A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego, para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS. A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem. A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa… A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é e mai nada. E o amigo do marido da Maria filha da velha Atão tu não lhe dissestes que a tu mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai… A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente. E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

Absolutamente contemporâneo Leonor. Excelente.
Obrigada, ariel.
Excelente, uma vez mais. E gosto muito dessa tua opção formal de pôr o discurso directo em itálico, intercalando-o com o discurso indirecto. Ajustadíssimo ao fluxo da história que vais narrando.
Nem eu me tinha apercebido que já tinha escrito tanto sobre velhos. É mais perceptível com o itálico.
A “alfabeta” foi Mulher “suficiente” para tamanhos oportunistas.
Obrigada Leonor – uma história muito bem contada – eu quase que diria – deliciosa:))
Obrigada, Maria, infelizmente foi baseada numa história real.
Já me vou habituando a estes posts únicos. – Leonor, você é um caso sério!
20 v. para a criatividade e 20v. para a maturidade da (excelente) escrita.
Sabem bem estes seus intervalos de genuíno talento. Muito bom mesmo… 🙂
Quanta generosidade, Chloé, até corei 🙂 Muito obrigada
A história é tocante, como algumas outras boas histórias assim. Já a escrita é de autor, como sempre.
E mais ou menos real, João.
Leonor, mais um excelente olhar sobre a realidade dos nossos idosos.
Mais uma vez, como este assunto me toca muito, vou contar um outro lado.
Em 2006, quando o meu pai ficou paraplégico, mandei fazer uma rampa e novos passeios, tanto no jardim como no quintal, na casa dos meus pais.
Os bombeiros deram-me os parabéns pelas condições que eu tinha criado para eles levarem a maca desde ao quarto até à ambulância sempre em rodas.
Quando o tempo permitia, levava o meu pai, na cadeira de rodas, pela rampa de acesso ao jardim, atravessava-o, e levava-o até ao estendal coberto que mandei construir no fundo do quintal, era um passeio de quase cem metros onde passavamos por arvores de fruto e ornamentais e pelos canteiros floridos que eu cultivava (e cultivo).
Nunca vou esquecer os comentários que ele fazia e o prazer que ele sentia em dar este passeio.
Ontem apanhei crisântemos, branco imaculado, para lhe pôr na sepultura do jazigo de família.
Mais uma vez a sua visão sobre a velhice é clara, acutilante. Parabéns.
Obrigada, beijinho
Um grande beijo, Virginia. Nem sempre é fácil mas temos obrigação de proporcionar bem-estar e de proteger os nossos pais e os idosos em geral. Esta história que conto, embora com um ou outro ponto, foi baseada numa conversa que ouvi. E mais uma vez fiquei a pensar…
Podia ser um post sobre a acessibilidade em Portugal. Gostei de ler. 🙂
Também. A questão aqui é que a casa tinha sido construída há pouco, não havia grande desculpa. Obrigada 🙂
Muito contemporâneo. E muito bom 🙂
Contemporâneo como a casa 🙂 Obrigada