Conversas em família (1)


Maria Dulce Fernandes,

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Primeiro veio a desilusão. A ideia acalentada da piscina na cozinha não era de todo exequível e fora substituída por dois borrifadores meios de água. Acatou e adaptou-se, com aquele dom tão cândido que os pequenos possuem, para lidar com as questões existenciais. Borrifo, portanto existo, é quase tão bom como chapinho, portanto existo, e ainda posso dar uma abada na avó.

E foi assim que começaram as hostilidades ao som do jingle do Intermarché. Entre risos, borrifos e escorregadelas passámos vinte minutos deliciosos e acabámos que nem uns pintos, cansadas mas satisfeitas. Roupa enxuta, waffles com agave e uma caneca de leite, bem enroscada e com um sorriso de orelha a orelha, pediu-me para ir buscar a lata velha e lhe contar as histórias dos retratos, principalmente aqueles em que eu estou em bebé ou criança novinha. Calculo-lhe o espanto e a confusão e sorrio, tentando explicar cada foto o mais descomplicado possível, de modo que lhe seja possível entender a evolução que resultou na pessoa  que ela conhece desde sempre, mas não se produziu do éter na forma em que hoje se apresenta. A avó, como todas as pessoas que conheces, já foi bebé. Mais pequenas do que o mano? Muitas delas sim! Ri-se divertida à ideia de eu, o avô, a mãe e o pai termos usado fraldas. Antigamente eram de pano. De pano!? Sim, fechavam-se à altura da barriga com alfinetes de ama e usavam-se com uma cuequinha de plástico por cima para conter os molhados. E depois, jogavam-se fora, os panos? Não! Sabes o que quer dizer descartável? É que se pode deitar fora? É isso mesmo. Mas antigamente não havia descartáveis. As garrafas devolviam-se, as latas lavavam-se e davam-se ao funileiro. Não havia sacos de plástico, por exemplo, a avó velhinha ia às compras com uma alcofa. De bebé? Não neta, de palha. Era a alcofa de ir à praça.

Tínhamos frigorífico, fogão, esquentador, televisão, telefone e aquecedores a gás. E mais nada.
Nada de máquinas de lavar, secar, microondas, computadores, tablets, telefones… sei lá.

Olha as fraldas, por exemplo, eram lavadas num tanque com sabão azul e branco ou sabão Clarim, que é meio amarelado. O que é um tanque? É para peixes? Também há tanques para peixes, mas estes eram tanques da roupa. Todas as casas tinham um tanque de cimento para lavar à mão, isto muito antes das máquinas de lavar. Enchia-se com água, punha-se lá a roupa, ensaboava-se e esfregava-se na “tábua” que neste caso era de pedra. E porque é que nas casas já não há tanques? Porque deixaram de ser funcionais e eram muito grandes e pesados.

Sabes, avó, tenho pena que já não tenhas um tanque em casa. Punha-se na cozinha, enchia-se com água e fazíamos uma mini-piscina. Havia de ser muito giro, havia.

 

Imagem do Google

20 comentários em “Conversas em família (1)”

    1. Tenho uma vaga ideia do programa, mas só nos últimos anos, e essa ideia é de que era uma seca. As crianças não sabiam o que era política. Lá em casa, sabíamos que havia “os terroristas” , nome genérico para todos os que eram do contra, principalmente os “turras” da guerra colonial, bicho papão a quem felizmente a minha família não alimentou o mito, e havia “a maralha” , como o meu pai apelidava os governantes. De resto, exceptuando filmes, séries, a noite de teatro, o cartaz TV, os festivais da canção, etc. e desenhos animados, claro, até 74 a restante programação na TV era mesmo uma maçada.

  1. Havia de ser muito giro, havia.
    Então não havia…
    Como é que não nos lembrámos disso lá em casa?
    Uma delícia, Dulce.

    Tenha um querido mês de Agosto!
    Beijinho.
    🌻
    Maria

  2. Pelos vistos sou um bocado mais velho do que a Maria Dulce, pois em minha casa não havia frigorífico, nem esquentador, nem televisão, nem telefone e aquecedores a gás, apenas tínhamos um fogão a lenha.
    Isto, só para lhe dizer que gostei muito deste seu post. Parabéns!

    1. O meu marido que é de Vila Verde, também não teve aquilo a que podemos chamar “as comodidades da cidade” (e garanto-lhe que a sopa da minha sogra, em panela de ferro na lareira da cozinha, era a melhor do mundo e arredores). Não foi por isso que ele não se empenhou em ser uma óptima pessoa, um excelente marido, pai, avô e profissional.
      Obrigada Carlos. BFS

      1. Nisso também não me ganha: a minha sogra cozinhava a lenha e na lareira, em panelas de três pernas ou sobre a trempe, e fazia um arroz de frango de que fiquei fã, arroz que, cá em casa e ainda hoje, procuramos imitar, para meu regalo, eu que em solteiro não gostava de arroz de frango…

  3. Excelente lembrança.

    Lá em casa o primeiro frigorífico foi um Frigidaire e essa marca durante anos foi o nome genérico dos frigoríficos. Durou anos e anos!
    Nas férias na Quinta não existia frigorífico (o primeiro foi um a gás pois também não havia electricidade) e a manteiga, elemento essencial pois só tínhamos pão fresco dois dias por semana e as torradas dominavam pequenos almoços e lanches, era colocada num pequeno alguidar com água tirada do poço (era mesmo fria) renovada todas as manhãs.

    Quando casei o dinheiro não era muito e o meu primeiro frigorífico foi comprado a prestações numa cooperativa. Era um Gorenje fabricado na então Jugoslávia e, com um motor substituído aos 20 anos ainda durou mais outros 10.

    Mudando de assunto, quando uma vez disse aos meus filhos que na idade deles não existia shampoo e lavávamos a cabeça com sabão azul e branco a reacção foi de perfeita incredulidade. Decidi explorar a reacção e contei-lhes que a minha irmã mais velha usava-me como cobaia e às vezes lavava-me a cabeça com cerveja e com ovo. Nada responderam, obviamente por respeito mas percebi perfeitamente que não acreditaram e só anos depois tiveram coragem de perguntar à tia se era verdade..

    1. A primeira casa dos meus pais não tinha banheira na casa de banho nem água quente, apenas uma espécie de duche numa parede, que molhava o espaço todo, mas era moda, acho eu, ter uma selha ovalada que servia de banheira e que após as utilizações se pendurava na parede. A água era aquecida no fogão, numa cafeteira azul de esmalte de uns bons dez litros e o sabãozinho azul e branco desencascava tudo.
      Morámos quatro anos naquela casa, até nascer o meu irmão do meio. Era pequenina mas a minha mãe tinha-a tão mimosa que parecia uma casinha de bonecas.

  4. Estas leituras fizeram-me lembrar várias histórias mas só conto uma. A minha família veio de uma aldeia para uma cidade, era eu criança, na década de quarenta. Uma vez foi lá a casa fazer uns serviços domésticos uma rapariga que tinha servido como criada (era o termo da época) numa casa de gente fina (o patrão era médico o que para nós era muito elevado). E contou que nessa casa compravam um papel especial para limpar o traseiro quando faziam as necessidades. Ninguém na minha família acreditou apesar da história ter sido repetida vezes sem conta. Nós (e muitas gente) utilizávamos para o efeito papel de jornal e, na aldeia, carolo das espigas de milho quando não havia jornal.

    1. Era normalíssimo o uso de papel de jornal M. L. Na terra do meu marido as casas de pedra da aldeia tinham uma varanda grande a todo o comprimento por cima da adega, do fumeiro e do estábulo. Ao fundo da varanda ficava uma divisão com uma porta de madeira. Lá dentro um banco corrido com dois buracos redondos que davam directamente para o monte de estrume no estábulo em baixo. Na parede de cada lado estava pregado um prego onde se espetavam pedaços de folhas de jornal. O papel higiénico, tão comum nas grandes cidades, era guardado apenas para as visitas.

      1. Sim, conheci o que descreve. Mas aquilo a que acho mais piada (agora recordado à distância de muitos anos) foi a nossa incredulidade: ninguém queria acreditar que se gastasse dinheiro para comprar papel especial (e que raio de papel
        seria?) para aquele fim. Todos pensávamos que só seria possível entre gente muito fina (e cheia de massa).

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