O valor dos actos
As Farpas foram publicações assinadas por Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz entre 1871 e 1872, e somente pelo primeiro até 1883.
Esta prosa, um inovador conceito de jornalismo para a época, trouxe novas ideias e uma admirável crítica social.
Naquilo que era uma sátira “política, das letras e dos costumes” destacou-se Ramalho Ortigão. Sobre o mérito, Ramalho afirmou que “ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que teve, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos Homens deduz-se do valor dos actos que praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes”.
Vem isto a propósito de um estudo de 2015, extraído de uma analise a seis empresas, desenvolvido por oito investigadores e promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que concluiu que o mérito não tem grande relevância na evolução profissional dos portugueses. No mesmo trabalho são indicados como preponderantes para o sucesso factores como as ligações pessoais, a partidos políticos e, pelo menos num dos casos, a organizações católicas e a associações secretas.
Dá que pensar!
Acreditando eu que os homens são todos iguais aos olhos de Deus e que a salvação é a Sua graça, não deixo de achar relevante a obra que realizamos na nossa curta passagem por este mundo. Como dizia o Marquês de Maricá, “os homens sem mérito algum, brochados de insígnias e de ouro, são comparáveis aos maus livros ricamente encadernados”.


Como dizia o outro , enquanto suadamente trabalhava:
Não tenho tempo para ganhar dinheiro .
Ironia também ser esse estudo patrocinado por uma Fundação que pertence a um Grupo Económico cujo CEO é filho do dono. Cheira-me a Nepotismo e não a mérito (mérito tiveram os que a fizeram)
Uma coisa me conforta:
– Genuinamente, sem esforço nem disfarce, valorizo os outros pelo critério de Ramalho Ortigão.
Aos outros, os do sucesso engravatado e usurpado, dedico uma distante indiferença, quando não um indisfarçável desprezo.
Valha-me ao menos isso!
João de Brito
…e já não é pouco! Apesar de que muitos engravatados também têm mérito e trabalho árduo. Outra coisa, totalmente diferente, é avaliar alguém apenas pelo número de dígitos da sua conta bancária, um paradigma errado e que foi finalmente posto em causa pela crise. Sucesso é o caminho que escolhemos para o alcançar…
Bem-vindo ao DELITO, caro Pedro. Felicito-o por ter trazido aqui esse grande escritor e polemista que foi Ramalho. Que bem merece todas as evocações.
Foi com todo o gosto, o mesmo que me faz lêr os Vossos postais onde captam instantâneos de situações de flagrante DELITO de (in)acção, além de trazerem momentos culturais muito interessantes e enriquecedores. Bem hajam!
Dolorosa realidade. 🙂
E que se verifica, também, ao nível micro.
Gostei de lê-lo por cá, da mesma forma que gosto de lê-lo no És a Nossa Fé. 🙂