Oceano de dificuldades
Vivemos tempos de incerteza e de angústia. Muitos de nós já perceberam que os próximos tempos serão muito piores que os últimos anos, já de si bastante maus. As famílias, as empresas e o Estado viveram mais de 15 anos acima das suas posses, financiados pelo exterior. Pensámos que, apesar de tudo, éramos colectivamente ricos e que tudo era possível: havia dinheiro para tudo e as contas, um dia, seriam pagas. A maioria não se apercebeu que, quando uma atitude destas se generaliza, o tombo que se lhe sucede é colectivo e vertiginoso. Agora já há muitos que sabem que vão ter de enfrentar as consequências e mesmo alguns, várias centenas de milhar, que já o estão a enfrentar.
Não vou ocupar este espaço, que tão generosamente me concedem, a discorrer sobre de quem é a culpa. É um exercício fundamental mas fica para outra ocasião, noutro espaço. O que agora mais me preocupa é a gestão do futuro. E para gerir o futuro não basta um Pantagruel de medidas económicas. É preciso perceber não só o que vai estar à vista (o desemprego, as falências, a miséria, o deslaçar de muitas das estruturas que ainda hoje funcionam) mas também o que vai estar escondido. Dentro de cada um e dentro dos círculos sociais mais íntimos: a angústia, o desespero, a frustração, a incerteza e, também, o ódio.
Quem assumir responsabilidades de governação nesse contexto enfrentará um enorme desafio mas será também sujeito a gigantescas provações. Não só há que mudar décadas de vícios e de conforto fictício como saber lidar com uma realidade tão difícil quanto complexa. No plano colectivo e na enorme multiplicidade dos planos individuais. Que quem for a jogo ao menos perceba o que o espera. Governar será, por muito tempo, navegar em frente a sucessivos Adamastores, enfrentando um oceano de dificuldades.


O que cada um vai sentir adivinha-se. Realmente essencial será a postura e consciência de quem vier a ter responsabilidades governativas, porque muita coisa terá de mudar. Parabéns a António Nogueira Leite por este importante sublinhado.
Apesar de toda a adversidade, penso que os portugueses estarão receptivos a apoiar um Governo que apresente um discurso com fundamento na realidade. E que não se esqueça de um princípio fundamental numa relação que se quer de confiança: walk the talk.
That’s it.
Como eu costumo dizer (depois de tanto ouvir) é preciso que nas empresas, na governação, na administração e nas famílias se ponha “the money where the mouth is”.
Apesar dos tempos difíceis, penso que por cá se continuará a roubar com até agora. Mais milhão menos milhão. Mesmo tendo presente a frase de Pedro Ferraz da Costa, a de que «Portugal não tem dimensão para se roubar tanto».
Caro António: obrigado por esta visita. Como refere no seu texto, este é um exercício de reflexão fundamental.
Um abraço.
Basicamente, tudo isso que António Nogueira Leite escreveu é verdade.
E já o era há mais de uma década, com os resultados que todos conhecemos.
Mas também estou certo que na parte que lhe “toca” directamente, o autor do texto saberá que quem já está preparado para governar com o FMI não terá medo de “outros” Adamastores.
E é bom que assim seja porque quem o disse, se lá chegar, escusará depois de vir afirmar que desconhecia a realidade ou que a herança era pesada, discurso estafado e que seguramente não será repetido por quem já conhece tão bem o estado do País.
Vou ter este texto sempre à mão durante toda a próxima legislatura.