Contra todas as cegueiras


Pedro Correia,

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É curioso analisarmos, por vezes, como resulta a transposição de grandes romances em língua portuguesa para outros idiomas. Aconteceu-me faz hoje oito dias, em Londres. Com o Ensaio Sobre a Cegueira, porventura o melhor livro de José Saramago – que originou um filme premiado. Intitula-se Blindness, em inglês.

Espreito o parágrafo de abertura:

«The amber light came on. Two of the cars ahead accelerated before the red light appeared. At the pedestrian crossing the sign of a green man lit up. The people who were waiting began to cross the road, stepping on the white stripes painted on the black surface of the asphalt, there is nothing less like a zebra, however, that is what it is called. The motorists kept an impatient foot on the clutch, leaving their cars at the ready, advancing, retreating like nervous horses that can sense the whiplash about to be inflicted.»

Eis a força da boa literatura: capaz de suplantar barreiras linguísticas, geográficas, afectivas, culturais. Capaz de emocionar, inspirar, comover e fazer sonhar gente de todos os idiomas.

0 comentários em “Contra todas as cegueiras”

  1. Bem sei que o tradutor, apesar do nome italiano, é um académico britânico, mas não gostei deste texto em inglês. Motorists?
    Depois a boa literatura nem sempre é traduzível. Curioso para ler Torga em inglês. Ou Aquilino. Outro intraduzível é Joyce mas Jorge Vaz de Carvalho fez um milagre.

    1. Talvez Torga com um bom tradutor fique ele mesmo. Mas tenho dúvidas com a obra de Aquilino, a abundância de regionalismos dificulta. E a de Agustina também tem muita volta.

  2. Ensaio sobre a lucidez, o homem duplicado e o que dizer do romance as intermitências da morte? Confesso que fiz algo desaconselhado: li primeiro o ensaio sobre a lucidez, depois quando li o ensaio sobre a cegueira a sua leitura não foi impactante. Criei muita expectativa, muito contribuiu as várias críticas a colocar o livro no pedestal, porém acho-o interessante mas não extraordinário. Termino a dizer que li todos os romances do José Saramago, mesmo todos.

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