Conversa portuguesa, com certeza


Pedro Correia,

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– Como vai?

– Assim-assim.

– E a família?

– Mais ou menos.

– E lá no emprego?

– Uns dias melhor, noutros dias pior.

– Deixe andar, que as coisas melhoram.

– Talvez sim, talvez não. E você e os seus?

– Cá vamos andando, como Deus manda.

– Vou pôr-me a caminho. Desejo-lhe muita saúde, que é o que é preciso…

– Até um dia destes. Gostei de conversar consigo.

70 comentários em “Conversa portuguesa, com certeza”

  1. Dizem que os ingleses falam do tempo quando se encontram. Se prestar atenção, os portugueses _ quando não têm assunto_ acabam, invariavelmente, a falar de doenças, da deles e da dos outros. Chegam a detalhar a prescrição dos medicamentos, a sua toma, etc. Mas o mais delicioso é observar o ar compungido do interlocutor enquanto ouve os queixumes do outro.

    1. Se for conversa de fulanos, o tema é bola. Se for conversa de fulanas, o tema é a família – ou, se forem chavalas, os namorados.
      Se for conversa de velhas, o tema são doenças.
      Se for conversa de velhos, não chega a ser conversa: só saem monossílabos.
      Se for conversa de quase-estranhos, fala-se da chuva e do bom tempo.

      1. “Se for conversa de fulanos, o tema é bola.(…) Se for conversa de velhas, o tema são doenças.”

        Calma aí… eu e os fulanos já falamos das maleitas. Muitas relacionadas com bola, verdade. Ainda não sou velho, menos uns anitos ainda me podia candidatar a jovem agricultor.

          1. “O chinês diria “comme si comme ça”” Engana-se. Ouvi muito chinês em Macau dizer “assim, assim”

      1. então o “comme si comme ça” não é francês? Ora bolas, pensava que sim e que outros povos andassem como nós, mais ou menos:). A seguir conta-se o menos e, entretanto, o mais esquece.

  2. Isto é uma escuta? É uma conversa em código? É o quê?
    Não é uma conversa recente, não é passado no norte nem é passado no sul.
    É uma conversa de circunstância passada num elevador, estarei enganado?

      1. Pois, mas não percebeu. As palavras nem sempre traduzem aquilo que se quer dizer, e esse diálogo está cheio de conotações.

        1. Sim, é sempre possível descortinar subtextos ocultos na linguagem literal.
          Uma espécie de língua codificada. Talvez resquícios de outros tempos.
          Como o outro que falava em fotocópias quando queria dinheiro vivo.

          1. Pronto, lá tinha de vir o outro à conversa.
            Estou a falar em conversa de circunstância.
            Nós numa conversa de circunstância dizemos o que queremos dizer ou dizemos o que o outro quer ouvir?
            Expressamos sentimentos ou espelhamos empatia?

          2. Em conversas de circunstância as palavras perdem o seu significado.
            Na história do cego e do coxo, quando o cego pergunta:
            – Então pá, como vais andando?
            – Olha, é como vês.
            Nas conversas de circunstância o conteúdo do diálogo é praticamente inútil. Num encontro entre duas pessoas o que é mais relevante é a linguagem não-verbal.
            O exemplo que deu nunca podia ser uma conversa telefónica, porque se o fosse tinha de ser em código.

          3. Faz parte do ritual de aproximação ou você pensa que é diferente dos outros animais?
            Os cães, por exemplo, cheiram-se.
            Você com essa conversa da treta mais não faz do que avaliar o seu interlocutor, não pelo conteúdo verbal mas pelo conteúdo não-verbal.

          4. Pode ser, mas para mim é mais um conflito entre o ego e o super ego, do próprio e do interlocutor.

  3. Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas.

    Devia ser conhecidos de ocasião, houvesse mais proximidade falariam mal do Governo, do Passos, e do pessoal lá do trabalho.

  4. É preciso arte para conversar sem dizer nada.
    Antes este diálogo ao das doenças. Sobre a choraminguice das maleitas, tão portuguesa, há uma piada antiga que diz qualquer assim: nunca perguntes a um português como está, ele responde-te.

      1. Também gosto do… “então não sabias que o Zé agora anda muito amigo da Catarina. Se o marido dela sabe tu vais ver, ainda por cima ela agora desde que usa aquelas botas tem a mania que é alguém. Vais ver, um dia destes ainda vai correr mal. Já nem falo da Maria que agora vai de férias para o México, deve andar a nadar em dinheiro. O Luís é que está bem, trabalha tem o seu ordenadozinho e leva a vidita dele, já o Vasco anda sempre a mudar para aqui e para acolá, não toma juízo, em vez de pensar num emprego para a vida toda anda sempre nisto.”

          1. Eu quando é assim alimento… Ai é? Não me diga… Conte…
            Em contexto profissional corto imediatamente, o gossip deixa-me doido, mas olhe que é uma postura que nem sempre lhe granjeia amigos.

          2. Alimentar estas coisas só no gozo mesmo. Coscuvilhice em contexto profissional nunca. Por isso, digo que devíamos todos saber desconversar para sobreviver aos momentos de maledicência a que não podemos fugir por não sermos ilhas – se bem que já li nas secções lifestyle (isto já diz tudo) que há estudos (não podia falhar) que dizem que a intriga contribuiu decisivamente para a evolução da inteligência humana.

          3. Aqueles estudos de uma universidade americana mas que ninguém nomeia? Ui… No entanto, tendo em conta, que manifestações de inteligência nos dias de hoje podem ser lesivas para quem as ostenta, já nada digo.

            Outra… E pegando na deixa do Pedro…

            ” Até um dia destes. Gostei de conversar consigo.
            (e surge o balão de pensamento em duas cabeças)
            Deus nosso senhor me perdoe, mas está cada vez mais estúpida…
            Não sei como é que esta gaja consegue estar tão magra, deve tirar da boca para o luxo”.

          4. Não resisto a mais dois…

            “Os gajos queriam conversa, mas eu disse-lhes uma que nem tiveram hipótese, ficaram mansinhos que nem cordeirinhos, porque os gajos comigo não brincam”…

            O português sai sempre por cima… Nunca encontramos o “gajo” que diz: “epá o gajo disse-me uma que eu fiquei manso que nem um cordeirinho”.

            Temos também…

            “virei-me para o meu chefe e disse: você deve estar a brincar! Nem pensar, olha eu. Não é que o gajo se acalmou e disse, pronto Mendes, vá lá tranquilo”.

            Yeah right…

          5. Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
            Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

            E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
            Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
            Indesculpavelmente sujo,
            […]

            Poema Em Linha Recta, de Álvaro de Campos

  5. É de mau tom escutar as conversa dos outros e depois ilicitamente vir divulgar o seu conteúdo e ainda fazer chacota das mesmas. Que falta de MORAL!!

    Anabela Ribeiro

      1. Ultraproct (pivalato de fluocortolona, caproato de fluocortolona, undecilato de clemizol e cloridrato de cinchocaína): dizem que é excelente para curar hemorroidas.

  6. O meu amigo António Cabral, leitor e comentador assíduo deste blog, quando nos encontramos ( quase todos os dias) e eu lhe pergunto:
    “Então tudo bem?”
    Ele responde sempre:
    “Tirando o que está mal….”

  7. Não será melhor separar uma conversa de circunstância que faz parte de um ritual de aproximação, de uma outra conversa, essa sim trivial e que contém frases típicas de determinados povos?

      1. Nada contra, antes pelo contrário, as conversas de circunstância são boas para definir a hierarquia social.

  8. 14:21. Ocorre neste momento uma conversa portuguesa: a ministra da justiça explica ao país o pacote anti-corrupção aprovado pelo governo. As grandes e médias empresas devem instalar mecanismos anti-corrupção e vai ser criada uma ASAE específica (brigada independente)para fiscalizar o seu cumprimento. Uma conversa portuguesa! Com certeza.

    1. Será também criada uma entidade de acompanhamento para a implementação desta estratégia. Esta entidade será independente e terá um presidente, um vice-presidente e três comissões, especificou a governante.

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