Uma banda gástrica e uma mole de pílulas contraceptivas, sff
O Estado é laico, bem sei, mas procria como uma família da Opus Dei. Aparentemente, e muito embora os distribua gratuitamente, não prescreve para si quaisquer meios contraceptivos que o impeçam de aumentar a prole. E longe de fazer um manguito a tudo isto, o português vai pagando em mensalidades do ordenado, e por via dos impostos, as sucursais que o Estado se vai lembrando de abrir.
Reforçado pelos números do desemprego que permitem antever, dentro de pouco tempo, grandes festins de sem-abrigo no Terreiro do Paço, o Estado mete mãos à obra para, incansavelmente – e, diria eu, quase todos os dias – encontrar forma de encaixar o maior número de amigos portugueses que saibam preencher uma ficha de filiação partidária.
E foi um destes dias, ao abrir uma notícia, que tropecei – naquela que terá sido a sua estreia mundial – no nome de um novo Instituto. Desta feita, o das Infra-Estruturas Rodoviárias. Desconhecendo ao que se destinava, rumei ao Google em busca da sua “Missão”:
Inventado com grito de “Eureka”no ano de 2007, o InIR – son petit nom – pareceu-me partilhar com outros organismos, nomeadamente, com a “Estradas de Portugal, SA”, uma catadupa de responsabilidades importantes, pelo que, atestado de curiosidade, dei um salto até ao site do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações a fim de encontrar duplicações. Erro fatal!
Assim que cheguei onde queria, fiz scroll-down com o rato e a listagem de empresas/organismos dependentes directos do MOPTC desenrolou-se como uma slot-machine espanhola.
O tal Instituto, fazendo jus ao comprimento do nome do Ministério – ainda dizem que o tamanho não conta! -, é um, num universo de 48 “irmãos”. E isto sem contar com primos, enteados, cunhados e emprestados que por lá trabalham e empregam outros tantos. E numa família destas – começo a achar que o Estado devia ser membro honorário da Associação das Famílias Numerosas -, não pode faltar o benjamim, o júnior, o mais novo, a quem os pais deram o nome de “Equipa de Missão de Terceira Travessia do Tejo”. Para os amigos, o TTT! Chique! Não trabalha, mas como todos os recém-nascidos, deve comer que se farta!
E foi assim, que perante 48 empresas/organismos, apenas as dependentes directas do Ministério, dei por mim sem paciência para pesquisar a sua pertinência e ao que vinham, mas a perceber, perfeitamente, por que raio trabalho eu até Maio: apenas e tão só, para sustentar o Estado morbidamente obeso que temos e que não há maneira de tomar a pílula.


Muito boa e oportuníssima observação do João Maria Condeixa. Parabéns.
Obrigado, João, em triplicado: pelo convite, oportunidade e comentário.
Certeiro e bem humorado.
Mas começa a parecer-me que isto já lá não vai com humor.
Sem humor não consigo 🙂 mas também me parece que precisamos de outro tipo de atitudes, sobretudo de quem pode, no imediato, fazer a diferença. E reforço o “no imediato”. Obrigado, Alberto.
O texto é óptimo, escrito com fino humor.
Mas não sei, após lê-lo fiquei ligeiramente deprimida.
Obrigado, Maria. Mas se achou deprimente, experimente ver os restantes ministérios. Tenho andado, devagarinho, a fazer esse levantamento e acredite que assusta, não deprime!
Almoço na Nonna , chego ao escritório e leio isto… duas razões para ir lá abaixo comprar um antidepressivo!!!… Talvez esteja na altura de ir a Maputo carregar uns manifestantes, que acha? :))
Recomendaria mais, pelo que conheço do restaurante, umas pastilhas rennie! E dizem que dá para os efeitos indesejáveis que este post também possa criar! 😉
Deliciosamente escrito. Terrivelmente real.
Obrigado, Sílvia. Infelizmente é bem verdade. Trabalhemos até Maio para isto 🙁
Com pouco ou nada a criticar na composição humorística e frásica – juntando-me assim à tímida mas assertiva apreciação da aventura do “scroll up e scroll down” – acho que é melhor enviarmos este comentário aos “TTT” para ver se isto anima.
Por acaso gostava que alguém desse organismo desse sinais de vida. E que não fosse com um lançamento de um mega-estudo sem novidades!
“Assim que cheguei onde queria, fiz scroll-down com o rato e a listagem de empresas/organismos dependentes directos do MOPTC desenrolou-se como uma slot-machine espanhola”
– Uma enorme Vaca com dezenas de tetas! Há leite para todos os filhos/filiados.
Excelente texto, meu caro João. No fundo e na forma. Foi um prazer receber-te aqui.
Um abraço.
Muito obrigado, Pedro. Keep up the good work!
Eu sou mais radical: uma castraçãozinha estatal (química, vá lá…) e resolvia-se o problema de vez.
Belo texto, que mostra bem a contenção de despesas que está a ser feita. TTT quer dizer… Todos Têm Tacho??