Como quero escrever sobre a praxe, um primeiro esclarecimento: estudei em Coimbra, o local onde a praxe, como fenómeno organizado e denominado como tal terá surgido. Quando entrei li o Código da Praxe (tinha sido revisto nesse mesmo ano) de fio a pavio e decidi que não era para mim. Ao longo do meu período na Universidade de Coimbra nunca vesti o traje académico, tomei parte em praxes ou participei no cortejo da Queima das Fitas. Por outro lado, nunca tomei uma posição anti-praxe, preferindo antes uma posição de “vive e deixa viver”.
Esta minha posição teve como origem a minha interpretação da praxe: não as actividades a que os “doutores” sujeitam os “caloiros”, mas de facto o conjunto das tradições estudantis da Universidade de Coimbra, as quais determinam também o tipo de traje académico, a organização da Queima das Fitas e coisas semelhantes. Não me incluí na praxe porque, pura e simplesmente, achei estúpido que a hierarquia tivesse em conta apenas os anos de experiência dos estudantes e que aqueles que fossem piores estudantes – ou seja, prevertessem os objectivos da sua presença na universidade – fossem as figuras de maior autoridade perante a praxe (veteranos, ou seja, aqueles com mais anos de universidade que de curso).
Foi de facto essa a minha maior objecção à praxe: o seu espírito profundamente anti-democrático. Já o acto de praxar (que é apenas uma parte da praxe) me pareceu essencialmente inofensivo. A esmagadora maioria das praxes a caloiros eram relativamente benignas e vi piores humilhações nas salas de aula às mãos de professores excessivamente convencidos da sua superioridade. Todos os casos que vi de caloiros a pedir para não ser praxados foram respeitados. Conheci também suficientes casos em que abusos de poder em praxes foram severamente castigados (de um ponto de vista da praxe, bem entendido) e um caso em que um abuso durante uma praxe foi comunicado à polícia a conselho do Conselho de Praxe.
O que quero com isto dizer é que a praxe de caloiros não é em si algo de bárbaro. O tipo de praxe depende simplesmente de quem a pratica. Sem regras que sejam respeitadas, o espaço para abuso aumenta. o Código da Praxe da Universidade de Coimbra proíbe (ou proibia, hoje em dia não sei), por exemplo, que se pintasse ou riscasse a cara dos estudantes. As suas regras são (ou eram) respeitadas pelos estudantes, que se fiscalizavam uns aos outros. Os abusos que houvesse poderiam ser comunicados à polícia.
Noutras universidades será diferente. Poderemos começar uma campanha de erradicação da praxe porque na sua ausência a sociedade nada perderia, antes pelo contrário. Aquilo que temo é que as humilhações dos estudantes não só se mantivessem como pudessem aumentar, uma vez que passariam a ser (ainda mais) ilegais. Não esqueçamos aquelas que vemos em filmes americanos e que glorificam as (ainda mais) bárbaras fraternidades americanas. Basta ver filmes como Oldschool. Por outro lado, rituais de iniciação estão presentes em todo o lado. Desde empresas a clubes de futebol, passando pelo principal exemplo dos mesmos: as forças armadas.
Como no caso de drogas, não sou a favor do fim da praxe (embora, repito, ela não faça a menor falta). Sou antes a favor da regulamentação. Para isso ser possível é no entanto necessário começar por educar. Não só os estudantes que praxam ou são praxados mas, e antes de mais, os professores que, nos órgãos de gestão das faculdades, permitem as piores práticas porque também as viveram. Não resolveria o problema mas, na minha opinião, seria um passo na direcção certa.

Uma boa opinião… 🙂
Não sei se boa ou má, apenas uma opinião mais. Espero essencialmente que seja equilibrada.
“A esmagadora maioria das praxes a caloiros eram relativamente benignas e vi piores humilhações nas salas de aula às mãos de professores excessivamente convencidos da sua superioridade.”
Haja alguém a dizer o óbvio – e a dizê-lo num texto equilibrado. Até me fizeste lembrar de um professor de má memória, jornalista e até provedor num jornal da nossa praça, para quem a humilhação dos alunos na primeira aula era obrigatória.
Não faço ideia de quem seja o professor em causa (mas apenas e só porque não me dei ao trabalho de fazer uma pesquisa googlegráfica), mas seria apenas mais um. Tive um que tinha o hábito de dizer aos alunos que respondessem mal a uma pergunta “O/A senhor/a não tem maturidade suficiente para fazer a disciplina de Química Orgânica“.
A verdade é que os problemas da praxe começam com quem já tem idade para pôr cobro a eles. A esmagadora maioria dos que andam a praxar serão alunos do 2º e 3º anos (os outros têm normalmente mais que fazer). São miúdos pouco mais velhos que os caloiros. Se os professores e outros colegas mais velho não têm mão na coisa e não dão o exemplo, como exigir aos mais novos que o façam?
Por acaso, nesta conversa de surdos em que o tema das praxes se tornou há uma coisa que me tem feito bastante confusão: a ideia generalizada de que quem pertence às “comissões de praxes” e organiza as respectivas actividades são invariavelmente os piores alunos, que mais matrículas acumulam, calões, prepotentes e apegados ao “poderzinho”. Percebo de onde vem a ideia – a figura do “dux” que existe em mais universidades do que julgava contribui muito para isso. Mas uma árvore não faz uma floresta, e não é por termos um sobreiro no meio de um olival que aquilo vira um montado de sobro. Vale o que vale: no meu tempo de universidade, as comissões de praxes que vi e nas quais participei tinham bons alunos – malta que se empenhava em várias actividades académicas (conselho pedagógico, associação de estudantes, etc), que concluiu o curso sem reprovar (ou a reprovar não mais do que um ano, o que não tem de ser sintoma de “baldas”), e que simplesmente se empenhava naquilo sem outra motivação que não divertir e divertir-se. Muito provavelmente, os jovens que faleceram de forma trágica no Meco até estariam próximos desta ideia – e, não sem ironia, estariam também entre os primeiros a repudiar muito disparate que se tem dito na comunicação social.
As comissões de praxe são organizações que desconheço. Nisto sou excessivamente insular: conheço bastante bem o sistema de Coimbra e muitíssimo mal os restantes. Em Coimbra o Conselho de Veteranos (CV) regula a praxe (entendida como o tal conjunto de tradições) e o Dux Veteranorum é eleito entre os membros do CV (não é necessariamente o aluno com mais matrículas). O CV é composto apenas e só de veteranos e estes tiveram (em teoria) que passar pelas várias etapas da vida académica (ser pela praxe, usar capa e batina e pasta, ter usado grelo e ter queimado as fitas – na verdade o grelo, mas ignoremos isso). Como tal, só mesmo chumbando (o que não implica necessariamente ser-se mau aluno) se pode estar no CV.
Há também a Comissão Organizadora da Queima das Fitas, composta por um representante de cada faculdade, os quais têm que ter colocado grelo e queimá-lo nessa queima das fitas (ou seja, “ir no carro”, no cortejo). Mas aqui não há outros a entrar.
Mas como dizes, chumbar um ou mais anos não é ser-se necessariamente baldas. No meu primeiro ano tive um professor que nos aconselhou a prolongar a experiência de estudantes universitários tanto quanto possível. Ele tinha sido estudante 10 anos. Era além disso o então presidente do Conselho Científico da Faculdade. No meu curso a média de anos necessária para o completar era de 7. No meu ano 5 pessoas terminaram com 5 matrículas, um número acima da média (e à custa de épocas especiais). Os tempos de hoje mudaram, mas o aluno que chumba não é necessariamente “um baldas”, como muito bem escreves.
Caro João André,
Em Engenharia, no Porto, as comissões de praxe eram maioritariamente alunos do 4º ano, eventualmente com um do 5º e 2/3 “ajudantes” do 3º. Os alunos do 2º não podem praxar, pelo que não podem igualmente pertencer a comissões de praxe.
Em termos das comissões serem constituídas pelos alunos mais fracos, subscrevo o que foi aqui escrito. Por norma não são – é pessoal que já está metido noutras coisas (Associação de Estudantes, Tunas) e que tem a) jeito para lidar com pessoas e/ou b) capacidade organizativa. A recepção ao caloiro (que não é sinónimo de praxe, ao contrário do que se escreve por aí) dá muito trabalho, não é só galhofa e disparate.
Finalmente, existem abusos? Claro que existem, como existem em todas as organizações e organismos onde exista uma relação hierarquica e de poder. A diferença (pelo menos no meu tempo, já lá vão 10 anos) é que a regulação interna era por norma rápida e efectiva, pelo que os casos são francamente raros e normalmente envolvem pessoas que NÃO estão activamente nas actividades académicas (i.e. têm o estatuto, pela idade, mas não a experiência).
Lá está, para mim é informação nova. Mas essa informação também vai na mesma direcção do que escrevi: abusos são raros em sistemas que se auto-regulam. Correndo o risco (muito consciente) de soar snob (e de irritar muita gente): é nas universidades/institutos mais recentes que os abusos tendem a ocorrer.
Finalmente leio um texto sensato sobre o assunto. Só não percebo porque só falam das praxes acadêmicas e ninguém se lembra do que se passa em quartéis, academias e restantes escolas militares. Se é para discutir a praxe, discutamos então a praxe…
Mesmo em empresas existem. São as “partidas” que se fazem aos recém chegados, especialmente se forem jovens. Dar-lhes indicações erradas, informá-los de regras que não existem. Fazer desaparecer objectos da mesa, etc. Isto só para referir algumas que vi ao longo dos anos. Só não se lhes chama “praxes”.
Tive uma experiência idêntica. Estudei em Coimbra há vinte e tal anos, participei em praxes, em todas as festas académicas que pude e de capa e batina naturalmente. Foram anos inesquecíveis, fiz amigos para a vida, nunca assisti em nenhum excesso nas praxe e excessos só mesmo de álcool (!)… fico estupefacta e até incrédula com as descrições que tenho ouvido de Universidades que eu nem sabia que existiam!
Eu entrei para Coimbra fez em Setembro precisamente 20 anos. Também ainda hoje me surpreendo com a quantidade de institutos superiores que existem pelo país (isto apesar de ter sido dirigente associativo e ter visto a multidão de instituições que apareciam em reuniões nacionais). Vi um ou outro excesso (pelo menos do meu ponto de vista) e cheguei a colocar termo a eles por duas vezes, simplesmente apontando que se estava a abusar. Os “praxantes” reconheceram a situação e simplesmente pararam com a praxe.
Não significa que não tenham existido abusos, mas foram sempre casos isolados e por pessoas específicas.
O pior dos portugueses fica mais uma vez demonstrado nesta história das praxes.
Proíbir é logo a palavra que salta para a boca de um português como reacção pavloviana.
É simples quem quiser participar participa. Quem não quer diz Não – a palavra mais importante da liberdade- e tem a Lei no caso de ser obrigado que já existe e não precisa de nenhuma modificação.
Concordo que sim lucky, proibir é logo coisa que é aventada só porque não se gosta.
Há no entanto que observar um aspecto: a coacção. A verdade é que muitas pessoas são forçadas a participar na praxe. Se um/a jovem enfrenta potencial ostracismo (real ou inventado para aumentar a intimidação) e potencialmente até força para participar, então já não se trata de uma questão de liberdade (a liberdade de uns é restringida pelos outros).
Poderemos, claro, dizer que se trata então de uma agressão e deixar as coisas dessa forma. Só que se as coisas fossem tão simples também não precisávamos de uma moldura penal específica para as agressões sexuais. As leis relativamente aos crimes de agressão bastariam (falo de cor, não sei o suficiente sobre direito e poderei estar a dizer disparates).
Eu por acaso concordo consigo: não se deve proibir sob o ponto de vista legal. Claro que isso não invalida que uma universidade tome medidas relativamente ao assunto para garantir que ou não há praxe ou que esta procede de forma aceitável (aos interesses da universidade). Depois poderiam os estudantes não ir para essa universidade se esse ponto fosse assim tão importante. O essencial nesse aspecto é evitar que os estudantes sejam coagidos a participar por não terem noção da alternativa. Sem ter conhecimento sobre as suas liberdades, um indivíduo simplesmente não dispõe delas.
entristece-me sempre ver que muitos (bem intencionados) cidadãos acham sempre que algo corre mal que que se requere que uma das “autoridades” legisle sobre actividades de adultos em pelo uso das suas faculadades de raciocinio.
Porra o corporativismo devia ter sido erradicado das mentes a partir de 1974, que tivesse ficado uns anitos de nojo/luto percebe-se mas já passaram tantos anos e jánão se justifica clamarem pelo “pai estado” para regular tudo,arranjar tachos para todos, dar saude a todos(mesmo aos bem abonados), pagar os estudos dos filhinhos (mesmo dos que compram BMW ano sim ano não). Larguem o estado da mão, sanguessugas mentais.
Há de facto quem considere que se deveria legislar sobre o assunto, mas parece-me que a maior parte dos apelos é para uma auto-regulação das universidades. Sendo organismos específicos com regras internas, faz sentido que as universidades o façam (mesmo que optem conscientemente por não regular, ou em alternativa por proibir, as praxes). Fora disso, a única coisa que se impõe (e pode ser por força de opinião pública) é esclarecer os estudantes sobre as consequências de não serem praxados – inexistentes.