“O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva.”
Vladimir Nabokov
As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.
Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. “Aqui não há prisões, só há tumbas”, diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad – no poder há 40 anos – quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.
Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.
O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu “asilo político”. Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear – diz ele – pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.
Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições – muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian – um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks – deixa bem clara a sua posição: “tanto em termos legais como em termos morais”, Assange não tem direito a tal estatuto.
Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: “O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso.” Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca – talvez a mais civilizada do planeta.
“O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva”, dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.


Tem toda a razão sobre os critérios do interesse da população. No entanto, o que me assusta no caso Assange, é que o modo como a Inglaterra está a actuar põe em perigo toda a integridade diplomática. Se a Suécia é tão civilizada escusava de arranjar desculpas esfarrapadas, não lhe encontro outro nome, para as acusações de crimes sexuais (já leu as acusações?). Não gosto de Assange nem do que fez, mas a bem de todos nós gostava de ver mais respeito pela integridade diplomática. Já agora, por que a Inglaterra não usa a sua sanha justiceira para extraditar Vale e Azevedo? O homem não está escondido em nenhuma embaixada.
Repare: estão em causa não decisões políticas mas decisões judiciais de dois países onde é indiscutível a independência (que vem de longe) dos titulares do poder judicial. Tomaram os equatorianos que a justiça do país deles funcionasse tão bem como a sueca. Tomáramos nós, portugueses, exactamente o mesmo.
Todas as opiniões dos “bens pensantes” referem-se à América, à Civilização Ocidental.
É esse o referencial.
Se servir para a destruir apoia-se e faz-se protestos, se não, não se faz.
Ora protestar pelo que acontece na África do Sul e na Síria não ajuda nada a destruir os EUA e a Civilização Ocidental e o malvado capitalismo. Aliás estão aliados da esquerda no poder na África do Sul e a Síria foi aliado da União Soviética.
Como o referencial é esse, grupos tanto podem passar causas/vítimas a ignorados conforme as conveniências.
As mulheres um dos grupos vítimas só o é quando convém mas depois estão-se nas tintas e convida-se o Hamas…é isso que faz a esquerda The Guardian.
É assim com todos os grupos de causas: mulheres, pretos, uma etnia qualquer, homossexuais etc etc.
A Esquerda usa quando conveniente e deita fora.
Para se perceber bem as monstruosidades que a Esquerda, neste caso nos EUA ao recompensar é só ler isto: http://www.amazon.com/review/R2U43FHIZLX BJH
A destruição das relações entre as mulheres e os homens negros na América é consequência da recompensa que os media e universidade dá.
Por isso é que por exemplo no Texas quem compra mais armas para defesa pessoal são mulheres negras.
Acho péssima esta inversão de valores. Acho péssima a indignação selectiva. Acho inqualificável a perversão do nobre instituto do asilo político, concedendo-o a quem está acusado de crimes sexuais. Revejo-me, nesta matéria, na tomada de posição do ‘Guardian’.
Conhece a acusação?
Caro Xico, é bom saber que em países como a Suécia, onde a justiça funciona, ninguém está acima da lei. Chame-se Assange ou tenha outro nome qualquer.
Se acha péssima a indignação selectiva, porque é que a pratica tanto ?
Você é anónimo, desconhecido… e lacónico. Quando concretizar, talvez possa responder-lhe.
Cada vez fico mais parvo com o que vou vendo, é só caos há nossa volta, parece que somos tomados por uma maré de loucura… nada tranquilizante. Há um clima pesado no ar, que dá a sensação que algo de muito mal está prestes a acontecer.
Estas acusações que se fazem, estas ameaças, não trazem bom agoiro.
Gostava de saber onde chegaríamos se cada acusado de crime sexual passasse a exigir estatuto de “refugiado político”.
O pouco que li de si, aqui neste blog, leva-me a crer que sabe perfeitamente a resposta a essa dúvida que coloca.
A minha opinião é: Se ele não não teme nem deve, então que seja Homem e apresente-se perante a acusação.
é essa também a minha opinião.
mas, até porque não sei da verdade verdadeira (sei o que sei, pela comunicação social) e talvez ninguém a sabe ao certo. Resta dizer que a justiça também julgou Galileu Galilei.
Essa justiça não era sueca, meu caro. Nem era do século XXI.
A justiça é uma convenção dos homens, como tal não é estática.
A verdade é muitas vezes inimiga do poder, bem como da fama.
Não ouso tomar partido em situações tão delicadas, porque não sabemos o que é que o Assange representa, ou se é o mal ou se é o bem
Delicadas porque: Neste momento ele é efectivamente uma figura destacada das massas, ele não se encontra numa posição assim só por obra do acaso, ele chega a isto porque foi levado a isso, porque há milhões de pessoas que tomaram conhecimento de assuntos, falsos ou não mas, geradores de sentimentos de indignação.
Ele representa alguma coisa, só que não sabemos o quê.
Referi Galileu, não por a justiça de então ser débil, mas pelo facto de ele ameaçar o poder de então, tal como Assange o esta fazendo agora. ( mais uma vez relembro que não o defendo nem apoio)
Quanto há justiça Sueca ou outra qualquer, é a que temos e dependemos dela para o garanto da Paz, o que me leva à conclusão de que Assange não tem outra solução senão a de se entregar ao seu destino.
De qulquer modo, tanto quanto sei, o Galileu nunca foi suspeito de agressão sexual e de violação. Logo aí há uma diferença considerável.
Sim é um facto.
Facto bastante mais perturbador é acreditarem que publicar documentos secretos (roubados ou inventados por mão criminosa) que envolvem países, muitos mortos, muitos negócios, por exemplo de armas, é menos grave que a suspeita de violação sexual, é algo muito estranho. Não acha?
Penso que a serem falsos, deviam acusa-lo desse crime, mas não o fazem.
Não lhe parece estranho?
Se há mulheres que se sentem lesadas na Suécia têm todo o direito de fazer participação criminal contra Assange. Repito: ninguém está em cima da lei. Insisto: nenhum país tem um sistema judicial tão prestigiado e que forneça tantas garantias a um arguido como a Suécia. O que está em aqui em causa são suspeitas de crimes sexuais. Na Suécia, não nos EUA. Misturar isso com as fugas de informação da WikiLeaks é uma falácia. Serve eventualmente à estratégia defensiva de Assange, mas não serve à verdade.
“.Sancionado pelo Supremo espanhol por ter procedido a escutas ilegais, autorizando a gravação de conversas entre um advogado e o seu cliente, algo que deveria indignar qualquer cidadão civilizado.”
Tanto indignou que foi levado à justiça e julgado pelos crimes de prevaricação e autorização de escutas ilegais, consequentemente condenado a 11 anos de suspensão da magistratura.
Não vejo como não atribuir ao Wikileaks um mesmo grau de indignação, ao que não sendo feito só se está atestando a legitimidade dos documentos e que Assange com o seu sitio na web são um alvo a abater.
O mais polémico já não é o suposto crime sexual, esse já foi passado para segundo plano, há quem insista que não mas enfim todos tem direito de opinião.
O grande passo “de magia” está sendo orquestrado pelo Baltazar e por sinal já esta fazendo “estragos” pois o julgamento já começou e nem é o das senhoras Suecas ( também eu queria) antes o fosse Sr. Pedro, porque este (esperemos que não) vai mexer com cabeça de muita gente ou até mesmo países.
A ver vamos. Ainda muita água há-de correr debaixo destas pontes.
estou crente que tudo vai correr pela justiça e pela paz. Mas, por aquilo que já vi, o Baltazar é daqueles bem levados da carepa.
Passar bem Sr.Pedro e parabéns pelo sua homenagem a Nelson Rodrigues, aguçou-me a curiosidade.
Obrigado.
Devia protestar-se e muito pelo que se passou e passa em África. Neste recente massacre na África do Sul o ANC não sai nada bem na fotografia. À direcção da Lonmin pertence um antigo combatente pela liberdade e ex-presidente do sindicato dos mineiros( actualmente multimilionário).É apenas um dos
muitos exemplos da promiscuidade entre política ( leia-se ANC) e interesses económicos na África do Sul.
E que protestos se levantam contra o clima de medo instalado em Angola antes das eleições?
E a tragédia na Somália?
E o golpe de Estado na Guiné-Bissau?
E os mortos diários nas pateras?
A lista seria extensa e eu escrevo num telemóvel.
PS-A certa esquerda cega recomenda-se a leitura do livro de Ingrid Bettencourt ou melhor ainda umas férias com as FARC na selva ( com o direito a uma coleira de metal no pescoço e todas as humilhações infligidas aos \"burgueses\"). Desculpa Pedro mas há dias em que acordo sem paciência.
Já somos dois, Helena.
Muito bom.
Obrigado.
Mineiros indefesos? Não é bem assim:
“In the past week, the striking mineworkers killed 10 people – two security officers were torched to death inside their cars, two police officers were shot, one man was found the apparent victim of a ‘ritual killing’ near a group of striking miners on Tuesday. Police had found an animal’s skull placed on top of his chest near the mineworkers after they had just undergone a ritual by a traditional healer. The remainder of the victims were miners found badly injured or shot to death; two also with their throats cut – at the mine during the week-long ‘standoff’ between the SAPS and the miners at Marikana.
As palavras são como as cerejas. O seu comentário fez-me lembrar uma velha canção do Chico Buarque.
É assim:
«Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão»
Cuidado com esta “polícia” assassina. O melhor mesmo é chamar o ladrão.
ex- juiz baltasar garzón real……
Sancionado pelo Supremo espanhol por ter procedido a escutas ilegais, autorizando a gravação de conversas entre um advogado e o seu cliente, algo que deveria indignar qualquer cidadão civilizado.
Julian Assange, pirata de profissão, recebeu asilo do governo autoritário equatoriano-bolivariano de Rafael Correa.
Assange pede q Obama cesse a “caça às bruxas” sobre o Wikileaks, o portal q vazou documentos secretos do governo americano e de outros.
Assange q teve programa numa televisão controlada pelo governo russo, virou rapaz-propaganda de Correa em campanha de reeleição, animado em confrontar os EUA e empenhado em anabolizar o seu peso regional, agora q o mentor Chávez está a morrer de cancro.
Correa é saudado como um bastião das liberdades públicas — justamente ele, q persegue tortura e prende jornalistas da imprensa independente e invariavelmente tem tentado amordaçar a oposição.
Refugiado nas minhas perplexidades, peço ao presidente Rafael Correa q também não extradite Alexander Barankov, o ex-capitão do Exército da Bielorrússia, para o seu país, onde pode ser executado por crime de traição.
Barankov denunciou escândalos da ditadura da Bielorrússia na Internet.
O alarde em torno de Assange ofusca o drama de Barankov, q pode ser extraditado a qualquer momento para o país, q é o novo aliado de Correa, conhecida como a “última ditadura na Europa”.
A situação de Barankov evidencia a hipocrisia de Correa e o alinhamento vergonhoso de Assange, doido por denunciar segredos das democracias e aninhar-se nas tiranias.
Por isso, os autoritários aplaudem Assange. E todos sabem bem por que o fazem.
Recusar a extradição de Assange para a democratíssima Suécia e autorizar simultaneamente a extradição de Barankov para a última ditadura europeia, que poderá condená-lo à pena capital, significaria que o Presidente do Equador não se guia por princípios mas por critérios de oportunidade. Um vulgar oportunista, portanto. Apesar de tudo, quero crer que não será assim.