Convidado: ANTÓNIO FIGUEIRA


Pedro Correia,

 

 

Do poder explicativo dos livros de história

(ou da sua falta)

 

A famosa “lenda negra”, que nos séculos XVII e XVIII se criou na Europa no Norte para descrever o atraso cultural das monarquias ibéricas, pode em bom rigor dizer-se que descreve melhor a situação de Portugal que a de Espanha na mesma época. A presença asfixiante da Inquisição, a omnipresença da religião, o fanatismo e a superstição, a ignorância generalizada, a aridez da vida cultural, caracterizavam Portugal – mais pobre, mais fechado, mais centralizado – mais ainda que o seu vizinho ibérico. O comportamento das elites do reino, nomeadamente do pequeno e fechado grupo da nobreza de corte, ilustra bem este estado de coisas; a destruição causada pelo terramoto de 1755 impede-nos de conhecer com precisão os livros, quadros, partituras, etc., que possuíam, pois muitos arderam nessa ocasião, mas há muitas razões para pensar que seriam proporcionalmente bastante menos do que os seus equivalentes noutras cortes europeias possuiriam, visto todos os dados disponíveis apontarem para o facto de as despesas ditas de representação (com criadagem, eventos festivos, cavalos e equipagens, etc.) predominarem sobre outras, ligadas nomeadamente à cultura ou à educação do espírito, nos orçamentos das principais casas nobres.

A incultura, ou simplesmente o atraso relativamente aos padrões europeus da altura, manifestava-se também no plano do gosto, das atitudes e das sensibilidades, que até nos espíritos supostamente mais avançados mantinham características arcaizantes: por exemplo, D. Pedro de Sousa Holstein, o futuro primeiro Duque de Palmela, pode bem ter sido um homem da sua época – pré-romântica – quando se relacionou em Itália com a célebre Mme de Staël; Fátima Bonifácio, que escreve um longo posfácio à edição portuguesa da correspondência entre ambos, descreve-o como sendo à época um jovem “rico e cosmopolita, triste e belo, culto e sensível”; quando se tratou porém de, regressado ao país, assegurar o futuro da sua casa, logo o jovem “cosmopolita e sensível” tratou de estabelecer uma aliança familiar “à antiga”, casando com uma menina Teles da Gama “cuja juventude e beleza faziam dela o ornamento perfeito do diplomata”. Fariam, talvez; mas em passo nenhum do estudo biográfico de mais de sessenta páginas que dedica a Mme de Staël e a D. Pedro, a historiadora acrescenta que o referido “ornamento” era, à data do seu casamento, uma criança de doze anos, que logo dois anos depois dava ao marido o seu primeiro herdeiro – e isto quando o marido já passava dos trinta. Por mais “inglesado” que fosse o futuro Duque (um traço que parece longe de desagradar a Fátima Bonifácio), fazia tempo que em Inglaterra os grandes do reino tinham deixado de fazer filhos a crianças de doze anos.

 

António Figueira

8 comentários em “Convidado: ANTÓNIO FIGUEIRA”

  1. Realmente se investigarmos bem vimos de onde vem o nosso problema do ” défice “… provavelmente chegaríamos á pré história.
    Será que alguma vez nos vão olhar de fora com respeito?
    A semana passada estava a ler numa revista um artigo sobre os ” banhos ” do nosso rei D.Carlos , e as férias nas estâncias balneares. A rainha mandava vir o piano por 8 homens a pé, desde o Paço em Lisboa até ao Palácio de Sintra e mandava levar os talheres de prata para a praia de cascais,para os almoços na praia.

    Se bem que o piano pudesse indiciar a ligação cultural da rainha á música, faz-nos pensar que se gastaram fortunas enormes com estes distúrbios.

    Gostei do seu texto.

  2. Caro António,

    É sempre um prazer ler o que escreves.

    Há “invenções” que perduram, de facto.

    Já adicionei o “delito” aos favoritos.

    Um grande abraço para ti. Espero poder ler os teus escritos por aqui.

    ezequiel

  3. Caro António

    deixo-te aqui o meu email.

    Gostaria de te enviar uns pdf’s sobre temas que (eu suponho que) te interessam.

    diz alguma coisa

    abraço
    z

    1. Caro Ezequiel,

      Desculpa a resposta tardia. Eu não tenho acesso ao backoffice deste blog, sou só convidado; envia-me pf o teu e-mail para o Albergue Espanhol ou para o 5 dias.

      Abraço, AF

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