Anno C
Este é o ano do centenário dela. Da instalação dela. Das réplicas dela. Do reavivar da utopia possível com busto generoso e bigode mustafálico que nela irrompeu. Mas sejamos claros. No pasó nada: uns tirinhos, uns pirolitos, umas arruadas, umas proclamações a piscar o olho à eternidade fixa (já que a móvel nada mais é do que o tempo, Platão dixit), umas reformas, como agora se diria, fracturantes, a turbamulta sempre preparada para o que desse e viesse, uma participação cívica nunca vista, uma janela escancarada para a brutalidade do despontar do séc. XX – a Grande Guerra -, o florescer da modernidade nas artes e nas letras, o apogeu da nova filosofia portuguesa, a proliferação de jornais e revistas, a laicidade (menos como princípio de organização do estado, e mais como método intimidatório, cego e contra natura), as revoltas do pão, a hipocrisia do sufrágio censitário, Carolina Beatriz Ângelo, que tão bem o desmontou, os “adesivos” e os “sempre em pé” que fizeram carreira, a tropa, esse viveiro de golpismos, ora sossegada ora desejosa de intervir, a instrução para todos, Egas Moniz, o ensino técnico, os aviadores transatlânticos, a razão possível, aos tropeções na míngua de pão e de futuro, quando todos ralham e ninguém cede, Sidónio, o mais carismático, Costa, o animal político, Teófilo, o sonhador, Couceiro, o D. Quixote, os Governos a entrar e a sair em sistema de cama quente, a erupção social e cultural da mulher, o apocalipse frenético de 100 anos de liberalismo, pois que o respeitinho muito lindo veio logo a seguir. Eis a República!…


Caro António, muito gosto em recebê-lo por cá. Com a boa escrita de sempre, sem “acordo” ortográfico.
O gosto foi meu, Pedro. São estas iniciativas que recordam ser a blogosfera fundamentalmente um sítio de partilha. “Acordo” nunca, é claro…
Belo texto.
Gostei muito de ler. Parabéns ao António Godinho Gil.