O bombeiro pirómano
Entram-nos pela porta juros punitivos da Europa e juros razoáveis do FMI, tudo ao contrário do que seria expectável se tomássemos por base a narrativa do nosso inacreditável PM Sócrates. O que a Europa nos diz com este número é que não aceita o argumento segundo o qual Portugal seria uma espécie de vítima indefesa de uma exterior crise financeira.
Se assim fosse, o que existiria para punir? Sem mecanismos e sem força neste passado recente para impedir preventivamente crises desta natureza, a Europa castiga a posteriori, sinalizando aos países que, se seguirem, como nós seguimos, políticas económicas que nos encostam à parede, não sairão dela sem dor.
Do lado do FMI não surpreende a narrativa do PM, porque já nada surpreende nele. Mas ainda surpreende a facilidade com que não é desmentido nos media. O FMI importa-se menos que a Europa no lado punitivo da questão. Essa é aliás a grande crítica que lhe é feita, sobretudo à direita. Robert Barro, um famoso economista de Harvard, sugeriu recentemente que o FMI deveria alterar o seu nome de IMF para IMH – Institute for Moral Hazard – porque, em resumo, o que o FMI faria seria “premiar” má governação económica com empréstimos a taxas simpáticas. A relativa certeza da existência deste mecanismo funcionaria como indutor de risco quer nos governos quer nos bancos, de certa forma acelerando aquilo que se deveria evitar.
O que Sócrates nos tentou vender foi o inverso disto, apresentando aquele que é uma espécie de bombeiro financeiro global, o FMI, numa reencarnação do Fahrenheit 451, em que o departamento de bombeiros tinha como missão atear fogos em vez de apagá-los. E o mundo, num delírio auto-destrutivo, compulsivamente chamaria o FMI para dentro das suas portas, suponho. É que, apenas para se ter uma ideia, só no universo de países em vias de desenvolvimento, quase todos receberam pelo menos um empréstimo do FMI. Mesmo do lado da relação entre principais variáveis económicas e intervenção do FMI, estatisticamente o debate não favorece Sócrates. Quando entra o FMI existem um conjunto de condições económicas de crise pelas quais o FMI não pode ser responsabilizado (a não ser marginalmente, se aceitarmos o argumento de Barro), pelo que a relação, por exemplo, entre crescimento económico e FMI só pode ser feita expurgando estas condições. Têm sido feitas algumas tentativas e o sentido delas é que existe uma relação pouco significativa no agregado entre estas duas variáveis, embora puxe para o negativo. Posto tudo na balança (liquidez, estrutura macro, regulação, abertura ao exterior, etc.), a balança pende para o FMI face às alternativas, daí a adesão maciça dos países.
A Europa, sem mecanismos preventivos que significariam uma profunda aceleração política na União, e ainda às voltas com a cláusula de “no bailout”, tem a vida mais complicada na construção dos seus “pacotes”.
Ainda assim, quer a UE quer o FMI vão razoavelmente cumprindo as funções que delas se espera. Já olhando para o nosso PM Sócrates, e contrastando o que deveriam ser as suas funções com os resultados, descobrimos que afinal o verdadeiro bombeiro pirómano foi ele.


Obrigado pela visita, caro Manuel. O tema não podia ser mais actual, no dia em que ficou bem evidente que o Portugal de Sócrates é o carro-vassoura da Europa.
Um abraço.
Esta é a Europa em que mandam os amigos do seu amigo Passos. É esta gente que vocês querem ver outra vez no poder. Os desavergonhados especuladores financeiros, que provocaram a crise, e já obtém chorudos lucros com a mesma. Mas tudo indica que apesar de controlarem a totalidade dos media, o povo já os topa bem.