A felicidade à base de ressaca e gajas boas
Acabadinhos de ser expulsos do Mundial da bola pelos cabrões dos nuestros hermanos, sento-me com o MacBook sobre os joelhos preparada para escrever um textinho incrivelmente original sobre a desgraça de ser portuguesa a viver em Madrid em dias como estes, ou talvez outro sobre o fim do sonho espanhol agora que se esfumou o milagre económico fundado na construção inútil de milhões de vivendas que ninguém comprará. Mas liguei a televisão. E fracassaram as possibilidades das teses sobre Espanha, o sistema financeiro internacional e a greve do Metro que hoje paralisou Madrid.
“Two man and a half” tem esse efeito sobre mim. Mais especificamente, Charlie Harper, a personagem que interpreta Charlie Sheen, ou vice-versa, porque depois de várias temporadas viciada na vida de dois irmãos quarentões que partilham casa com um pré-adolescente bronco e gordo, fica-se com a sensação que estes dois Charlies são o mesmo crápula infiel, sem escrúpulos, irresponsável, eterno adolescente, viciado em charutos, bourbon e mulheres com vinte anos a menos e silicone a mais e com um sentido de humor seco pelo que qualquer mulher mínimamente inteligente se apaixonaria. Basta ler a biografia de Charlie Sheen e vê-se logo que não bate bem: o gajo é cocaína, conduzir com os copos, divórcios com direito a pancadaria, curas de desintoxicação, filmes merdosos e redenções aos quarenta e tal. E gostamos. Eu gosto. Todos os bêbedos deveriam ter direito a redimir-se, mais ainda quando o resultado é uma série de televisão cujo argumento principal é o desprezo total pelas supostas bases da vida pequeno-burguesa a que todos, no fundo, aspiramos: ter um companheiro para a vida, filhos com a pequena comunhão feita, casa numa urbanização com piscina, ir de férias com casais amigos, um monovolume com todas as prestações e a anestesia garantida pela rotina da classe média. Charlie oferece-nos em cada episódio a felicidade à base de ressaca e gajas boas. Tem quarenta e tal e uma vida sentimental baseada em fracassos, veste com calção curto e soquete, é um músico medíocre e tem medo da mãe. Mas em vez de ser um fracassado, Charlie Harper tem, numa belíssima casa em frente ao mar, o hábito de partilhar fluidos com várias jogadoras de volley-praia em simultâneo e a conta bancária razoavelmente recheada. Cada episódio é uma homenagem à vida dissoluta, à pouca vergonha e ao sentido de humor sem complexos. Nota-se que os argumentistas, aliás, foram torturados à base de sessões maratonianas de séries de gajas. Porque se houvesse sentido de justiça na televisão global nesta série os queriduchos dos médicos de Anatomia de Grey eram espancados pelo Sean Penn, o Tom Petty e o Elvis Costello, gajos, por outro lado, que já fizeram o favor de aparecer num capítulo para gozarem com o outro Harper, o irmão tonhó que viveu sempre by the rule e que não passa de um perdedor, um triste, pisoteado em cada episódio pela mãe, as ex-mulheres ou a empregada, um dejecto do que um homem respeitável deveria ser. E Charlie, a mim, deste lado da televisão e com o MacBook sobre os joelhos, parece-me um homem respeitável, do melhorzinho que a televisão já nos deu e o suficientemente atraente em calção curto como me fazer mudar o tema do post. Acho que só o Tony Soprano, o Jack Bauer e o Omar Little tiveram esse efeito sobre mim. Só que o Charlie tem mais piada. E não mata ninguém. E sabe tocar piano. O homem perfeito, que se redime a mais de um milhão de euros por capítulo. Não há actor de vinte anos depilado e com cara de entender as vicissitudes do quotidiano feminino que bata isto.



Obrigada Pedro (e todo o Delito) pelo convite!!
Beijos
É um prazer ver-te por cá, Rita. Beijinho.
Belíssimo texto. Parabéns, Rita. Grande escolha, compadre.
Sabia que havias de gostar…
Ri-ti-ta-ça is in the building! Bom para nós e para os que nos lêem, y olé.
Confesso um guilty crush por um sacana simétrico, o egocêntrico bombeiro interpretado pelo Dennis Leary no Rescue Me, Tommy Gavin. Deus nos arrede deles na ‘vida real’.
‘God guard us’, em inglês técnico.
Vá, confessa que ficaste no quadro de honra da disciplina no colégio, Juan 🙂
Fiquei, confesso, mas senti-me frustrado por ninguém ter chegado a saber do meu sucesso: o resultado saiu num domingo…
Cuidado, que ainda chegas a primeiro-ministro.
A última frase é de uma sabedoria esmagadora, Rita! Com vinte anos, ter “cara de entender as vicissitudes do quotidiano feminino” é o máximo a que qualquer gajo pode aspirar. E será sempre só cara, entenda-se.
Gostei da visita refrescante.
🙂