Confundir democracia com ditadura


Pedro Correia,

 

Do alto da sua senilidade, Fidel Castro pergunta se a NATO também tenciona “bombardear Espanha” para travar manifestações de rua. Confundindo, desde logo, legítimos protestos em democracia com levantamentos populares contra uma ditadura.

Que Castro, a cuja família pertence o nada invejável troféu correspondente à mais longa ditadura do hemisfério ocidental, confunda democracia com despotismo é algo que não deve admirar ninguém.

O problema, como sempre sucede nestas coisas, são os discípulos. Tantos deles mais papistas que o papa. Reparem neste texto do Renato Teixeira. Mete tudo no mesmo saco: a luta contra tiranias e festivos acampamentos de rua em capitais democráticas. Desvirtuando, de caminho, o significado de uma canção que deixou rasto como símbolo de resistência à feroz ditadura militar brasileira – e também ao regime salazarista.

É intolerável identificar a Tunísia do deposto Ben-Ali, a praça Tahrir e os opositores a Assad na Síria com protestos em cidades europeias como Atenas, Madrid e Londres. O Renato Teixeira sabe muito bem que é uma profunda desonestidade intelectual confundir aqueles que ousam erguer-se em revolta contra sistemas ditatoriais com os que reclamam contra as naturais imperfeições da democracia. Os primeiros correm o risco de ir parar anos a fio aos cárceres, sofrerem torturas ou até perderem a vida. Os segundos só correm o risco de uma constipação se cair uma chuvada mais forte.

20 comentários em “Confundir democracia com ditadura”

  1. É verdade, mas olhe que quando os bastões democráticos arreiam podem ser tão dolorosos como os outros.
    Cargas policiais sobre os que contestam as imperfeições do regime não seriam novidade em democracia. E que volta e meia morrem alguns, também acontece. Não é a mesma coisa? Talvez. Ou será um grau da mesma?

    1. Na Porta do Sol, em Madrid, quem quer acampar acampa, quem quer protestar protesta, quem quer contestar o poder contesta. Não há bastões policiais. É intolerável, por exemplo, comparar a actual democracia espanhola, onde dois terços dos cidadãos acabam de exibir um gigantesco cartão vermelho ao PSOE nas urnas, com o regime franquista. Confundir os conceitos é meio caminho andado para justificar as ditaduras com o seu habitual cortejo de vítimas.
      Há imperfeições em democracia? Há. Há injustiças em democracia? Há. É necessário fazermos esforços permanentes para aperfeiçoarmos a democracia? Sem dúvida. Mas não esqueçamos esta evidência: só os regimes totalitários são “perfeitos”.

    1. Alega você que é “intolerável” dividir os regimes entre democracia e ditadura. E, pelos vistos, acredita que em Cuba «qualquer cidadão é livre de se candidatar ao posto de deputado e assim representar uma parte da população.»
      Vê-se que leu Orwell. O seu raciocínio é muito orwelliano: ficou-lhe o fascínio pelo Grande Irmão. Liberdade é opressão. Verdade é mentira. Guerra é paz. Ao abolir as diferenças entre ditadura e democracia, concluirá decerto que Salazar era um democrata e talvez mesmo um corajoso antifascista. É o que acontece quando se viaja ideologicamente em contramão.

      1. Que fique claro que não defendo Cuba. Mas sim, qualquer cidadão cubano se pode candidatar a deputado. Reitero que isso não é condição suficiente para existir democracia em Cuba, do mesmo modo que nós elegermos o nosso governo não garante democracia. Quanto a Orwell, li e gostei muito, mas não vejo porque o chama para esta simples conversa. Não gostou do que leu, não foi? A LUTA É CONTRA O PODER ECONÓMICO.

      2. Enfim, entretenha-se a agitar o papão de Cuba, porque quem é pelo aperfeiçoamento da nossa democracia é comunista, radical e tudo e tudo. O orwelliano é você. Os jornalistas são os funcionários do ministério da verdade.

        1. Recordo que escrevi este texto a propósito da disparatada tese de Castro sobre um putativo “bombardeamento” da NATO a Madrid. Como convém a um ditador, ele confunde deliberadamente democracia e ditadura. Sobre isto reparo que você nada diz. É também uma forma de se pronunciar.

  2. Pessoalmente deixei de ter o 5 Dias no meu google reader. Não aguento mais a saraivada de asneira e de posts semelhantes por parte de tanta gente. Era tempo a mais a marcá-los como lidos quando nem sequer lhes ligava. E os posts do António Figueira eram depois perdidos no meio daquilo.

    Conheci o Renato Teixeira ainda em Coimbra. Lembro-me de uma manifestação organizada em frente à Ass. da República, contra a cobrança de propinas, a mudança da Lei de Bases do Ensino Superior e a redução nos apoios sociais aos alunos mais carenciados (estive na organização). Nessa manifestação, que esperávamos tivesse uns milhares de pessoas, estariam não mais que uns 200 gatos pingados. Seria um não-acontecimento e com todo o merecimento.

    No meio da modorra salta um muito jovem Renato Teixeira, juntamente com outros compagnos de route, ultrapassam as barreiras policiais e, perante a falta de reacção dos polícias (que certamente esperariam) começaram, à falta de melhor, a gritar “Sindicatos para os polícias” a plenos pulmões.

    A verdade é que para RT e outros que tais a razão do protesto é indiferente. É importante que seja barulhento e tão desordeiro quanto possível. Se é a favor ou contra democracias ou ditaduras ou se é em liberdade ou não são coisas sem importância. O megafone e as pedras não ligam ao ambiente.

  3. Ao ler o texto senti que faltava algo, mas não sabia o quê.
    Voltei a ler e a sensação repetiu-se, mas continuei sem descortinar a razão.
    Experimentei transportar-me para os cenários, os países, as situações e… voilá: eureka!
    Afinal apenas falta uma banalidade: a palavra liberdade!

    Mas ela até lá está, não expressa mas subjacente, debaixo de uma pedra ou atrás de uma esquina, espreitando.
    Mas onde está ao certo? Nas democracias que permitem essas manifestações sem censura, mas tb sem resultados? Ou nas ditaduras que as não consentem, às quais as manifestações se têm imposto, sob censura e debaixo de proibições, a custo de bastonadas ou de males maiores, mas que têm vindo a produzir os seus frutos?

    Afinal o que é a liberdade?
    É a possibilidade de agir dentro da legalidade, mas sem resultados? Ou é a capacidade de agir contra as proibições e com resultados?
    Devo estar confuso, ou mesmo até doido. Nunca me ocorreria questionar tal!

    Sinto que vivemos tempos de mudança.
    Não apenas nos países árabes onde ainda imperam as ditaduras oligárquicas, que vão caindo, mas também nos ex libris das culturas e civilizações modernas, onde regem os mais sofisticados modelos das democracias avançadas.
    Ali são evidentes os ventos da mudança, aqui nem tanto, passando despercebidos. Em ambos os casos há algo em comum: o desejo de mudança.
    Ali quer-se a democracia que nós já alcançamos, com os pergaminhos da inerente liberdade. Aqui quer-se a devolução da liberdade que perdemos, não pelos recuos da democracia que aperfeiçoamos, mas pelas desigualdades sociais que não percebemos ter deixado entrar pelas frinchas da porta mal vedada, como um gás tóxico, inerte mas letal.

    É fácil perceber os anseios dos manifestantes dos países árabes, mas é menos evidente perceber e lutar contra os males que têm assolado a Europa Ocidental.
    Identifico pelos menos dois progenitores das causas dos nossos males: as agências de rating que atacam países como verdadeiros vírus e a falta de solidariedade e desagregação política do projecto Europeu.
    Não é a hora nem o momento de os analisar, apenas cabendo aqui identificá-los para lembrar que existem e que merecem toda a nossa atenção, sob pena de perdermos a réstia de liberdade contida que ainda vamos tendo.

  4. “Cargas policiais sobre os que contestam as imperfeições do regime não seriam novidade em democracia. E que volta e meia morrem alguns, também acontece. Não é a mesma coisa? Talvez. Ou será um grau da mesma?”

    Há cargas policiais legítimas e outras que o não são.
    Há mortes feitas pela polícia que são legítimas e outras que o não são.

    E para começar, uma vez que será uma questão com futuro, uma multidão está sempre armada.
    E o comportamento da multidão pode ser legítimo ou não.

  5. Este tipo de «manifestações» estão a ser organizadas pela direita.
    Em Espanha, a mãozinha do PP já é bem visivel.
    Tudo para criar confusão.
    Aqui em Portugal, aqueles jovens líricos, militantes de grupusculos e movimentos de alucinados, estão a ser manobrados pelo PSD.
    Ainda bem que o PCP disse que quem quiser lutar que vá para a campanha eleitoral e que vá votar.
    Aquele folclore cheira-me a «encomenda».
    Olhem para Espanha.
    O Ravoy devia levar sandes para aqueles «manifestantes».
    Eles merecem.

    1. O que ficou bem visível em Espanha, no domingo, foi a “mãozinha” dos eleitores que castigaram um poder político manifestamente incompetente. Quanto ao PCP, seria bom que também recomendasse o voto democrático em Cuba.

  6. É muito fácil simpatizar com Cuba, com o regime, sobretudo quando lá se vai numa semana de férias, ou integrado naquelas missões internacionalistas do PCP ou da Associação de Amizade Portugal-Cuba.
    Porquê? porque sabem que não ficam lá, e têm a certeza que voltam carregados de lenços vermelhos etc. etc.
    Dizem que o povo cubano é magnífico, acolhedor, e realmente é, da mesma forma que eram os alentejanos.
    Quando do PREC, nas cooperativas permitiam que os “intelectuais das zonas urbanas de Lisboa e Setúbal” levassem tudo o que era bom, em nome do internacionalismo proletário.
    Nós ficámos na terra trabalhando, e os “intelectuais” do PCP abalavam para Lisboa e Setúbal, carregados de ovos, galinhas, porcos etc. e despediam-se com um “até á próxima camaradas”.

    1. Os comunistas governam Cuba como se fosse uma coutada privada há 52 anos ininterruptos. A única forma de os cubanos têm de votar, neste regime de partido único e ditadura feroz, é com os pés: emigrando. Mas até esta liberdade fundamental lhes é negada. O governo impede os cubanos de abandonarem o país. Muitos têm-no feito em embarcações improvisadas – às vezes simples jangadas – rumo à costa norte-americana, com risco da própria vida.

      1. O mesmo discurso?
        Não aprende nada com a realidade?
        O produto que vende já está fora de prazo.
        Tenho muita pena das pessoas que, insistem em decretar a morte das outras.
        E ainda não deram conta que, já não passam de cadáveres.

        1. Você é que volta sempre com o mesmo discurso. A defender os ditadores de sempre. Onde haja um regime que asfixie a liberdade é certo que esse regime conta com o seu aplauso.

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