrescentar.
Boa tarde,
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Atenciosamente,
Catarina Osório
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