Uma parábola na estação tola
Tramado é que esta ingrata civilização do bem-estar e do consumo desempregou os nossos corpinhos feitos para malhar na terra, para caçar, subir às árvores ou para alvorar a fugir dalgum animal selvagem mas deixou-nos um dilacerante apetite de quem precisa de armazenar calorias para uma semana de carência. Nesta cultura de sofreguidão hedonista somos desafiados a corresponder ao primeiro assomo de apetite (não me refiro apenas à comida) e tratar o nosso corpo como tratamos o resto da natureza, num total desprezo pela sua ecologia: são os efeitos colaterais da democratização da alarvidade.
Aqui chegados, todos conhecemos almas inquietas com a sua decadência física, que a partir dos quarenta-e-tal anos se entretêm em dietas, ginásticas passivas e outros exercícios sem esforço que o dinheiro possa comprar. As mulheres são vítimas privilegiadas desta ilusão: começam cedo no escritório com garrafinhas de água e golinhos de cinco em cinco minutos para iludir o apetite e exercitar a bexiga, um disparate que resulta num corrupio constante, um ver-se-te-avias entre o seu posto de trabalho e a retrete. Perante a ausência de resultados, começa a fase dos chás verdes, bruxarias e outras mezinhas de ervanária: inicia-se assim um desaguisado colateral com os intestinos até estes se tornarem tão preguiçosos como a dona. Passam-se anos nestes rituais, com uma vida cada vez mais próspera e sedentária, num desafio crescente com o espelho e a ingrata balança, até chegar a fase desesperada. Esta surge na sequência duma visita a um dietista famoso ou dica duma amiga, e é constituída por um metódico programa de ingestão de comprimidos coloridos: cada vez mais nevrótica, entra numa espiral de euforia, perde o apetite, a calma, e uns gramas até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente.
Tudo se irá resolver com uma semana a chocolates e um programa de fim-de-semana de reconciliação com o marido num hotel com SPA e restaurante gourmet. Assim se recuperam todos os gramas e mais uns quilinhos optando então a dondoca por mudar de vida, queimar incenso e passar a vestir balandraus. A moral da história é que as aldrabices não funcionam: não há fuga possível, nem caminho fácil entre a mediocridade e o sucesso.
É irónico como nesta sociedade que venera o corpo e as aparências não haja parábola mais eficaz sobre as virtudes do mérito e do prazer diferido do que a da forma física. Tal como na escola só se aprende com estudo e empenho, tal como a riqueza só é criada com esforço e trabalho, a partir duma certa idade, a forma física depende fatalmente da austeridade alimentar e de muito, muito, exercício físico. Quem se preocupa com o implacável efeito da gravidade nos seus músculos e outros apêndices, está condenado a trabalhar e suar o corpinho, semana após semana, mês após mês, ano após ano, com muita perseverança e desapego, que o resto vem com as endorfinas e mais algum desapego; afinal, o mais importante na vida nem sequer é isso!
Nota: qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.



Parabéns pelo texto. É um gosto revê-lo por cá, João.
Obrigado! O gosto foi todo meu, caro João!
Até me apetecia copy paste lá para o blog de tão bom que está!!!!!! (muito bom, mesmo!)
nada como um elogio duma loira inteligente 🙂
Ah, caro João, que cruéis verdades as deste calvário feminino que (quase?) todas nós conhecemos tão bem! Como negar este seu retrato, “hiper-realista” e ainda por cima bem escrito, da histeria colectiva das sociedades ocidentais na inútil busca do elixir da juventude?
Mas – concordando com quase tudo, que remédio… – tenho de insurgir-me com esta afirmação categórica, generalista e sobretudo muito imparcial: “(…) até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente”. Ora aqui é que está o busílis, porque o cônjuge, meu amigo, raramente é assim tão inocente… se essa santa e impoluta criatura não se babasse com todas as esculturais figurinhas que vê à frente (e que têm, quase sempre, a idade dos seus próprios rebentos…), talvez a sua tresloucada mulher não deprimisse com tanta facilidade, e talvez não sentisse tanto esta estranha compulsão para os sacrifícios inúteis…
E há mais: desgraçadamente – e a culpa é toda nossa, admito – aos homens sempre foi permitido engordar, “encarecar”, amolecer, etc., sem que isso impedisse alguma vez as mulheres de amá-los tal e qual como vão ficando, e sabe Deus, às vezes…
Agradeçam-nos, portanto – e de joelhos, se a vossa forma física o permitir… – esta enorme generosidade em poupar-vos às nossas descabeladas e frustradas tentativas para parecermos mais novas e bonitas. Por vossa causa ou não, tanto faz, que os custos são altíssimos na mesma…
Mas seja, como sempre, muito bem-vindo a esta casa! Gosto de vê-lo por cá.
🙂
Sou obrigado a concordar consigo Ana, que nós os homens não estamos inocentes: uma mulher bonita é sempre uma ameaça de perdição (?).
Mas essa coisa do homem trapalhão já foi chão que deu uvas: hoje nós também temos que correr (literalmente) para correspondermos às V. expectativas.
Resta-nos colocar os valores na sua devida escala.
🙂 O gosto desta passagem por aqui é todo meu!
Numa coisa estamos absolutamente de acordo, João: há que repensar todos estes valores, e urgentemente. Este culto da eterna juventude é ridículo e perigosamente alienante, sobretudo neste mundo em que se vive cada vez mais tempo e nasce cada vez menos gente.
Mas atenção… uma ameaça de perdição são também os homens para nós, não esqueçam esse pormenor. E com uma agravante: basta que sejam interessantes, nem precisam de ser bonitos. O pior é que, para vossa grande sorte e nosso azar, é mais fácil encontrar gente bonita do que gente interessante…
(Errata: no meu comentário anterior queria dizer, naturalmente, “muito pouco imparcial” e não o contrário)
Sábias palavras, Ana…
Algum deles me ouvirá, Nicolina? I wonder…
“homens sempre foi permitido engordar, “encarecar”, amolecer, etc., sem que isso impedisse alguma vez as mulheres de amá-los tal e qual como vão ficando, e sabe Deus, às vezes…”
Mas olhe que já não é, Ana. Já não é…
E o post está excelente, João.
Continuas inspirado, João. Gosto muito de te ver por cá. Um abraço.
Tem dias, Pedro:-) Obrigado!
Muito bem! É por isso que não ponho os pés num ginásio 🙂
para lá da tua mentalidade monástica, tu não ias lá fazer nada, já és elegantíssimo. tens que poupar calorias 🙂