Conversas em família (4)


Maria Dulce Fernandes,

20200822_114145.jpg

 

Altura estava excelente. A praia, o sol, o bulício qb de veraneantes, os restaurantes a meia-haste pela falta da clientela que não pode ou não quer arriscar as ameaças da pandemia…

Foram duas semanas de grande diversão, mas o regresso era inevitável e na viagem de volta a casa as saudades em suspenso ressurgiram e juntamente com elas a perspectiva da diversão continuada dos últimos dias.

Estávamos todos ansiosos e sequiosos dos abraços e dos carinhos que não têm vírus que os refreie.

E lá foram eles atrás dos gatos esquivos e medrosos, mais dados a mariquices de velhos do que a afagos de crianças. A Sally, talvez para mostrar o novo look pós-tosquia de Verão, foi-se chegando e dignou-se ronronar e permitir umas festinhas, o que deixou a neta feliz e encorajada para a brincadeira. Foi uma tarde divertida aquela.

Avó, achas que posse levar a Sally emprestada, só por uns dias, comigo para a minha casa? Não acho boa ideia, neta, os gatos são muito territoriais e estes não estão habituados a outras casas. Não iriam sentir-se felizes na tua casa. Iriam sentir a falta dos seus espaços, percebes? Não. Lá na minha casa também tem espaços. É verdade que tem, mas o Dean e a Sally, como muitos outros gatos, cresceram num espaço específico, que é esta casa e que eles consideram ser o seu território, ou seja o seu lugar pessoal. Sabes o que é o olfacto? É o cheiro? Isso. Os animais reconhecem-se pelo cheiro. É por isso que eles andam sempre a cheirar os rabos, avó? (sorriso maroto) É sim. E também reconhecem pelo cheiro os seus lugares favoritos, camas, casa de banho, bebedouro, comedouro… As cadeiras, as costas dos sofá, as pernas do avô (sorriso rasgado). Isso mesmo. Ora tu não tens nada disto lá em casa, por isso eles iriam sentir-se meio perdidos, tristes e com medo, percebes? Como tu, nos primeiros dias de férias quando à noite as sombras, diferentes das do teu quarto, te pareciam vampiros atrás da porta. Ah, mas isso foi no ano passado quando eu era pequenina. Pois sim (sorri) mas sabes que podes vir para cá sempre que quiseres e a gataria estará por aí para ires brincando com eles, não sabes? Sei. Sabes avó, acho que eu também sou capaz de conhecer o teu cheiro! Isso é porque tu és uma gatinha tola.

10 comentários em “Conversas em família (4)”

  1. Ai que cousas mai lindas: a Sally, a netinha e a avó babada (que não se vê mas, como bem sabemos, só uma pessoa linda escreve assim)
    Obrigada, Dulce, por escrever assim.
    Beijinho e bom fds.
    🐈
    Maria

  2. Enternecedor ( também “fui promovido” a avô…).
    Toda a felicidade do Mundo para a pequerrucha e Família.

    JSP

    1. Ser avó é uma benção, JSP. Eu adoro as conversas ” sérias” com a minha neta mais velha, de quem enalteço a qualidade do discurso para uma miúda e 5 anos. Quando se senta ao meu lado e começa ” sabes, Vó” , já sei que a conversa promete.
      Bom fim de semana.

  3. Concordo em absoluto, minha cara.
    Curioso : a frase introdutória para a conversa é exactamente a mesma , “Sabes , avô”, ou então ” Vou dizer uma coisa”.
    Pelas linhas acima expostas, já se vê que uma das consequências de se ser avô é a perda total do sentido do ridículo – e/ou estar-se nas tintas para o mesmo…
    Cpmts.

    JSP

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *