Contos de Natal


José Meireles Graça,

É o tempo dos bons sentimentos, que dispenso se tiverem época, das histórias inspiracionais, que aborreço, dos filmes puxa-saco mil vezes passados, que enjoo. Natal, em suma, do qual gosto tanto como das outras festas, isto é, pouco. A não ser pelas crianças, porque é a festa delas. Se soubesse, escrevia um conto para elas. Como não sei, escrevo dois para os pais. Pouco natalícios, os 

CONTOS DE NATAL

A porta abriu-se com estrondo e entrou Miguel, que a empurrara com o pé, derreado, carregando com dificuldade uma enorme caixa.

O jogo, brevemente interrompido, recomeçou. E nem três minutos depois a cena repetiu-se – nova caixa, igualmente pesada, aparentemente.

(Irra, que já não lembro quantas saíram de copas. Acho que falta o ás e uma dama, pelo menos).

Pás, lá vem o Miguel e nova caixa, igual.

ꟷ Porra, Miguel, de que são essas caixas?

ꟷ São de cartão, sr. Fulano.

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Tendo visto entrar o cliente antigo, de rotinas enraizadas e hábitos de consumo abundosos, Carlos apressou-se a explicar à nova empregada que, àquela hora, se tratava de preparar um gin da garrafa especial que estava em tal sítio, com a casca de limão e o sumo assim e assado, a rodela sem pevides. Percebes? Percebo, claro, sr. Carlos.

Sr. Fulano, esta é Carla, a nova empregada. Carla, o sr. Fulano é um cliente especial. Baixei a música porque ele não gosta da música alta. OK? OK, sr. Carlos, percebido.

Carla, muito nova, tinha o cabelo apanhado, a fazer um rabo de cavalo, que emoldurava um rosto bonito, olhos levemente orientais. Estatura meã, uns jeans justíssimos e uma blusa aos quadrados que vestiam uma obra bem acabada da mãe Natureza.

ꟷ Então o senhor não gosta da música alta?

ꟷ Na verdade não gosto de música, nem alta nem baixa, Carla. Sabes porquê? Antes que to diga, não levas a mal que te trate por tu?

ꟷ Claro que não me importo. E então?

ꟷ Então há certa música de que gosto, mas não é do tipo que se pode pôr num sítio destes. Tenho manias, sabes? Olha, uma delas é tratar as pessoas, se simpatizar com elas, por diminutivos. Por exemplo, levas a mal se te tratar por Cacá?

ꟷ Cacá? Sim senhor, mas também posso tratá-lo por um diminutivo?

ꟷ Sem dúvida. Para mim é uma novidade, mas nada a opor.

ꟷ Estava a pensar em senhor Gagá.

7 comentários em “Contos de Natal”

      1. Boa noite,

        Com certeza Cristina que irei esclarecer!
        Geralmente o autor escreve o conto num blogue (sem qualquer limite) e no início ou no fim do postal poderá colocar uma ligação para este desafio: https://imsilva.blogs.sapo.pt/os-nossos-contos-de-natal-2021-nova-209996
        Deste modo a Isabel fará a ligação para o dito conto. Por fim e se forem muitos compilamos em livro como já aconteceu com os contos de 2019 e 2020. Como pode ver aqui: https://ladosab.blogs.sapo.pt/tudo-na-vida-vale-a-pena-1226265
        Felicidades e Boas Festas.

        1. Muito obrigada, José.
          Sim, eu já tinha lido sobre essa compilação e até estive no blogue da Isabel, mas não tinha percebido bem como a coisa funcionava.

          Fico com a informação. Mais uma vez, obrigada.
          Boas Festas!

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