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Estas questões do “género” têm que se lhe diga, e o que sobre isso vem à baila também. Diz-se que “agora” os homens têm de se despachar em afazeres domésticos, aprendê-los e isso, num óbvio “os tempos mudaram”, um viés do que hoje se diz “construção social do género” e antes se dizia divisão sexual do trabalho. Será assim, para os muitos das novas gerações, os desta “Era Identitária”… Acontece que sou velho e tenho outras memórias, “identitárias” por assim dizer.
Quando acabei o curso fui convocado ao “Calhau”. Não guardo disso boas memórias, pois foi um azar nítido: não só pelas oportunidades laborais que logo perdi. Mas, acima de tudo, porque no meu edital (25 ou 50 nomes, já não recordo) fora o único a quem não tinha sido atribuída a ansiada “passagem à reserva territorial”. Terá sido o dia de maior raiva da minha vida.
Depois foi o que sabem aqueles que fizeram a tropa. Algo rude – menos que antes, pois havia 2 anos que tinham morrido uns recrutas na “prova do fosso” e isso amainara o jovem oficialato e os temíveis furriéis. Pesado, porque aquela “ginástica até à morte” não era um mero mito. E dificilmente suportável, porque tudo aquilo era, acima de tudo, uma imensa perda de tempo para um puto cheio de pressa na vida. E depois, ainda por cima, era um bocado pacóvio, de anacrónico – cada um tinha a sua “namorada” (a G3): e todos tínhamos um “inimigo” (“o meu alferes dá licença?“, um dia perguntou o sô Teixeira, durante a prelecção ao pelotão na parada, “diga, sô Teixeira!“, “quem é esse inimigo?“. Sorriso do jovem oficial – que era um puto porreiro, rijo mas porreiro – e “Bem, dantes eram os russos, agora não sabemos!!!“, que o raio do Gorbatchov nos tinha trocado as voltas…).
Enfim, por lá andávamos, Tapada acima, Tapada abaixo, disparando quando nos diziam para isso, correndo e saltando quase sempre, marchando na parada com a monotonia ou nas cercanias do raio da vila (raisparta Mafra), com mochilas mais pesadas do que no inter-rail, estudando sebentas do pequeno oficialato noite afora, sorvendo o rancho que não vinha do Pap’Açorda, e o tintol que se dizia ter cânfora para reduzir os anseios (sodomitas, presumo), e sei lá mais-o-quê que já lá vão mais de trinta anos. E no meio disto tudo ainda se tinha de aturar – e isso talvez fosse o pior – os instruendos camaradas estuporados, pois ali deprimidos e/ou na ronha, sofrendo aquilo como se dali fossem partir para a frente leste, os esperasse um qualquer Estalinegrado e não apenas um anito de modorra numa Tavira ou Lumiar qualquer…
Enfim, no que tive de fazer lá me safei o suficiente, apesar de desajeitado naquilo (menos na pontaria, registo, apesar de destro com olho condutor esquerdo), muito devido ao que na avaliação final ficou explícito, uma boa referência em “rusticidade”, algo que ainda hoje recordo com prazer, enfático.
Dito isto, foi na tropa que este burguesote, tão benjamim que quase filho-único, aprendeu a coser botões, a ir à máquina de lavar quando chegado a casa de trouxa às costas, a passar a ferro (mais ou menos, mais ou menos…), a ter os pertences muito bem arrumados, qu’a gente tem de limpar os sanitários (lavabos e cagadoiros), a ter calçado e vestes impecáveis. A organizar uma mesa (quando se é “chefe” dela”). E que fazer a cama é a primeira coisa após se vestir, e muito bem aprumadinha, que a “casa” não é para estar descomposta… E, mais do que tudo, a ser “mães de famílias” (como então se dizia) pois também era exigido o tomar conta dos outros (mais-novos, por definição) que não sabiam fazer as coisas, como eu desesperado com o bom do sô Cabecinhas, meu camarada de beliche, um daqueles alourados celtas que o Norte ainda nos oferecia, desajeitado nas artes de esticar lençóis e tão atrapalhado em tudo aquilo, assim sempre atrasando-se, que algo relapso na higiene pessoal, obrigando-me a trocar-lhe in extremis as fronhas, para evitar a gritaria do oficialato, aquela do “Sô Teixeira, você não está a ajudar o seu camarada… vamos encher“. Etc…
Enfim, é isto apenas a minha contribuição de antropólogo para esta lengalenga da “construção social do género”, sub-secção “lavores”. Quanto ao resto? Raisparta Mafra…

Eheheh: do melhor que tenho lido aqui. Eis uma verdadeira crónica – palavra hoje abastardada ao ponto de se chamar “crónica” a qualquer texto, impresso ou não. Uma crónica é prelúdio de conto, história em que o autor é também personagem e nos permite vislumbrar um fragmento do que viu ou viveu. E que encerra sempre um desígnio moral, seja qual for, ainda que apenas esboçado.
Neste caso, de facto, com o toque suplementar de contribuir para o aliciante debate das “questões de género” que me vai mobilizando também, com bastante menor verve e mais reduzida sabedoria.
Obrigado, camarada coordenador.
Já andava tudo de olho no alourado celta que certamente fazia lembrar uma Brigitte Bardot.
Mulheres na tropa para aprenderem a ser homens!!!
Que má onda de comentário. Mesmo…
Raisparta Mafra, e arredores na “semana de campo”.
E aquela da ‘quem foi a menina alice que disse ai?’, quando se fazia o tapete humano e algum ao passar por cima pisava os ditos com as botifarras.
Os dichotes eram imensos…
Percebi que fez a tropa em Mafra – e em tempo de paz. Eu também, para ambas as circunstâncias anteriores. Atrasei-me a entrar para a faculdade, pelo que fui “apanhado”. Tenho memórias fortes de Mafra, com as quais não maço os seus leitores. Arrisco uma, apenas: terminado o curso de oficiais milicianos, quis ficar em Mafra para poder retomar o curso de engenharia. A resposta veio seca e cortante: “Mafra não precisa de oficiais como Vc.”. E apanhei o comboio para Abrantes. Estávamos no Verão de 1980, terminada a recruta que começara em Março.
Comboio de Mafra para Abrantes?
A estação de comboios de Mafra fica a 15/20 km do “Calhau”, a de Abrantes a 5/10 km do Regimento de Infantaria (RIA) [agora alberga um brigada qualquer com um nome pomposo].
Era uma graça, para explicar que fui colocado em Abrantes, nao que apanhei o comboio em Mafra para Abrantes. Até porque o comboio parava no Rossio ao Sul do Tejo, que tem um nome também pomposo.
Também eu passei por isso no final da década de oitenta.
Os autocarros da Mafrense de Santa Apolónia para Mafra carregados de magalas, o aprumo possível de quem se fardava dentro do autocarro.
Nunca saí nem nunca entrei fardado em casa.
Como pedi antecipação do serviço militar obrigatório, com 18 anos já andava, feito parvo, em Mafra, com uma G3 às costas, ensinado por homens a fazer “tarefas de mulher” como dizes e bem; estou a ser irónico, sou o mais novo de três rapazes e com 18 anos já me desenrascava bem nas actividades domésticas.
Tenho pena que quando fui mancebo, militar fosse uma actividade, exclusivamente, masculina, julgo que em vez dos roncos do Lopes na parte de cima do beliche teria apreciado (nessa altura) um ronrorar silencioso duma Margarida Corceiro ou duma Júlia Palha.
Era típico esse desfardar à saída e o fardar à chegada. Eu fazia o contrário: nunca deixei de entrar em casa fardado e nunca deixei de sair fardado – entendia aquilo tudo como uma monumental chatice mas nada que me envergonhasse. E tinha tanta pressa de arrancar de lá e tanto atraso ao arrancar para lá que nem me passava pela cabeça perder um minuto que fosse a desfardar-me e fardar-me.-
Nem tive tempo para poder dizer raisparta Mafra. Após uma semana de lá estar, mandam fazer uma roda com todos os cadetes, onde no centro se instalou um tenente de camuflado, apresentando-se como Angeja, vindo dos Rangers de Lamego. Mirou cada um de nós olhos nos olhos, e perguntou se havia voluntários para o curso de Rangers. Você respondeu? assim respondi eu e todos os presentes. Um silêncio sepulcral, o tenente ás voltas dentro do círculo, e de repente dirige-se ao centro e começa tu, tu, tu,……..foram 50, nos quais estava eu incluído, e rematando: Estão nomeados voluntários para Lamego. E lá se foi Mafra.
Isto em Abril de 1975, depois de pronto e em Castelo Branco, tive a oportunidade de voltar a contactar com cadetes, mas como soldados rasos, os célebres cadetes de Mafra, que na altura, depois de verem o filme russo “O couraçado de Potenkine” fizeram uma rebelião, sendo foram despromovidos. Estava criado o embrião dos SUV, soldados unidos vencerão.
Voltando ao género, deveria ser obrigatório todos e todas passarem pelo exército e fazerem entre 2 e 3 meses de recruta.
Esse episódio da “revolta de cadetes” e sua despromoção não conhecia. Vou ver se há algum texto na internet…
Ironia.Conheci poucos Teixeira, mas recordo um deles já lá vão muitos anos.
Aos fins de semana ia buscar um dos meus filhos a Santa Apolónia que estudava em Coimbra. Não é que um dia tenho uma multa e dirigi-me ao posto da polícia.
Dizem-me então que o guarda Teixeira+inha todas as noites limpava 2 cadernetas com multas, nessa zona.
Um dia vou observar o dito guarda na bomba de gasolina ao lado da estação.
Quem não fizesse o sinal de desvio, quer antes ou depois, levava a respectiva. Eram 95%.