Vão-se os dedos, ficarão alguns anéis
Para os mais optimistas, a «crise» já passou, para outros o pior ainda virá. Tanto faz porque ela aí está, forte e dura, e os factos não permitem que ninguém consiga escondê-la.
Se, aparentemente, os gregos não venderão nem Corfu nem a Acrópole para acalmarem as empresas de rating, já Berlusconi não pestaneja e está disposto a encaixar uns belos milhões de euros por mais de nove mil «pedaços» de Itália, que serão colocados no mercado internacional. Não será (para já?) o Coliseu de Roma ou a catedral de Milão, mas muitos palácios, praias e ilhas inteiras. Ainda poderemos re-imaginar «A Morte em Veneza» na praia do Lido, mas, bem perto, na ilha de Sant’Angelo della Polvere, veremos em breve um pagode chinês e um templo budista ou um enorme palácio de um qualquer magnata do petróleo.
E quem instalará o quê no antigo palácio real de Palermo? Ou na Villa Giugla, do século XVI, em Roma?
É óbvio que estes territórios continuarão italianos e não serão anexados nem por Hu Jintao, nem pelo rei Abdullah, mas não deixa de fazer alguma impressão antever estas «dentadas» em heranças culturais europeias, porque aparecem um pouco como premonições de um qualquer fim à vista. Nós, europeus, não só encolhemos em número, como alienamos agora partes do nosso corpo e parecemos reduzidos à condição de contabilistas preocupados com deficits e contra-déficits, sem grandes rumos e com poucos horizontes.
Não que isso me incomode especialmente porque sei que sempre existiram declínios e fins das civilizações e nem sequer considero que se trate de uma desgraça para a humanidade – bem pelo contrário. Mas creio que é disso que se trata, a médio prazo, num continente que se considera ainda o centro do mundo e se recusa a reconhecer que já deixou de o ser.
Há algum tempo, aterrei em Frankfurt, vinda de Pequim, numa tarde chuvosa de um Sábado de Novembro. Na minha cabeça, estavam ainda as ruas cheias de multidões, os milhares de bicicletas e automóveis, o movimento que não parava durante vinte e quatro horas. Tive medo quando cheguei ao centro da cidade alemã: tudo era cinzento, chuviscava, não se via rigorosamente ninguém, até um gato preto fugiu alucinadamente quando encarou alguns seres humanos. A sensação que tive foi que a Europa tinha acabado durante as duas semanas em que eu estivera na Ásia e que ninguém me tinha avisado.
Pessimismo radical? Nem por sombras, apenas necessidade de perspectivar a realidade um pouco de longe. De perto, a vida continua, as férias estão à porta, os portugueses continuam a ir para Varadero, Cristiano Ronaldo é pai, uma equipa europeia vai ganhar o Mundial e o engenheiro Sócrates diz-nos que o futuro será risonho daqui a meia dúzia de dias!



Agradeço muito sinceramente este convite. É um prazer «entrar» pela porta de uma casa em que espreito diariamente pela janela – sempre com muito prazer e cada vez mais apreço.
Abraços para todos.
A Joana brinda-nos com uma bela prosa, como se esperava. Boa escolha, esta nossa convidada, compadre.
Obrigada, João. Leio-o também sempre com muito interesse.
Foi um prazer recebê-la aqui, Joana. Espero que, para além de todos os paroquialismos, estes intercâmbios possam continuar na blogosfera – nossa casa comum.
Claro que nos encontraremos, Pedro, sem qualquer espécie de dúvida.
Joana,
os célebres castelos do Reno há dezenas de anos que são todos propriedade privada. Cada um deles pertence a uma família que o comprou. Transacionam-se no mercado e são, de facto, bastante baratos – o que custa não é adquiri-los, o que custa é pagar a sua manutenção, pois o Estado alemão impõe aos proprietários privados onerosíssimas condições de manutenção.
Mas ninguém pode visitá-los por dentro, pois são propriedades privadas.
Durante muito tempo, importantes monumentos nacionais, por exemplo o mosteiro de Tibães, foram também propriedade privada – com a diferença de que o Estado português não impunha aos proprietários privados a sua manutenção.
Portanto, nada disto é novo nem, de facto, se vir bem, muito chocante.
E as Berlengas? Que tal as Berlengas?
Nem as Berlengas, Farilhões ou Estelas e já agora poupem-me Burano e Torcello, lá quase na “laguna morta”.
Não estou a brincar ou querem que vá buscar o alcatrão e as penas ??
Mas as Berlengas não dariam algum?
E a ilha do Pessegueiro?
Essa não foi comprada por um vizir de Odemira?
Não, não, esse foi apenas o que plantou o pessegueiro.
Mas, dizem, que por amor se matou novo…
Pudera. Um vizir imigrante acabaria por se matar…
A ilha do Pessegueiro? nem a brincar se lembre disso, Pedro….
:))
Pronto, pronto… E que tal as Desertas?
A ilha do Lombo não, por favor. Dá muito jeito para uma evasão e ninguém jamais se lembraria de procurar lá o criminoso.
Sempre resta a hipótese do Bugio…
Luís,
O que é novo, julgo, é que uma crise precipite um governo a colocar no mercado internacional mais de 9.000 «peças», incluindo ilhas inteiras onde será permitido construir (e não manter monumentos, o que, como bem diz, é prática corrente).
Chocante? Não necessariamente. Sintomático, sim.
Tive muito gosto também em vê-la por cá, Joana. Excelente reflexão.
Obrigada, Teresa… 🙂
Tem piada, tive a mesmíssima reacção quando no ano passado cheguei do Oriente e fiz uma escala em Paris: a acompanhar a sensação confortável de chegada a casa, a percepção de uma europa estagnada, triste e quase deserta. Impressionou-me, sobretudo, que isso me causasse estranheza.
Gostei de lê-la, Joana.
Ana,
Este caso Pequim-Frankfurt foi um extremo e por isso o referi. Mas tenho ido muito para Oriente nos últimos anos e a sensação, no regresso, é sempre semelhante: o futuro não passa por aqui…
Muito bom, gostei de ler Joana Lopes.
É fascinante, ao mesmo tempo, olhar esta Europa e esta crise de fora, com olhos de globe trotter , ou de geo estratega, ou simplesmente de observador macro-compulsivo … (Retiro do lote os políticos, que são cínicos mas na verdade não têm distância). E foi preciso esta depressão/recessão – riscar o que não lhe interessa – para precipitar essa consciência, que emergia há tanto tempo dos textos da especialidade, mas mais parecia coisa de académicos do que realidade. Agora é a doer, temos de acreditar mesmo…
Bem precisávamos de um continente coeso, mas não è a UE que vai construir esse milagre. A Europa é um somatório de aristocratas individualistas sem dinheiro para fazer obras …
Muito obrigada, Chloé. Eu olho como turista compulsiva e, de certo modo, já tinha esta visão, embora mais atenuada, antes do pico da «crise»: a chegada a Frankfurt, que descrevo, foi há cinco anos.
Excelente reflexão, gostei muito de a ler.
Muito obrigada, ariel. 🙂
Um prazer, Joana, lê-la por aqui. Fiquei a pensar nessa sensação de escassez humana que refere(m) no regresso à nossa Europa; não sei se é descabido, mas parece-me próximo do que experimento sempre que vou e volto a certas zonas do interior (centro e sul, sobretudo) de Portugal. Seja como for, daqui a um mês, lá pelas bandas do sol nascente, vou poder perceber melhor do que falam quando falam de multidões 🙂
Olá, Ana Cláudia, para mim, a única pessoa desta casa com «rosto» não apenas cibernético…
Pode ser que a comparação com o regresso ao interior tenha alguma parecença, mas julgo que só até certo ponto. O ABISMO entre o Oriente e a Europa passa-se num outro patamar.
Abraço