Convidado: RUI PASSOS ROCHA


Pedro Correia,

 

Ser liberal não é:

 

– Crer na benevolência intrínseca da economia de mercado e dos seus agentes, como se da acção deles resultasse sempre o óptimo paretiaon. Ser liberal é reconhecer que frequentemente a “mão invisível” esbofeteia os mais carenciados e dá palmadas nas costas aos vendedores de limões. É, portanto, aceitar que a regulação pode ser um mal menor.
– Cantar loas ao crescimento do PIB e assobiar para o lado se medidas restritivas afectam mais as classes baixas, enquanto as redes clientelares do poder continuam por beliscar. Ser liberal também é querer justiça social; é lembrar Adam Smith: “Nenhuma sociedade será próspera enquanto tiver pobres”.
– Aceitar a impunidade da reaplicação, em investimentos de alto risco, dos depósitos dos contribuintes. Ser liberal é privilegiar os direitos e as liberdades dos cidadãos contra abusos do poder de representantes democráticos, cujas políticas possam pôr em causa esses direitos e liberdades.
– Considerar a governação técnica (de entidades supranacionais, não legitimada pelo voto) a solução para os problemas económicos, caso ela não seja socialmente justa e democraticamente legítima. Ser liberal é desconfiar mais de oligarquias do que das massas, mas desconfiando de ambas.

O meu voto vai para quem mais se aproxima destes ideais.

 

Rui Passos Rocha

9 comentários em “Convidado: RUI PASSOS ROCHA”

  1. Não posso concordar. Entre os liberais há de tudo: minarquistas, libertários, liberais-sociais, etc. Basta pensar em Friedman, Hayek, Smith e Stuart Mill para apreciar a extraordinária diversidade do Liberalismo.

    Seguramente que alguns concordarão com alguns dos pontos. E outros discordarão. So what? Com certeza que não será o Rui a dizer que Friedman, que contestou a própria noção de “justiça social”, não era um liberal.

    Penso que o que ele quer dizer é algo um pouco diferente: que é possível ser-se liberal sem subscrever o programa minarquista de Estado mínimo. E sem fazer tábua rasa de toda a economia que aprendemos nos últimos 40 anos: desde a análise de externalidades a informação assimétrica, passando por dilemas do prisioneiro e problemas de bens públicos. Tudo questões que mostram que nem sempre os mercados conduzem aos melhores resultados.

    Apesar de tender a concordar*, também deve ser referido que há argumentos bastante sofisticados que justificam a não intervenção do Estado mesmo em casos de falhas de mercado óbvias. A Teoria da Escolha Pública (e o bom senso…), por exemplo, mostra como boas intenções do legislador podem ser frequentemente subvertidas pelo processo político.

    *“Tendo a concordar” porque não me parece nada óbvio que o tipo de economia que existe seja irrelevante para as escolhas políticas que fazemos. Temos muita sorte em as escolhas livres, feitas em mercados, tenderem, na maioria das vezes, a conduzir a resultados eficientes. Se os mercados livres desembocassem em resultados pouco eficientes, seguramente que isso seria um óptimo argumento contra o Liberalismo [Claro que isto tem subjacente e implícito o princípio de que há uma partilha de certos valores éticos fundamentais, como o bem estar da população, etc. – mas não quero tornar o comentário ainda mais longo].

  2. Obrigado pelos vossos comentarios.

    PR, o meu ponto era precisamente o de que e possivel ser liberal e aceitar a mao visivel do Estado como guia para a mao invisivel, e o olhar nao raras vezes cego, do Estado.

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