Convidado: MASSANO CARDOSO


Pedro Correia,

 

Esperança

 

Gosto de ensinar porque aprendo. Aprender é o meu modo de estar na vida. Refugio-me no conhecimento, na reflexão e tento interpretar o que me cerca, procurando muitas coisas, coisas que nem eu sei o que são, só sei que existem. De quando em vez tropeço nalgumas, que, gentilmente, me abraçam para logo de seguida fugirem rindo-se da minha ingenuidade. Olho e sinto que fico mais rico e mais pobre. Rico de conhecimento e pobre de esperança. Uma estranha associação, quando aumenta um diminui a outra. Mais vale o contrário, ser-se rico de esperança e pobre de conhecimento, a recordar a expressão bíblica “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”. Mas eu não quero ir para o céu, porque não consigo imaginá-lo, e para que serve uma coisa que não se consegue imaginar? Para nada. Aprendi que estou condenado a aprender cada vez mais e a viver cada dia que passa com menos esperança. Resta-me alguma esperança? Claro que ainda tenho uma reserva, pequena, decerto, o suficiente para permitir que embriague os meus sentidos através da leitura, da arte, da contemplação, do trabalho, das vidas de outros, muito mais sofredores do que eu e menos exigentes, quanto a felizes, já não sei, mas, também, não importa. Como qualquer sofredor que se preze, tenho que encontrar uma forma opiácea para mascarar a dor. Afinal é simples e viciante, ouvir e contar histórias. Sento-me com amigos, conhecidos, interlocutores ocasionais e, de repente, uma frase, um acontecimento, uma lembrança desperta o revoltar de cérebros inquietos, e as histórias fluem, lindas, dramáticas, dolorosas, alegres, percorrendo todo o espetro dos sentimentos e emoções humanas. É então que consigo ver o que um ser humano mais deseja, contar, ouvir histórias, e viver a sua própria história, livremente.

O tema das últimas histórias andou ao redor do tempo em que falar era perigoso. Como é que se contavam as histórias se não se podia falar à-vontade? Só às escondidas e com muitas cautelas, e, mesmo assim, as consequências podiam ser terríveis. Há dias ouvi: – Temos de começar a ser mais cautelosos em contar as histórias. – Por quê? Não estamos num país livre! – Pois estamos, mas já não se pode dizer o que queremos. – Não?! – Não, senão podemos sofrer consequências. Veja o que aconteceu a fulano que se pôs a contar a história do antepassado de um superior, que até foi verdade, ninguém pode negar. A história tinha o seu quê de rocambolesco rural, mas foi o suficiente para o contador ter sido prejudicado. A partir daqui o tema parecia uma verdadeira cerejeira carregada de pequenas histórias que íamos consumindo umas atrás de outras, sempre com o mesmo denominador, falar começa a ser perigoso. Não foi difícil de concluir, e transmiti-lhe enfaticamente: – Sabe, meu amigo, ainda não perdi a esperança de um dia ser detido por delito de opinião; para quem tem baixa reserva de esperança é muito preocupante, confesso. Entretanto refugio-me no conhecimento, se é que isso serve para alguma coisa…

 

Massano Cardoso

4 comentários em “Convidado: MASSANO CARDOSO”

  1. Meu caro amigo Massano Cardoso:
    Nesta III República, tal como está, tudo o que vá contra o politicamente correcto começa a ser delito de opinião.
    Por isso, quase só temos as respeitáveis opiniões dos respitáveis opinion makers que tomaram conta da nossaa comunicação social de há vinte ou trinta anos a esta parte: os mesmos ditos “politólogos”, os mesmos ditos “economistas”, os mesmos ditos “jornalistas” de serviço. Formaram uma cultura nefasta e uma mentalidade retrógada que se recusa a aceitar qualquer facto novo, qualquer mudança, qualquer alteração do statu quo. E os políticos têm também medo de afrontar esta realidade. Por cobardia e comodismo, estão mesmo reféns dela.
    Por isso, cada vez vejo mais longe a chegada de uma Quarta República. Mas vamos persistindo por lá!

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