A culpa foi do gato
Eu sei que deveria ter falado em francês com os meus filhos quando eram pequenos. Se o francês quase foi para mim uma segunda língua materna, que aprendi muito cedo, no desempenho da minha função de filha de emigrantes no tempo das malas de cartão, eu deveria, chegada ao papel de mãe de família, ter tirado proveito desta condição e ter ensinado os meus filhos a falar francês tornando-os bilingues. Mas não fui capaz. Uma estranha força impeliu-me a só falar com eles em português, como se não fosse natural o uso simultâneo do francês.
Era uma força que me acompanhava desde criança, muito antes do apelo irresistível da terra ter trazido a minha família de volta a Portugal. Bons emigrantes que éramos, não falhávamos as férias grandes, em julho ou agosto e, depois de dois mil quilómetros de estrada, com o banco de trás do Simca 1500 cor de vinho do meu pai todo para mim, chegávamos com as malas cheias de presentes para as tias e para as primas, peças de pano compradas nas Galerias Lafayette para se costurarem os vestidos da moda, lenços de pescoço estampados com a torre Eiffel e o Sacré Coeur, e muitas saudades para matar ao calor do nosso verão algarvio.
Assim que eu punha o pé em Portugal, a minha boca só se abria para falar em português. A passagem da fronteira desligava em mim a língua do país de acolhimento e a única excepção a essa aparente avaria apenas se dava se a conversa fosse com a minha prima mais nova já nascida em terras gaulesas e que, durante muitos anos, embora tudo entendendo, se recusou a pronunciar uma palavra que fosse em português.
Certo dia, a minha prima francesa que não falava em português, brincava no pátio de uma das nossas muitas tias e, sentindo fome, pediu um pedaço de bolo. Du gâteau, pedia ela. E a tia que bem se esforçava por entendê-la, ouvindo várias vezes gâteau, gâteau, lá conseguiu agarrar no gato que andava por ali para o entregar à pequena, certa de que esta queria fazer umas festinhas ao bichano.
A história ainda hoje me faz sorrir e chego a pensar que a tal força que sempre me impeliu a falar por cá exclusivamente em português, o que, reconheço, prejudicou boa parte da minha condição de educadora, deve ter alguma relação com o caso do lanche falhado da minha prima e do tal gato que, claro está, não se chamava bolo.
Luísa Correia
(blogue À ESQUINA DA TECLA)


Os seus pais eram algarvios?
É que, os emigrantes geralmente passam as férias na sua terra de origem, que só em poucos casos é o Algarve.
Eram, sim, Luís Lavoura, e eu também nasci cá, no Algarve. Vários membros da minha família emigraram para França.
De facto, tendo em conta o grande número de portugueses que agora emigram para países com o Luxemburgo e a Suíça, não teria sido má ideia ensinar os filhos a falar francês. Para que eles pudessem fazer o mesmo que os avós, mas com maior facilidade.
Bem me penitencio…
Obrigada, Pedro Correia, pelo convite para escrever aqui. 🙂
Eu é que agradeço a sua participação, Luísa. Em nome de todos os autores do DELITO. Gostei muito desta sua crónica – como aliás já esperava.
Muito bom.
Como sempre, aliás.
Vindo da Luísa só podia ser assim.
Parabéns ao vosso blog por darem este tipo de oportunidades.
Essa do “gátô” está engraçada… =) o meu primeiro professor de francês contou-nos uma anedota sobre um casal emigrante que veio de férias a Portugal, como a família da Luisa, e a miúda entrou no mar e começou a afogar-se. Alguém se lembrou que “nada” em francês se diz “rien”, então começaram a gritar-lhe “Nádia, rien, rien!”. A pequena, não fez nada, afogou-se.
Pois eu conheço uma moça, também filha de emigrantes em França e também retornada, mas que fala francês perfeitamente (e é cidadã francesa) que uma vez se pôs a dizer a uns amigos franceses que cada vez gostava menos de sair e mais de ficar em casa, e então disse “j’aime bien mon lar”. Acontece que “lar” em francês é banha de porco…
Ao contrário de si, o meu Pai, francófono e francófilo, obrigava-nos em casa a falar em francês porque, dizia, isso nos havia de ser muito útil.
De facto a nossa segunda língua – minha e de meus irmão – foi sempre o francês e isso trouxe-nos profissionalmente grandes vantagens.
No meu caso, infelizmente, trouxe também uma total incapacidade para o inglês que percebo, leio e escrevo, mas não falo.
A ganhar ficou o meu filho que domina cinco línguas: português, francês, inglês, espanhol dado que uma parte da familia paterna nasceu aqui ao lado e arranha bem, por gosto, o italiano. Tenho cá uma inveja…
Muita razão tinha o seu pai, cara Helena. Eu só me posso arrepender de não ter aproveitado o facto de ser fluente no francês para o ensinar aos meus filhos. Já dominar cinco idiomas não é para todos. 🙂
Trés bien, Louise… Escreves sempre muito bem. E claro que não te ias pôr a ensinar francês aos teus filhos se não estavas num país francófono…
Bisous…
Gostei, o texto tem a qualidade a que nos habituou.
Bom, sobre emigrantes e praia há um anedotário sem fim. Lembro-me de uma senhora que, assustada com a intrepidez do rebento nas salsas ondas, lhe gritava com abundância de mãos, Michel, Michel, viens ici! Não vás lá tão pó fundo que t’ afogas.
Fan-tás-ti-co!
Parabéns à Luísa pelo texto e ao “Delito de Opinião” pela partilha. Por mim já era admirador/seguidor da Luísa, agora sou também do “Delito…”
VB
As línguas (e não só a portuguesa, como é voz corrente) são muito traiçoeiras… 🙂
Gostei-me muito deste texto e fez-me sorrir a história do bolo – gato 🙂
um beijinho
Muito engraçado, Luísa.
Fez-me rir e imaginar o tom da prima quando pediu à tia o bolo, que para esta seria o “gatô”.