Cada vez mais ignorantes e ignorados
Fala-se muito de instabilidade – política, social, ideológica, ética, relacional e de todas as que sabemos existirem – e é, de certo modo, fácil tipificar as razões que, em linguagem ocidental e cristã, designamos por culpa. Mas será que existem razões e culpa(s)?
É que aculturados e civilizados como estamos e nos consideramos, rodeados por todos os objectos de desejo que consumimos (pessoas, coisas, criações, o que se quiser), esquecemos algures a nossa natureza primordial – somos nada mais do que apenas animais -, procurando insanamente o próprio bem, recusando o arquétipo original do bem comum, a noção de homem gregário, do homem anterior à polis, o homem em natureza.
Assim, a dinâmica da violência, do conflito, da instabilidade não só tem recrudescido mas tem encontrado a sofisticação de meios de aniquilamento. Do nosso aniquilamento. Cada vez mais isolados apesar de mais próximos, cada dia mais invisíveis apesar de todas as visibilidades possíveis, cada vez mais ignorantes e ignorados apesar de toda a velocidade de conhecimento.
Como, então, ultrapassar esta situação? Como ter o contrário do que temos? Bastará inverter as situações para alcançarmos a estabilidade, a segurança, a paz? O que estamos dispostos a fazer para terminar com as queixas e as crises? Não será a Humanidade capaz de se tornar adulta e ultrapassar esta sua adolescência de há muito serôdia?
Não vai sendo tempo para que a estabilidade, a paz e a segurança não mais se subordinem às agendas eleitorais das elites políticas mas que sejam um modus vivendi, uma praxis universalizada, horizontal e transversal a todos os seres humanos?
Que sentido, então, para a ausência de estabilidade? Que sentido, então, para a instabilidade?
Conflitos sociais, assimetrias salariais, confrontos de rua, manifestações e altercações ideológicas ou demagógicas, atentados terroristas, insegurança laboral, insuficiência policial, criminalidade quotidiana, crime organizado, escaramuças religiosas, desordens étnicas, contendas territoriais e tantas outras fontes de conflitualidade com impacto menor que uma guerra mas, por vezes, com danos colaterais maiores, levantam, necessariamente, a questão da instabilidade, uma vez que são situações quotidianas em países que já não conhecem a guerra.
É que a estabilidade e a segurança a que todos aspiramos tem que ser um acto em que o Homem assume a sua condição humana de sempre ambicionar mais, mas que porém não o impedirá de partilhar os bens comuns, não por caridade ou solidariedade, apenas porque é para si condição sine qua non que o homem tenha nascido igual e com os mesmos direitos, seja ele londrino, parisiense, nova-iorquino, japonês, árabe ou bosquímane. Sem conotação política alguma.
Para atingirmos este estádio? Apenas seria necessário reeducarmo-nos. E esta seria a grande revolução do século XXI, porque as mentalidades não mudam por decretos, apelos, panfletos, resoluções de um qualquer conselho de segurança, mesmo que detenha um grande poder. Mudam educando-se, conhecendo, sabendo.
Mas estará o Homem, mesmo o mais comum dos homens, preparado para se reeducar, para aprender com a História o que de errado tem permitido que lhe aconteça?
É a Historia que nos diz que a única razão para a instabilidade é culpa de todos nós, por aceitarmos o que condenamos, por nos conformarmos com o que criticamos e por nos acomodarmos ao que nos condena.
Precisamos mesmo de conhecer e de saber para mudarmos e mudar o nosso destino conjunto. Porque só assim alcançaremos a estabilidade e estaremos próximos da paz possível ao Homem.


Destruir o Humano portanto.
Precisa, com certeza, de voltar a ler o texto… Ler é também um acto de aprendizagem.
EXCELENTE!
ASSISTIMOS a um advento…um novo ciclo histórico.
Seria bom estarmos já no advento, porque pressupunha a mudança. Não me parece que seja o caso. Ainda 🙁
Belo texto, é realmente a reeducação o grande desafio…resta, a humildade, para assumir, que, estamos sempre a aprender.
Queiramos ou não, a aprendizagem e a avaliação ao longo da vida não devem ser consideradas um drama mas um (auto-) desafio, positivo e enriquecedor.
Gostei muito do teu texto, Fátima. Obrigado por esta visita que fizeste ao DELITO.
Obrigada eu, Pedro, pelo teu amável convite. Gostei muito (muito, muito).
🙂
Bjinhos