Contra o “racismo identitário”


Pedro Correia,

 

O mais obsceno, na fuga para o abismo protagonizada pelos separatistas espanhófobos que lançaram a Catalunha no caos, é a sua persistente tentativa de instrumentalizarem a língua – património de todos os catalães, sem discriminações – para efeitos de propaganda política. Falar catalão passou a equivaler a senha independentista, na óptica dos promotores da ruptura com o Estado espanhol, que sempre se comportaram como donos do idioma.

Acontece que as línguas não têm proprietários: são sempre elos de ligação, nunca muralhas que se levantam entre habitantes do mesmo território. O catalão é a língua materna de milhões de catalães que, sem abdicarem um milímetro da sua identidade cultural, se sentem irmanados aos restantes povos de Espanha e rejeitam em absoluto o aventureirismo irresponsável daqueles que fazem do ódio a Madrid a única bandeira do seu ideário político.

 

Ainda ontem isso ficou bem evidente, na  megamanifestação que congregou centenas de milhares de pessoas no centro de Barcelona em defesa da Constituição espanhola e do respeito pelas decisões do poder judicial. Intervieram vários oradores: todos se exprimiram em catalão. Deixando claro que têm tanto direito ao idioma como os separatistas e recusam ser tratados como cidadãos de segunda na própria terra que habitam só porque são partidários de uma Catalunha espanhola. Não são independentistas nem nacionalistas. E não têm que pedir desculpa a ninguém por isso.

“Somos mestiços de pura cepa”, declarou com orgulho o filósofo Félix Ovejero, um dos mais respeitados intelectuais catalães, resumindo nesta frase tão feliz o que é a essência da Catalunha, unida há cinco séculos às restantes parcelas de Espanha. Enquanto o ex-secretário-geral do Partido Comunista espanhol, Francisco Frutos, subiu ao palanque para se insurgir com vigor contra o “racismo identitário” e o “dogmatismo sectário” dos separatistas.

 

A Catalunha mais genuína é mesmo esta: a que se assume como “mestiça” e recusa o “racismo identitário”. A Catalunha cosmopolita, ponto de convergência de povos e culturas tão bem cantada por Joan Manuel Serrat nesta sua bela canção que é Mediterrâneo. Perseguido pelo franquismo só porque ousava cantar em catalão, Serrat é agora insultado nas tribunas secessionistas por se declarar opositor da independência. Os netos da burguesia catalã que enriqueceu durante a ditadura atrevem-se a chamar-lhe “traidor” e “nazi”.

Chegámos a esta encruzilhada na capital mediterrânica da Península Ibérica, cidade aberta que alguns sonham ver rodeada de muros: quem não for independentista não pode ser considerado catalão. Isto demonstra até que ponto o vírus do nacionalismo, que pegou fogo várias vezes à Europa, tem corroído a Catalunha. Felizmente vai ser derrotado na jornada eleitoral de 21 de Dezembro, estou certo disso.

33 comentários em “Contra o “racismo identitário””

  1. As últimas manifestações mostraram o que é a verdadeira Catalunha…

    E ao contrário do que muitos veiculam, inclusive em reportagens com portugueses a transmitirem que o ambiente está tenso, as coisas estão calmas, para já. Mais uma vez, o nosso tradicional medo e pessimismo, por vezes chego a pensar se lá fora não fazemos mais nada a não ser casa-trabalho e nos esquecemos de viver. Ainda ontem estive via Skype com amigos espanhóis (nascidos na Catalunha) e o discurso é totalmente diferente. A questão agora está nas eleições e em como os “independentistas” vão reagir com a ida ou não a eleições.

    A grande preocupação é essa e a questão económica, devido à saída de muitas empresas.

    Do que você se foi lembrar, do Manuel Serrat, que não sendo do meu tempo, ouvia-o em miúdo lá por casa.

    1. E o que me diz destas?
      ( após os sacanas dos Populares terem boicotado o Novo Estatuto de 2006)

      Na Catalunha (mais de 1 milhão e meio):

      https://youtu.be/Oq3NYzFJka4

      https://youtu.be/KfvHiuQJH_o

      Os mesmos de hoje serão os do amanhecer. E os de amanhã, os de ontem…..o problema ficará. As ideias transmitem -se como os vírus

      E então quando isto chegar, não haverá vacina:

      http://uk.businessinsider.com/what-will-cause-the-next-financial-crisis-2017-9/#italys-unstable-political-and-economic-situation-1

      Vai ser rir até rebentar. Ou rebentar , rindo.

      1. Grato pelos videos… Estou focado no hoje e no povo catalão… Mais que em Rajoy. Mas são “updates” importantes, mas o centro da questão, mais que partidos, é o povo – povo que Puigdemont abandonou.

        Em relação a outra crise: será mundial e não tardará, até porque outros factores começam a ter peso e a influenciar de forma mais forte e acelerada a economia: a demografia, o consumo, as alterações climáticas e o nuclear entre tantas outras questões…

        Ou o Homem se faz Homem ou então o colapso não tardará, aliás, é como o terramoto em Lisboa, vai acontecer, só não sabemos quando.

        P.S: bom artigo o que partilhou.

  2. Excerto de um estudo publicado sobre as terras de Miranda e a fala Mirandesa.
    “Em 1999, com a lei nº 7/99, de 29 de Janeiro, o mirandês foi oficialmente reconhecido como língua regional de Portugal”.
    Honrados em aprender, falar e cantar no também seu português.

  3. “Quer que a Catalunha seja um Estado independente em forma de República?”

    É esta a pergunta que o Governo espanhol não aceita que seja feita ao povo da Catalunha que se faça no referendo.

    A rejeição e a anulação do estatuto de autonomia da Catalunha, aprovado pelo povo catalão e negociado com Madrid em 2006, foi um poderoso carburante para o sentimento nacionalista.

    Sobre o Estatuto aprovado entre o PSOE e os partidos catalães :

    Estatuto de Autonomía de Cataluña de 2006

    Incluye, entre otros aspectos, el sistema institucional en que se organizaba la Generalidad de Cataluña, las competencias que le correspondían y su tipología, derechos y deberes de los ciudadanos, el régimen lingüístico, las relaciones institucionales de la Generalidad y la financiación de la Generalidad. El poder legislativo lo encarnaba el Parlamento de Cataluña, mientras que el ejecutivo lo encarnaba el Gobierno de Cataluña.

    Qué quiere Cataluña?

    Nuestra propuesta no es soberanista ni rupturista sino plenamente constitucional e inspirada en la filosofía y los modelos federales. Se trata de un proyecto que pretende abordar el gran problema histórico de la relación entre Cataluña y España, y el de la plena aceptación de la unidad en la diversidad nacional, cultural y lingüística del Estado. […] Proponemos un salto adelante en el autogobierno, una reforma a fondo del pacto entre el Estado y la Generalitat, con unas reglas de juego más acorde con la realidad de un Estado plural. El gran reto es que España se reconozca a sí misma como una realidad plurinacional.

    En cuanto a los objetivos concretos del Estatuto decía que eran cinco:

    Clarificar y mejorar las competencias; incorporar un título de derechos y deberes y de principios rectores de las políticas públicas; avanzar en la definición y protección de elementos fundamentales de la identidad de Cataluña; garantizar la participación de la Generalitat en órganos decisivos del Estado y en la Unión Europea; y mejorar la financiación.

    Posteriormente ao acordo, sacado a ferros, o PP de Rajoy envia o novo estatuto para o Constitucional , que o declara ilegal ( 2010):

    Seguem-se eleições e manifestações (MANIF -10J) em defesa do Estatuto:

    Som una nació, nosaltres decidim” -Somos uma nação. Nós é que decidimos

    “Uma maré humana ( mais de um milhão de manifestantes ) em prol de mais independência catalã “:

    https://youtu.be/lBMxHQ8YoaY

    https://youtu.be/NIKQmPtYy1M

    La asistencia fue de un millón y medio según los organizadores y de un millón cien mil personas según la Guardia Urbana.

    Sobre a Nação, Identidade Cultural e Povo:

    As culturas nacionais produzem sentidos com os quais nos podemos “identificar”. Constroem , assim, as suas identidades nacionais. Esses sentidos estão contidos em histórias, memórias e imagens que servem de referências, de nexos para a constituição de uma identidade da nação.

    Constituição da República Portuguesa continua a dizer, no seu artigo 7º, que “Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência”

    O PP tem criado e mimado o problema catalão desde 2006. A sua posição não é a de diálogo. Mas sim a imposição de uma idéia de Espanha, anacrónica, que obrigatoriamente terá de mudar.

  4. É racismo identitário nós, portugueses, apreciamos o esforço, daqueles que nos visitam em falar o português?

    É racismo identitário os alemães falarem alemão e não inglês (na Prússia só a contragosto) na Alemanha, com os turistas ? E os franceses, em França?

    “Uma discoteca dinamarquesa (decisão da Buddy Holly, em Sønderborg, perto da fronteira com a Alemanha) informou que recusa a entrada a quem não fale inglês, dinamarquês ou alemão.”

    Não quero que um pacóvio holandês, interfira na política do meu país, que nunca cá pôs os pés, e ao mesmo tempo que nos diga sermos um povo beberrão. Quem se indigna é racista? E quem nos cola estereótipos, não?

    Recusar-me a falar outra língua que não o português, na minha terra , é manifestação de racismo identitário?

    – No hablo português

    – Compra um dicionário ou instala uma App!! Queres mear….azar.

    “Desfralda a invicta bandeira,
    À luz viva do teu céo!
    Brade a Europa à terra inteira:
    Portugal não pereceu!
    Beija o teu sólo jucundo
    O Oceano, a rugir de amor;
    E o teu braço vencedor
    Deu mundos novos ao mundo!”

    E há bem pouco tempo se falava contra o politicamente correcto!! Só visto!!

  5. É capaz de lhe saber a porco.
    “A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda.” Charles Bukowski

  6. O mais extraordinario é que pessoas que se afirmam democratas defendem uma constituição que foi aprovada logo após o pretenso fim do regime franquista, com as cedências trágicas por parte dos partidos que até esse momento estiveram na clandestinidade e muitos dos seus militantes morreram às mãos dos fascistas. Ficou aqui bem demonstrado nesta manifestação a favor do nacionalismo, mais serôdio, espanhol. Tristeza.

    Rui Mateus.

    1. O seu comentário é tão absurdo que, convertido para a realidade portuguesa, resulta nisto:
      “O mais extraordinario é que pessoas que se afirmam democratas defendem uma constituição que foi aprovada logo após o pretenso fim do regime salazarista, com as cedências trágicas por parte dos partidos que até esse momento estiveram na clandestinidade e muitos dos seus militantes morreram às mãos dos fascistas.”
      Soa a ridículo, não? Pois é.

      Quanto à megamanifestação de ontem: vêem um milhão de espanhóis na rua, em Barcelona, e vocês, aterrados, logo desatam a clamar contra o franquismo, esquecendo que o franquismo morreu em 1975 e foi enterrado em 1978 precisamente com a entrada em vigor desta Constituição.
      O vosso anti-franquismo, lamento concluir, chega com um atraso de 40 anos.

      1. E houve cedências trágicas. Uma delas era que todos os partidos se afirmassem pelo Socialismo. Quem não tinha essa palavrinha nos seus manifestos estava tramado. Honra seja feita ao CDS-PP.

        E a Constituição aprovada em 1976? Carregada de ideologismo esquerdista e socialista. Planificação da economia, nacionalização dos meios de produção etc…..

        Rajoy defendendo o referendo ( 2006)

        https://youtu.be/HeF7muni_hc

        Manif 10j a favor de maior autonomia catalã após o boicote constitucional do PP.( 2010)

        https://youtu.be/lBMxHQ8YoaY

    1. Discordo profundamente da sua leitura dos acontecimentos. Nomeadamente quando escreve que Mariano Rajoy é “um primeiro-ministro sem a mínima dimensão de estadista” que cometeu um “erro monumental”.

      Pelo contrário. Rajoy cortou o passo aos separatistas, mobilizou uma multidão sem precedentes a favor da unidade espanhola (até nas ruas de Barcelona), envolveu as principais forças políticas constitucionais (73% dos assentos nas Cortes madrilenas) na aplicação do artigo 155.º e mostrou ao mundo o que a suposta declaração unilateral de independência era desde o primeiro vagido: uma farsa.
      Se Rajoy não tem dimensão de estadista, o que dizer então de Puigdemont, que lança a Catalunha no caos e voa para Bruxelas a pedir socorro a um advogado amigo, da extrema-direita flamenga?
      Rebobine lá o filme e verá como acertou ao lado.

      1. Caro Pedro Correia
        Não sou o autor do texto sobre a Catalunha no blog/link assinalado no comentário.
        Quanto ao Sr. Rajoy, como PM, concordo com o autor do mencionado texto.

  7. Sou pela medicação grátis para todos os esquizofrénicos independentistas catalães (e seus apoiantes aquém fronteira) e pelo seu internamento compulsivo em boas bibliotecas com bons livros de História da Espanha.

      1. Olhe que a alguns faria o caro Vlad, com essas suas vampirices às avessas, um favor. É que o gosto por enemas, sejam eles com “Möet et Chandon”, com “Old Spice” ou com “Cava”, reparte-se certamente, nestes tempos de liberalismo de costumes, tanto pelos caricatos remanescentes neofranquistas como pela direita do PP ou como pelas esquerdas da ERC ou das CUP.
        Eu, não sendo espanhol (absolutista, libertário, tardo-carlista ou o que quer que seja), agradeço a oferta, mas educadamente a declino. E os enemas, meu caro Vlad, são para mim enigmas, porquanto os não posso classificar de “bons” (Vlad dixit) ou “maus”.

  8. La, la, la (catalan version)
    M’en recordo mare que em duies de la mà
    Tu eres jove encara i jo anava fent-me gran
    Teníem fred, però amb una cançó
    Feies la nit més clara i mes blava aquella tardor

    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…
    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…

    M’en recordo mare quant em feies cantar
    Trenca les fronteres, guaita lluny i endavant
    Res no ho esborrar, ni ho vull oblidar
    I per tu mare meva cada vespre em senten cantar

    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…
    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…

    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…
    La lalala lalala lalala…
    La lalala lalala la…

    Para os que lá lá lá se foram, a verdade é que k medo não superou a vontade. Só a vergonha ficou.

    1. https://youtu.be/hFV993YEFvU

      Els Segadors
      Catalunya, triomfant,
      tornarà a ser rica i plena!
      Endarrera aquesta gent
      tan ufana i tan superba!
      Tornada:
      Bon cop de falç!
      Bon cop de falç, defensors de la terra!
      Bon cop de falç!
      Ara és hora, segadors!
      Ara és hora d’estar alerta!
      Per quan vingui un altre juny
      esmolem ben bé les eines!
      Tornada
      Que tremoli l’enemic
      en veient la nostra ensenya:
      com fem caure espigues d’or,
      quan convé seguem cadenes!
      Tornada

      Sacrificar a vida , por um ideal, é espécie em risco de extinção. Mas para os intelectuais da pena e teclado talvez seja motivo de assombro, pela vergonha. Vergonha perante o contraste entre aquele que abdica de parte importante da sua vida e a coragem vazia de salão e do discurso balofo, esgotado.

      Detesto gente mesquinha que não é capaz de qualquer abnegação pessoal em nome de uma ideia. E perante aqueles que o conseguem fazer disfarçam, pelo riso e a piada cobarde, a vergonha que os aquece. A sua coragem não passa de um arroto .

      1. Sabe o que é acender o que antigamente se chamava bicha de rabiar, pôr toda a gente a tentar apanha- la e quando começa a cuspir agulhas de fogo, foge antes que se queime?
        A abnegação por uma causa, deu -nos exemplo Mandela. Não é só apregoá-la, é vivê-la. Aos heróis da Cataluña foi aberta uma porta. Após muito ponderarem (15 minutos tops), deram às de Vila Diogo, deixando para trás um sonho moribundo que plantaram em corações estraçalhados, e gente , aquela gente a quem prometeram e não cumprirem como os políticos da mais fina estirpe. São os piores estes, porque se intitulam adventistas da grande mudança.
        Deixe-se de demagogias Vlad. Aliás, pelo que li por aqui hoje, já deu no cravo e na ferradura nem sei quantas vezes em incontáveis comentários.
        Depois de amanhã é feriado. Espaireça e tenha um dia tranquilo.

        .

        1. O leitor Vlad só pode estar a aludir ao desertor Puigdemont, que se raspou para a Bélgica deixando o caldeirão ao lume, quando escreve que “sacrificar a vida, por um ideal, é espécie em risco de extinção”.

      2. “Gente mesquinha que não é capaz de qualquer abnegação pessoal em nome de uma ideia” assim como Artur Mas ou o turista Carles Puigdemont I, o do pé ligeiro?

    2. Só umas perguntinhaa, de carácter sociológico :

      Quando recebe visitas em casa vai-lhes mostrar os quartinhos e a sala onde dependura as serigrafias?

      E à entrada, um piano vertical?

      1. Aproveito para o informar que o Lalala venceu o Festival Eurovisão da Canção, interpretado à última hora pela Maciel, porque o Juan Manuel Serrat, vencedor em Espanha disse que só na cantava na Eurovisão em catalão e foi proíbido de o fazer e afastado pelo governo franquista. Foi uma canção que uniu a Espanha e nada têm a ver com aquela treta facciosista que publicou a seguir.

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