O poder curativo do perdão
Na Melhor Revista do Mundo, também conhecida por Standpoint, li no início do Verão um texto sobre o poder curativo do perdão para os afectados por crimes violentos: as vítimas e os criminosos. A melhor forma de lidarmos, e de não azedarmos, com os pecadilhos que vamos sofrendo e perpetrando, de aprendermos com a vida (ou com o somatório dos pecadilhos nas duas direcções), é perdoarmos e aceitarmos o perdão dos outros – o que não significa que sejamos sempre inteligentes ou magnânimos e coloquemos em prática o que sabemos mais eficaz para aliviar a consciência e até o humor (eu, pelo menos, ainda imperfeita na arte do perdão me confesso). Não espanta, assim, que ultrapassar a vivência de um crime violento passe por alguma forma, preferencialmente crescente, de perdão.
Tenho-me recordado desta necessidade de perdão quando oiço ou leio nestas últimas semanas alguns argumentos favoráveis à construção da Cordoba House, a mesquita que se planeia construir a dois quarteirões do Ground Zero. Sobretudo os argumentos que qualificam a mesquita naquele local como um poderoso símbolo de reconciliação entre Nova Iorque e o Islão, ou do reconhecimento de que não foi o Islão que implodiu as torres mas sim uns extremistas que, só por acaso, eram muçulmanos. Se o último argumento é facilmente desmontável – como escreve William McGurn no WSJ, ninguém passeia pelas ruas de Manhattan receando que um metodista lhe expluda o escritório – já o primeiro argumento me é muito apelativo. Em especial porque eu não fui uma sobrevivente que conseguiu escapar das Twin Towers antes de desabarem, não era familiar ou amiga de alguma das vítimas que pereceram, não fui colega dos bombeiros que entraram nos edifícios para ajudar à evacuação e terminaram debaixo dos escombros, nem estava em NI naquele dia e, logo, não senti o medo de quem está sob ataque. O perdão e a reconciliação são, para mim e neste caso, muito fáceis. Exigi-los a quem tem o 11 de Setembro marcado na pele já me parece um abuso.
Só passei pelo Ground Zero uma vez, em 2004, e deparei-me com um ambiente inesperado. Junto à rede que vedava o local via-se a menina com um ramo de flores para depositar na rede, acompanhada da senhora com idade para ser sua avó; viam-se pessoas sentadas nos bancos perto, ou no chão do passeio, olhando com ar vazio para onde estiveram as torres; via-se quem agarrasse a rede e deixasse correr silenciosamente as lágrimas pela cara; via-se, paralelamente ao frenesim da cidade, toda a panóplia de personagens que se espera encontrar num cemitério.
A pretensão de construir um centro da religião em nome da qual foram realizados os ataques de 11 de Setembro junto a um local que é ainda, e será por mais uns bons anos, uma ferida por cicatrizar – relembro que apenas nas celebrações dos sessenta anos do Dia D foi convidado o chanceler alemão para se juntar aos representantes políticos dos aliados na Normandia, tendo Helmut Kohl mostrado vontade de estar presente, sem resultado, aquando dos cinquenta anos – é uma provocação deliberada, por um imã que parece saído de um manual do cinismo (ao mesmo tempo que afirma querer construir pontes ameaça com a fúria islâmica se não lhe permitirem construir a mesquita) e a quem o epíteto de moderado só se pode aplicar num intenso exercício de ingenuidade.
Regressando aos inícios do texto, desejo que familiares e amigos das vítimas consigam perdoar a quem sintam como responsável pela perda que sofreram. Desejo que lhes seja dado o tempo necessário para a reconciliação sem que lhes acicatem o sofrimento. E desejo também que os muçulmanos americanos, num real gesto de boa-vontade, pressionem o imã Rauf a construir a sua mesquita noutro local menos simbólico.



Acho apreciável a frontalidade aqui exposta num assunto tão delicado. Com uma excelente fundamentação que tenho por simultaneamente forte e serena. A Maria João está de parabéns.
João, obrigada – e, sobretudo, obrigada pelo vosso tão amável convite.
Gosto de vê-la por cá, Maria João. E gostei muito do que escreveu.
Pedro, eu é que gostei muito de aqui escrever (em vez de só ler). Obrigada.
Os quarteirões em Nova Iorque são grandes e dizer que a mesquita estará no Ground Zero parece-me abusivo.
Seria como se o Ground Zero fosse no Marquês de Pombal e a mesquita lá para o Rossio ou mais longe ainda.
Creio que estamos a fazer uma tempestade num copo de água e, no fundo, a dar uma ajuda à propaganda da Al-Qaeda.
O comentário mais sensato que li sobre o assunto da mesquita surgiu mais ou menos desta forma: pode ser construída a mesquita? Pode. Deve sê-lo? Talvez não. Tudo uma questão de senso.
Gostaria de ter visto o assunto da mesquita discutido pela MJM mais por este prisma. Se a opinião dela é óbvia e está bem defendida (concorde-se ou não com ela), não sei se MJM acharia por bem proibir a construção (como muita direita americana entende).
Há aqui uma questão, no entanto, que me preocupa: que MJM aceite facilmente que foi o islão que causou o 9/11 e não elementos muçulmanos radicais. Talvez eu não me preocupe com a possibilidade de metodistas me atirarem com um avião para cima, mas sou capaz de me preocupar com eles (ou outras confissões evangélicas americanas – não sei muito sobre as diferenças entre elas) se por acaso passar ao lado de uma clínica de abortos. Será então o evangelismo violento? Não, como é óbvio, mas há elementos radicais no mesmo que me preocupariam, tal como em todas as religiões (e fora das religiões). Outros exemplos passariam pelo Ku Klux Klan, habitualmente cristãos.
Quando estive em NY e fui ao Ground Zero tive uma experiência radicalmente diferente. Estive lá (em 2003) durante umas boas duas horas a ver as pessoas. A maior parte passava indiferente. Dos que se detinham, a maior parte eram turistas que tiravam fotografias, (frequentemente) sorridentes. Uma boa quantidade de pessoas era composta por vendedores de rua, a oferecer t-shirts, bonés, torres em miniatura e até réplicas dos aviões com (diziam, não confirmei) os números correctos dos aviões pintados na cauda. Pessoas a chorar não vi uma. Apenas algumas que olhavam de lado com olhos tristes para o local como se não vissem ninguém à volta.
Isto nada quer dizer. Cada um lida com a tragédia à sua maneira, seja a sua tragédia, a de pessoas próximas ou até a de completos desconhecidos. São as pessoas que não estiveram ligadas à tragédia que a devem julgar. Da mesma forma que não se deve colocar uma vítima de um crime a julgar o criminoso, também não se deve utilizar o testemunho das pessoas que sofreram directamente com o 9/11 como um teste Litmus sobre a construção da mesquita. Não são objectivas. Estejam do lado que estiverem.
Debruça-se o texto sobre a noção de perdão. Compreendo que MJM o veja como importante, porque é importante para si. Para mim não o é. Para outros não o será. A catarse não é necessariamente um acto religioso (pessoalmente associo esta questão do perdão aos cristianismo), embora possa ser ajudada pela religião. Para muitos, a catarse será feita não pelo perdão mas pelo ódio. É isso que está a motivar a oposição à mesquita.
Perguntam-me a opinião: que acho eu da construção? Não acho nada. Digam aos promotores da mesma que é má ideia. Se inisitirem em a construir e não quebrarem leis deixem-nos. E quem não gostar da mesquita o melhor que tem a fazer é ignorá-la. Passar tanto tempo a atacá-la é atacar os valores de liberdade do país. E dar a vitória a quem provocou o 9/11.
saiu longo, mas às vezes acontece… 🙂
E aconteceu bem, parece-me… Apreciei a sua análise: objectiva, sensata e portadora de uma sensibilidade acrescida (ou falta dela) e de uma lucidez acentuada no que diz respeito à concepção das liberdades religiosas.
João, claro que a mesquita pode ser construída; nem coloquei isso em causa. O meu post está precisamente a questionar se deve ou não ser construída – e parece-me que não.
E não penso que tenha tido uma experiência diferente do ground zero: a maioria das pessoas eram transeuntes da cidade e, lá pelo meio, os que visitavam o ‘cemitério’. Eu, como não gosto especialmente de visitar cemitérios, nunca mais voltei ao ground zero; entretanto pode já ter-se normalizado a frequência, mas em 2003, como referiu, ainda se viam pessoas de luto.
Gostei imenso dos textos da MJM que leio profusamente n’O Insurgente e com a qual concordo quase em absoluto. No entanto, tinha de chegar o dia em que teriámos de discordar. Remetendo a análise para o plano da Moral (se a mesquita deveria ser construida naquele local), penso que a resposta deveria ser afirmativa. Não sei se no caso concreto o imâ é extremista ou moderado, mas do que já li do Islão, penso que a generalização de que “são todos uns radicais” é bastante perigosa e desnecessária. Dito isto, considero que seria importante ficar claro que o acto de uma pessoa não representa o islão e que a liberdade de culto nos EUA deveria permitir a construção da mesquita, caso a mesma fosse com fins pacíficos e por/para fiéis que permitam a liberdade de culto que exijem dos outros, i.e., muçulmanos que saibam conviver em sociedade. Conforme refere MJM, o perdão é o melhor remédio para a cura e penso que todos teriam a ganhar em isolar os extremistas muculmanos de quem, apesar de ter um culto idêntico, defende que o mesmo deva ter fins pacíficos e de respeito pelo próximo, pela humanidade em geral. Este espírito de conclave, ou se quisermos de abertura ao díalogo, de dar a outra face, surpreende pela radicalidade positiva e, acredito, irá isolar os extremistas radicais. Pode ser uma grande ingenuidade, mas é a que permite que não estejamos todos a caminho de Meca, senão numa cruzada, numa luta pela nossa própria sobrevivência.