Convidada: MISS X


Pedro Correia,

 

Às almas antigas que nos desvendam

  

Nestes dias de frio natalício, percorrendo os versos de Pushkin – “antiga Primavera, que nos acode à imaginação, miragem de terra longe, duma rua” -, assomou-se-me à memória o meu avô. 

Era sempre após a queda da folha de Outono e do cair da geada de Inverno que o meu avô chamava todos os netos à sua presença.  

Como se nos quisesse ver apenas e só na Primavera, ressuscitados e renascidos, para um novo começo cíclico que se iniciava, não na data do nosso aniversário, mas a cada domingo de Páscoa. 

Com os nossos trajes domingueiros,  do alto da nossa meninice, um a um dirigíamo-nos ao patriarca da família, para prestar o nosso respeito e ouvir as palavras que precisávamos de ouvir. 

Como um acto de paz, em ramo de oliveira, o meu avô oferecia também um presente monetário, tornando-nos ainda mais crescidos perante tal oblação real. 

Sempre que era chamada à sua presença, ouvia-o atentamente, mas recusava sempre aceitar o que me oferecia, com um não apressado, em fuga pela porta do jardim. 

Naquele domingo de Páscoa dos meus 12 anos, encontrei-o sentado placidamente na sua velhice e eu, de pé, alta e esquiva, no meu vestido de menina, esperava-o em silêncio. 
Perante os meus olhos amedrontados, abriu a sua mão enrugada revelando a mesma oferta que sempre recusara. 
“Não posso aceitar”, disse-lhe.  

A sua voz interrogativa lançava-me um “Porquê” ao qual nunca respondi. 

Fechando a sua mão sobre a minha, suspira: “És uma mulher velha. Tens uma alma antiga dentro de ti. Nas tuas leituras, nas tuas palavras, nos teus actos, guardas milhares de anos vividos nesse teu coração. Nada está errado contigo, percebes? Tudo está certo.”

De regresso a casa, a estranheza do meu ser iluminou-se em pleno sentido do existir.  
A única pessoa que me viu, para além de mim própria, que desvendou o meu próprio enigma, foi o meu avô. 

Neste Natal, aos anciãos e às almas antigas que nos desvendam, a minha sentida homenagem. 

 

 

Miss X

(blogue LIVROLOGIA)

5 comentários em “Convidada: MISS X”

    1. Época natalícia, flores… tudo bem!
      Mas sei que, por razões inversas, a questão de Jerusalém não vai passar impune pelo Delito.
      Como o meu tempo de antena de hoje está a terminar, atrevo-me a deixar, aqui e desde já, a minha grande indignação, que não a minha grande surpresa.
      A Administração Americana há muito que persegue a situação em que seja o único senhor (1) de um mundo de escravos.
      A exigência de o TPI não ter jurisdição sobre os seus militares, o afastamento unilateral dos compromisso relativos a grandes causas globais… são passos firmes rumo ao objetivo.

      (1) Não, não é engano. Neste projeto macabro, Judeus e Administração Americana são unha com carne.
      Mas carne para canhão somos todos nós…

      João de Brito

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