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Com a memória fresca da leitura recente da Homenagem à Catalunha de George Orwell, é claramente um mundo diferente este em que vivemos e aquele que em se formaram as brigadas internacionais para ajudar as forças do governo republicano espanhol no combate contra o fascismo.
É claro que também a mecanização e toda a tecnologia de guerra levou a que a sua progressão se tenha tornado muito mais rápida, e assim se tenha tornado obsoleta a manutenção por meses de posições entrincheiradas conforma relata Orwell nesta obra.
Mas mais do que isso não posso deixar de reparar no voluntarismo assente na força das convicções ideológicas e na generosidade que levaram cerca de 40.000 cidadãos, maioritariamente europeus, a abandonar as suas rotinas e a se voluntariar para combater num país dentro do qual nem conseguiam comunicar. Cerca de 10.000 terão morrido ao longo da guerra, tendo muitos deles perecido também em resultado dos conflitos entre os diferentes partidos que combatiam as tropas de Franco. A busca pela pureza dos ideais colocou os partidários de cada uma das principais facções, fossem anarquistas, socialistas, comunistas, mais ou menos marxistas com critérios de distinção que exigiam um bisturi ideológico, uns contra outros. O escritor pertencia a um deles apenas porque eram os que o tinham recebido à chegada.
No relato sobre o inverno passado nas trincheiras entre Huesca e Saragoça sobressaem essencialmente as descrições sobre o frio, o isolamento e o tédio ali passado. Manter o lume acesso exigia deslocações cada vez maiores, chegando ao ponto em que por cada hora de lume acesso eram necessárias três ou mais em busca de material combustível. Chega a ser mais fácil arranjarem-se voluntários para ir à terra de ninguém para recolher lenha, do que para combater. A falta de higiene, os piolhos e os atrasos na alimentação são também referidos no livro.
Em oitenta noites, apenas tirei as minhas roupas três vezes, embora conseguisse de tempos a tempos tirar tirá-las durante o dia. Ainda estava demasiado frio para haver piolhos, mas ratazanas e ratos era coisa que não faltava.
Depois de ler esta obra e de recuar no tempo pela mão de Orwell, oiço as notícias e fico a saber que estamos todos agradavelmente surpreendidos pelas unânime reacção dos países-membros da EU e até comovidos pelas palavras proferidas pelos seus responsáveis políticos. Não se pode expulsar a Rússia do sistema de pagamentos Swift porque sem o gás que esta fornece poderíamos passar frio, mesmo num inverno que tem sido ameno.
Confesso-me surpreendido por ainda não ter começado a ver molduras azuis e amarelas para sobrepor nas fotos de perfil das redes sociais, porque essa é a arma favorita dos europeus para combater os tiranos. Os mais afoitos e voluntariosos, e que vivem a menos de mil passos da Rua Visconde de Santarém, esses apostam mais no desenho de cartazes para exibição em frente às câmaras de videovigilância da embaixada da Rússia.
Já com milhares de ucranianos deslocados em fuga da guerra, com muitos outros a dormir nas estações de metro, fazendo lembrar os tempos do Blitz sobre Londres, sem podermos saber a dimensão das baixas civis, a pergunta que ouvi numa entrevista a um oficial das Forças Armadas reformado foi sobre quais as linhas vermelhas que a Rússia não poderá pisar. O que é que afinal ainda falta acontecer para que os europeus acordem?
Os políticos estão manietados na exacta proporção da incapacidade dos cidadãos que representam, aceitarem riscos. Os déspotas como Putin e Xi Ji Ping sabem bem disso e isso abre-lhes a porta às suas ambições. O próximo episódio ocorrerá em Taiwan e o melhor mesmo é que os mais corajosos comecem já a preparar os cartazes. A embaixada da China em Portugal fica na Rua de São Caetano.

verificasse muitas vezes
‘ O triunfo dos porcos’
Eles andam aí.
“O próximo episódio ocorrerá em Taiwan e o melhor mesmo é que os mais corajosos comecem já a preparar os cartazes. A embaixada da China em Portugal fica na Rua de São Caetano.”
Mas não se esqueçam de levar máscara. Sejam corajosos mas não sejam parvos.
Não há dúvida que em matéria de conselhos, somos os maiores, sempre dispostos a mandar bitaites. Conseguimos ver, lá longe, todos os perigos, possíveis e imaginários, no entanto, dentro de portas, levámos com uma ditadura sanitária e nem tugimos nem mugimos. Grandes heróis.
Em relação a isso a reacção do povo foi uma maioria absoluta.
Foi foi, com direito a perseguições, discriminações e obrigações vindas de toda uma série de parvalhões. Foi aqui e na China, tudo feito de acordo com a maioria absoluta do povo.
Realmente agora depois de velho é que preciso que me digam como devo respirar e qual é a compota que devo oferecer no Natal.
Puritanismos, moralismos e outros ismos, não obrigado, já dei para esse peditório.
É fácil dizer que os outros estão congelados pelo medo quando nós próprios não somos capazes de mexer uma palha quando vemos o nosso próximo a ser discriminado.
Eu preocupo-me com a minoria dos que criam empregos fora da esfera do estado e à conta disso posso dizer que conheço o sentimento da solidão.
Ainda bem que são uma minoria, a pagar tão bem como pagam aos desgraçados das estufas de Odemira, imagino se fossem uma maioria.
Excelente comentário.
É isso mesmo. Em nome da segurança, estão dispostos a aceitar todas as restrições à liberdade.
Xi e Putin já coordenaram as suas respectivas esferas de influência sobre o que resta do Império Biden. Os rapazes do Jerónimo já estão a preparar o terreno.
Hãa?
Um clássico de todos os tempos. Demonstra ao vivo, com conhecimento directo, como as boas causas podem ser destruídas por dentro, não por fora, e transformadas em pesadelos totalitários.
Compõe uma trilogia extraordinária com O Triunfo dos Porcos e 1984.
O Triunfo dos porcos foi a única obra que li de Orwell durante muitos anos. Entretanto tenho de a reler.
Generosidade ou fanatismo?
Se algum dia se der ao trabalho de observar o mundo de um angulo diferente daquele que se observa do seu sofá, irá ficar maravilhado.
Se o Paulo Sousa está tão entusiasmado para ir combater pela Ucrânia, não se acanhe: vá à embaixada desse país e ofereça-se como voluntário para as novas Brigadas Internacionais.
Mas por favor faça-o por sua conta, e não à custa dos meus impostos.
Nem pelo menos à custa dos seus impostos?
Q.E.D.
Exatamente: nem à custa dos meus impostos, nem (muito menos) à custa do sangue dos meus filhos.
Mas se o Paulo Sousa quiser gastar o seu dinheiro e o seu sangue a ir combater os russos na Ucrânia, faça favor. Desde que não me meta nisso, tudo bem.
Sabe Paulo Sousa, é que eu não sou somente um votante da Iniciativa Liberal, nem mesmo somente um membro da Iniciativa Liberal. Eu sou mais do que isso: sou um liberal mesmo. E por isso não gosto de Estados (nem empresas privadas) a tomar decisões por mim, nem a mandar-me combater, nem a mandar os meus filhos combater. E por isso fui, na minha juventude, objetor de consciência.
Não sei se alguma vez visitou o cemitério de Omaha beach, ou se já viu o filme Em busca do soldado Ryan, mas a ordem liberam na europa tem ali as suas fundações. Apenas no dia D, 6 de Junho de 44, as forças aliadas tiveram mais de 9000 baixas. Freedom it’s not for free.
Talvez devesse era fundar o partido Iniciativa Libertária.
Registo a ironia de a esmagadora maioria desses “40 mil cidadãos” partilharem as convicções daquele jovem – também muito generoso, e que toda a gente tem muita pena que tenha perdido o lugar – que ontem discursou na AR a dizer que a são os EUA os “verdadeiros interessados numa nova guerra na Europa”, e que estão “dispostos a sacrificar até ao último ucraniano ou europeu para a promover”. Nada de novo, no fundo, pois entre Agosto de 1939 e Junho de 1941, os seus antecessores no Partido, também diziam que eram as democracias ocidentais, e não o Sr. Hitler, os “verdadeiros interessados numa nova guerra na Europa”. Creio, por isso, que andaram muito bem as democracias europeias em manter-se longe dos dois bandos de fanáticos sanguinários (um mais eficaz que o outro) que se bateram na Guerra Civil Espanhola. Desta vez, creio que as democracias europeias (por culpa própria) não tiveram outro remédio, e com muita pena minha, que não encontro correspondência entre o estado soberano, democrático e moderado, que é (com todas as suas imperfeições) a Ucrânia do infeliz Zelensky, e a República de Largo Caballero, Negrin e Companys.