Planeta das mulheres
Aquilo que sentes, pela primeira vez, é o Amor. E este mundo, em cada dia de novo habitado e desabitado por amantes que se encontram e se perdem, o único mundo que conhecerás. Nele, há um sentido para cada palavra gasta ou por usar. Há um Deus, crianças que nascem, mulheres que nos amam, outras (ou as mesmas) que nós amamos. E pouco, ou nada, mais.
– «Gostaria de saber uma coisa», pergunta Cassiel o anjo caído em “As Asas do Desejo”; «O mundo é igual para as mulheres e para os homens? As mulheres são diferentes?».
– «As mulheres são humanas. Portadoras de uma luz humana. Os homens procuram, procuram, até encontrarem nelas o calor que lhes falta. Elas compreendem-vos. É tudo o que sei dizer».
Elas compreendem-nos, sim. Envolvem-nos na sua vontade de restituir a cada homem a nossa inocência.Para não precisarmos de recomeçar, de cair e cair de novo, de perdermos para sempre a vontade de nascer.
As mulheres são o princípio activo do universo, digo-te eu. Este planeta é o planeta das mulheres. Ele move-se empurrado pela sua vontade de amar, de serem amadas, de perdoar e de esquecer. E o Tempo, também ele, é feminino, embora por vezes as palavras tenham o sexo trocado na maternidade da gramática. O Tempo como já não o conhecemos, de quando éramos crianças e tinhamos mãe e o seu calor a eternidade da nossa ignorância. Deves lembrar-te, havia essa luz nova em cada manhã e o mistério renovado de viver.
Agora que sentes o amor, sentes também o que te escrevo, mesmo que não o entendas.
«Deixei-a pedindo-lhe licença para tornar a vê-la nesse mesmo dia, ela consentiu e eu de novo a vi. Desde esse momento, Sol, Lua, estrelas, podem dispor-se segundo a sua fantasia. Já não sei quando é dia, quando é noite, o Universo sumiu-se ao redor de mim».
Assim te fala Goethe através de Werther. Podiam ser tuas estas palavras, maravilhosa descrição de um lugar comum, como é todo aquele em que nos reconhecemos. É o momento infinito em que agora vives e pouco importa quando acabará. «Ama e faz o que quiseres», foi um Santo quem o disse, chamado Agostinho. E na verdade, desde que ames, tudo te é permitido e tudo o que faças será bom. Mas se tiver um fim, se for necessário que termine o que deveria sempre começar, ouve as palavras de Rilke ao jovem poeta Kappus: «Não julgue que o amor que conheceu adolescente se tenha perdido. Não foi ele que fez germinar em si aspirações ricas e fortes, projectos de que ainda hoje vive? Tenho a certeza de que esse amor apenas sobrevive, tão forte, tão poderoso na sua recordação, pelo facto de ter sido a primeira ocasião de estar só no mais profundo de si próprio, o primeiro esforço interior que tentou na sua vida. Meu caro senhor Kappus, todos os meus votos de felicidade. Seu, Rainer Maria Rilke».
Texto escrito há cerca de doze anos e agora reeditado, não por preguiça ou porque esta casa não mereça inéditos, mas apenas porque através dele dirijo-me a interposta pessoa e não conseguiria, agora, dizer-lhe melhor o que então escrevi a alguém nas mesmas circunstâncias.


E foi bem reeditado, sem dúvida.
Ditosa a mulher que recebe tão belo texto, de tão inspirado Homem.
Parabéns. Folgo em vê-lo mais bem disposto do que da vez anterior, se me permite que adiante esta conclusão.
Muito obrigado pelos comentários, mas tenho que clarificar que este texto foi escrito a um rapaz que vivia o seu primeiro grande amor por uma mulher, circunstância que agora se repete com outro familiar 🙂
Daí a referência aos jovens Werther e Kappus.
Não tem por isso uma destinatária feminina. Embora, nos tempos que correm, enfim…imagino que pudesse ter 😉
Caro João: original ou não, foi um gosto ver um texto teu aqui no DELITO. Abraço.
Caro Pedro, obrigado eu pelo convite a todos nesta casa. Abraço.
Ooh… João, que texto mais bonito! Estou encantada!
Que inspiração e que prosa linda de se ler. Adorei.
Os meus parabéns.
Um beijinho.
Lindo. Esmagadoramente generoso, até com a vida.
Estou sem fala (deve ser do sono e essa é seguramente a sua sorte!!)