Há muito que pressenti que não seriam só os cremes anti-rugas a facilitar a minha corrida contra o tempo. Nem só os cremes, nem só o ginásio, nem tão-pouco aquela frescura de ideias que é preciso pôr na lapela antes de sair à rua. Para me sentir verdadeiramente engagée neste mundo onde só há lugar para meninas até, vá lá, aos trinta, tenho de ser cool, seja lá o que isso for.
Quando há dias descobri na Única um artigo em que eram entrevistados os responsáveis pelo blogue mais cool do planeta, com um milhão de leitores em todo o mundo, atirei-me à leitura como uma náufraga. E quando cheguei à pergunta Como se define o cool? O que é hoje o cool?, estremeci de expectativa.
Mas Bill Tikos, o criador do blogue Cool Hunters, saiu-se com um decepcionante Oh meu Deus! Isso é uma pergunta difícil. Poderíamos estar aqui dias inteiros a falar sobre isso. Será tudo o que é inovador, diferente, inspirador. Era tudo o que ele tinha para dizer? Fiquei na mesma. Sei lá o que é suficientemente inovador, diferente e inspirador para ser cool?
Mais adiante Laura Demasi, editora de Cool Hunters, acrescentou: O que vocês conhecem em Portugal, eu também conheço em Sidney, Londres e Paris. Estamos todos ligados. As mulheres vestem-se todas de igual, gastam dez mil contos num vestido e continuam iguais a todas as outras. Fiquei, ao menos, a saber que ainda é cool dizer "contos" e que mais vale comprar na Zara que na Stivali, porque sempre se gasta menos e o efeito, pelos vistos, é o mesmo.
Bernardo Mendonça, que conduziu a entrevista, provavelmente tão necessitado como eu de uma pista esclarecedora, insistiu: "Mas então é cool usarmos as mesmas coisas?" Resposta óbvia: "Não. Quando todos começam a usar o que é considerado cool, as pessoas realmente cool mudam de objectos".
Portanto, isto não é linear. Mas facilita, dizem eles, andar com os olhos bem abertos, enxergar as coisas com um outro olhar, a ver se nos inspiram.
Já a ponderar uma ida ao oftalmologista para fazer um upgrade às minhas lentes e a interrogar-me sobre qual seria a marca mais cool para a armação dos óculos, detive-me na última pergunta que fizeram aos gurus, que até já fazem serviço de consultoria para empresas topo de gama: "Consideram-se pessoas cool?"
Eu não – respondeu o Bill.
Eu também não – respondeu a Laura.
Caí das nuvens, com o look mais uncool que se possa imaginar: boquiaberta, olhos parados, tronco descaído, roupa a pingar de desânimo enfim, nada trendy. Mas o comentário final da Laura é que me levou ao tapete: Esse termo é um pesadelo, disse ela, Chega a ser estúpido.
Como? Estúpido, hem? Até ver, decidi adiar o oftalmologista e concentrar-me em questões culturalmente mais estruturantes, como por exemplo, atirar-me ao Bolaño, que sempre tem mil páginas e tenho de despachar. Ou então – e passei os olhos pela estante enquanto revia os meus conceitos – trocar o Bolaño por alguém que NUNCA MAIS NINGUÉM LEU.
Procurei na prateleira de baixo e descobri-o, exaurido: Tempo para Amar e Tempo para Morrer, um dos romances da minha vida. Soletrei o nome do Remarque com gosto e senti-me subitamente mais rebelde que uma pita na idade do armário. Leitura mais uncool que esta não deve haver. Eh!eh! Mas não sabem o que perdem.
(Nota: Portugal está no top 5 dos países que não falam inglês e mais consultam o Cool Hunters)

Teresa, interessantíssimo o seu texto e muito esclarecedor quanto a essa “grande questão” – “ser ou não ser cool”:))
A sério, Teresa, gostei muito, uma crítica “deliciosa” e pertinente.
Agora, veja lá ,Teresa – não diga a muita gente que lê
Erich Maria Remarque -não vá com isso desvendar ” the way to be cool”:))
Cool indeed.
Cool são os vossos comentários 🙂
Gostei mesmo muito Teresa. Seja ou não cool quissonumimportamesmonada.
A propósito, isso de o “mundo onde só há lugar para meninas até, vá lá, aos trinta” é mesmo assim? Balhamedeus que, assim sendo, eu já devo uns anos à terra…
:)))
Então não é, Mdsol? A começar nas empresas que só contratam sub 30 e a acabar nas miúdas de 18 que (já testemunhei) se começam a angustiar porque estão a começar a ficar velhas, é toda uma histeria que me levou a fazer estas contas por alto…
Enquanto eu for vivo e lúcido, jamais trocarei a sabedoria de quem calcorreia a vida com os pés pela juventude oca que vive a tomar conta dos pés-de-galinha-de-aviário.
Teresa, grande post , adorei, absolutamente cool .Mas deixe que lhe diga, meninas até aos trintas? Livra, nem pense, já os passei há uns pares de anos bem largos e só recentemente me começaram a tratar por “senhora”. Tive saudades do “menina”, mas gostei, senti-me imensamente cool .
:))
Obrigada, Ariel. Essa dos trinta foi só uma premissa. A conclusão do post, baseada nas próprias opiniões dos gurus da coolness, é que tudo isto não passa de uma estupidez 🙂
Gostava tanto tanto tanto de ser cool … mas não consigo ! 🙁
Fresta, se quiser eu ajudo-a a ultrapassar esse problema.