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A fase da mão na mama |
Primeiro as desculpas. Pelo atraso com que, preguiçoso, respondo ao amável convite do Delito. Pelo tema. Farto de política, enfadado da pátria, opto por trazer-vos um travo fugaz de pecaminosa luxúria. Finalmente, pelo título. Falta, e em rigor nunca haverá, uma justificação para o título. Ordinária expressão com que, ordinários rapazes a dar os primeiros passos nestas coisas do amor, celebrávamos a primeira e mais polposa de todas as conquistas. Bronzino, já se vê, era homem de outra erudição e outro refinamento e nunca se lembraria de tamanha grosseria. Chamou-lhe “Uma alegoria com Vénus e Cupido” e eu reencontrei-a, a semana passada, pendurada em Londres, com o mesmo lúbrico deleite com que o Duque Cosimo de Médici terá olhado para ela a primeira vez.
A generosa senhora, alva, redonda, gentilmente depilada, é, adivinham-no, Vénus, elle même. Anacrónica, carrega na mão a dourada maçã. Presente de Páris, passado da culpa e futuro dentado de todos os pecados. Delicadamente incestuosa, insinua a língua, serpentífera, nas profundezas rosadas de tão infantis, da boca do jovem Cupido que sabemos bem ser seu filho. Marte que se queixe se não lhe faltar bélica coragem. O sátiro e a ninfa, esses, jazem já, feitos máscaras, impotentes, a seus pés.
O rapazinho luminosamente risonho que, mais à direita, lhes lança botões e pétalas de rosa é o Prazer. Está feliz e mal imagina que, para desgraça da humanidade, seria hipocritamente proscrito do reino dos céus. Atrás dele, a mão esquerda perdida no braço direito, a mão direita enxertada no esquerdo, espreita, inescrutável, a menina Vingança. Para que não restem dúvidas de que é pecado e desejo de fêmea, a doçura cândida do rosto por momentos quase consegue esconder o corpo venenoso de escamas, a cauda traiçoeira e o mortal ferrão que se abriga, latejante de perfídia, no espaço infinito que vai de um polegar a um indicador de lolita.
Cinzento, de um cinzento que só o verde sabe ser, do lado oposto do quadro, abriga-se, torturada em remorsos, sintomaticamente escondida por trás do rabo do jovem efebo, a sifilítica inveja (ou a invejosa sífilis, é como queiram) que, nesses idos de 500, torturava, ao que dizem, meia Europa.
E é, percebe-se bem porquê, para esconder toda esta mitológica pouca-vergonha que o Esquecimento tenta lançar um firmamento azul, um véu redentor, sobre toda a cena. Esforço vão. Porque é para que que ninguém se olvide desta babilónica escandaleira que o pai Tempo lhe corta, vigoroso, o puritano ensejo.
Existirão, concedo, quadros mais bonitos e pintores com mais cartel. Mas esta “Alegoria” numa coisa não tem igual. Não conheço desculpa mais culta para apreciar civilizadamente pornografia.



Mas que fantástico travo fugaz de pecaminosa luxúria, Pedro! Valeu a pena esperar, é o que lhe digo.
Eu, que sou infinitamente mais prosaica do que Bronzino, socorro-me da onda deliciosamente abastardada do título para fazer um comentário alarve, porque me saltou logo à vista: tirando o Tempo (que deve ser português, a avaliar pelo ritmo nacional), todos os outros precisam urgentemente de umas férias na costa alentejana. Com aquela cor de defuntos, não há libido que se agite…
Muito bem vindo ao Delito!
Obrigado Ana. É uma honra estar por aqui.
Não tinha visto a coisa nessa pigmentada perspectiva mas acho que tem toda a razão. Ou quase toda: já vi muito boa libido agitar-se por coisas ainda mais estranhas estranhas.
PN
Lá isso é verdade. Mas a honra é nossa em receber aqui tão ilustres mortos, dignos de panteão.
Digno de um expert em cenários pecaminosos, de um guru em cenas promíscuas. Parabéns.
Expert que não sou, caro João. Não me arranje problemas!
PN
Sem maldade! Eheh…
Um abraço.
Mas que bela lufada de ar fresco.
Bela descrição.
Obrigado raioverde. Ainda bem que gostou.
Pedro, gostei celestialmente de tudo, mãos, máscaras, o apalpado seio. Só ainda não descobri onde raio é que o Pedro se escondeu. Numa oblíqua sombra da alva Vénus? Na babilónica barba do pai Tempo?
Parabéns.
Eu sou o pombo que tenta sair desapercebido pela esquerda baixa. Vossa santidade tem obrigação de saber que quando a coisa descamba em pecaminosa luxúria deixo o palco todo para si.
Ainda bem que posso contar com o seu imprimatur.
Abraço.
PN
Oh la la! Para morto está muito vivo! Gostei!
Ressuscitado pela libido. Não é um bonito milagre?
Obrigado por esta visita, caro Pedro. E pela qualidade do texto. E pela irresistível nota de erudição.
Um abraço.
Obrigado eu, caro Pedro, pelo simpático convite.
PN
O Prazer está com uma cara mais de possesso que de alegria e o gesto é assaz brusco. Como foi expulso do reino dos céus a seguir a esta cena, está bem de ver quais são as alegorias que por aqui vão.
Ó Pedro Correia, deixe lá o nosso Norton voltar ao cemitério que ele quando sai de lá só se porta mal…