Conversa unilateral com Deus acerca de vários vultos da República ou os cães ladram e a caravana passa


escafandro,

Boa noite, Senhor. Viste (claro que sim) como o professor Boaventura Sousa Santos disse lamentar a saída de Cândida Almeida, «uma procuradora de alta qualidade», do lugar de directora do DCIAP? Podes informar-me, Senhor, se por «alta qualidade» ele queria dizer ter sido capaz de boicotar os (ou, no mínimo – não quero ser injusto, Senhor –, alguns dos) inquéritos sob a sua responsabilidade enquanto dava entrevistas sobre os riscos insidiosos da corrupção? Não respondes? OK, não faz mal. Digo-te que compreendo bem o lamento do professor. Les bons esprits se rencontrent (é tão bom que sejas poliglota, Senhor), defendem-se uns aos outros e preferem botar discurso a apresentar resultados palpáveis. Pois eu, que não sou vingativo (Tu sabe-lo, Senhor), só lamento que a doutora Cândida não esteja também a lamentar a saída do professor Boaventura do lugar de presidente do Observatório da Justiça. Ou melhor: a lamentar a extinção do Observatório da Justiça.

 

Entretanto, Senhor, Cavaco Silva condecorou o ex-Procurador Geral da República Pinto Monteiro e o ex-Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César – e o ex-Presidente do Tribunal Constitucional, Rui Moura Ramos, mas no caso deste eu acho justo, Senhor: os juízes do Tribunal Constitucional encontram-se acima de qualquer crítica e merecem todas as distinções, sejam elas medalhinhas para pendurar na lapela, diplomas para pendurar na parede ou pensões de reforma para depositar na conta bancária, uma vez que, por definição – como Tu, Senhor –, nunca erram. Agora os outros dois, Senhor… Não foi Pinto Monteiro uma nódoa (estou a tentar seguir os Teus conselhos, evitando escrever palavrões) como procurador? Não pode Carlos César ser considerado um bom líder regional apenas por comparação com o vizinho ligeiramente mais barrigudo e significativamente mais espalhafatoso do outro arquipélago português no Atlântico? É a história de Vítor Constâncio, de Durão Barroso e de tantos outros mais uma vez, Senhor. Façam as merdas (ooops, perdão, Senhor) que fizerem, acabam sempre como grandes homens (ocasionalmente, grandes mulheres), que, «pela sua entrega à causa pública e ao serviço de Portugal, quantas vezes com prejuízo da sua vida pessoal», são cobertos de elogios e prebendas. Honestamente, Senhor, melhores serviços ao país e, por conseguinte, mais digno de ver Cavaco apoiar um joelho nos ladrilhos do Palácio de Belém e colocar-lhe uma fita na coleira, vem prestando o meu cão. E – uau, Tu sabes mesmo tudo, Senhor – eu nem sequer tenho cão.

 

(Daí ladrar eu. Mas ando a pensar desistir, Senhor, que é inútil e dá-me cabo da garganta.)

6 comentários em “Conversa unilateral com Deus acerca de vários vultos da República ou os cães ladram e a caravana passa”

    1. É castigo: Cavaco vê-o como o protegido que deixou de lhe escutar as recomendações e apenas – pensa Cavaco – lhe escutava as conversas telefónicas. Mas fica para a presidência de Marcelo, Durão ou Costa.

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