Convidado: BRUNO FARIA LOPES


Pedro Correia,

 

Portugal é uma democracia adolescente – mas não é um país adolescente

 

Egipto, Iémen, Tunísia, Irão, Líbia e afins árabes: o que têm em comum? Entre outras coisas, uma população muito jovem. Um dos maiores desafios para qualquer país é a gestão de uma explosão demográfica. Nos países árabes do norte de África e do Médio Oriente a árvore demográfica tem a maior base de sempre, com valores recorde para o peso das pessoas entre 15 e 29 anos – esta é uma estatística facilmente observável por quem já tenha ido a algum destes países. Nos países árabes a vaga que está a varrer governos autoritários tem por base um movimento demográfico. Sociedades mais jovens são sempre mais turbulentas: a China estava com a população mais jovem de sempre na altura da Revolução Cultural, tal como o Irão na queda do Xá; na Rússia, em 1917 a média de idade era de 15 anos. Não sei a média de idades em França durante o Maio de 68, mas também aqui há seguramente uma relação demográfica com o boom de natalidade depois da Segunda Guerra Mundial. Países adolescentes e com instituições muito fracas podem ficar reféns de instabilidade e guerras durante anos a frio. É o caso do Afeganistão (idade média: 17 anos), da Somália ou de 16 dos 25 países mais sangrentos e instáveis do mundo.

 

Portugal não é um país adolescente – longe disso. Em Portugal como noutros países ocidentais, o desafio é gerir a implosão demográfica. O país será cada vez mais velho: o índice de dependência de idosos, que em 2001 era de 24,1% será de 58% em 2050 (quando eu for um “idoso”), segundo o cenário base do INE [isto é o peso das pessoas com mais de 65 anos na população entre 15 e 64 anos]. Num cenário destes será cada vez mais o interesse dos mais velhos a ditar nas urnas para onde vai a política pública – não se trata aqui de pôr “velhos contra novos”, mas sim de constatar uma tendência perigosa. Mais: este envelhecimento convive com a explosão total da sociedade do entretenimento, ideal para o adormecimento colectivo, sobretudo dos jovens (como já hoje se percebe – Aldous Huxley tinha razão).

 

Conclusões para os deolíndicos e afins? Muitas, mas fica só uma: o tempo para pressionar mudanças é agora. A janela vai ficar cada vez mais curta. É tempo, meus caros, de começar a votar em peso, de acordar para a vida. O que leva a outras perguntas. Votar? Em quem? E por que mudanças? É este o debate que interessa.

 

Bruno Faria Lopes

6 comentários em “Convidado: BRUNO FARIA LOPES”

    1. Obrigado pelo convite. O tema é mesmo inesgotável. E as mudanças demográficas são aquele elefante na sala de quem ninguém fala… (porque são lentas e exigem sempre, mas sempre, reformas que mexem com “interesses”). Um abraço, B.

  1. Diz muito bem o Bruno. Concordo inteiramente com este post.

    Mas gostaria de acrescentar um outro possível fator, que é o aumento rápido do preço da alimentação. O Médio Oriente é uma das principais regiões importadoras de cereais do mundo. Os cereais (tal como os combustíveis derivados do petróleo) são, na generalidade dos países do Médio Oriente, vendidos à população a preços subsidiados, o que custa aos Estados um ror de dinheiro. Com o aumento da população, cada vez fica mais caro aos Estados fornecer pão à sua população.

  2. Sem dúvida, um problema, este da implosão demográfica. Ainda assim, penso que me posso dar por feliz por ficar idosa antes de 2050, as perspectivas apontam para que, quanto mais tarde, pior (claro que a tendência pode ainda mudar).

    Quanto ao debate “Votar? Em quem? E por que mudanças?” não vejo, para já, perspectivas. Com a pouca juventude tão desanimada…

    Somos todos responsáveis, eu sei. E há que manter a esperança. A mudança há-de chegar. Fica por saber se, primeiro, temos que bater bem no fundo…

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