Complicar o que é simples


Pedro Correia,

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de “informação nutricional”.

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a “pesca salto e vara”: não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é “laborado manualmente”: continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. “Pescamos artesanalmente à cana” e “protegemos os golfinhos”, proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

62 comentários em “Complicar o que é simples”

    1. Esta de mencionarem os golfinhos fofinhos na lata do atum, para acalmar as inquietudes animalistas, ainda não tinha visto.
      Raios. Qualquer dia somos obrigados a ler autênticos testamentos impostos pela correcção política cada vez que compramos os produtos mais simples num supermercado.

      1. Falta pouco para o frango assado ser servido com uma etiqueta a garantir que foi criado ‘em liberdade’ (free range), ou se foi ‘oprimido e engaiolado’ desde a nascença (desconfio que a maioria é oprimida). Para quem já experimentou mastigar uma perninha de frango do campo sabe que é preciso boa dentadura pois é rijo que se farta.
        O ovos já têm um código a indicar se as pobres poedeiras gozaram ou não de alguma liberdade durante as suas curtas vidas. E aparentemente os ovos de galinha oprimida são mais baratos, o que leva a crer que a liberdade é mais cara…neste caso a liberdade dos galináceos ;o).

      2. Porquê mencionar os golfinhos?
        Para quem se mostra espantado…porque provavelmenre não sabe: há técnicas de pesca do atum que utilisam os golfinhos como isco, presos em redes, em que muitas vezes eles acabam por afogar-se!! Sim, é muito chocante😥
        Considero esta referência muito importante e espero que a informação seja verdadeira!!

  1. devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura

    Não. Querem dizer que o bicho foi capturado utilizando uma técnica que só captura os atuns e não uma técnica que captura e mata uma multiplicidade de outras espécies, destruindo a ecologia dos mares.

    “laborado manualmente” quer dizer que a preparação do atum fornece emprego a uma data de gente, em vez de ser toda feita por máquinas e não dar emprego a quase ninguém.

    passamos hoje o tempo a complicar o que é simples
    Não há complicação nenhuma. Só lê essas informações quem quer e quem as acha relevantes. Se a preocupação do Pedro Correia fôr apenas o preço (esse atum é do mais barato, para a qualidade, que cá se vende), como é o caso da maior parte dos portugueses, pode omitir ler.

    (Já agora, considero um desperdício utilizar filete de atum para misturar no esparguete. Se é para comer em pedacinhos no meio de esparguete, mais vale comprar atum em posta, que fica a metade do preço.)

    1. Atum ao Natural
      Continente

      emb. 120 gr
      € 0,79 /un

      Filete de Atum com Funcho
      Santa Catarina
      emb. 120 gr

      € 2,99 /un

      Atum Posta em Óleo Vegetal
      Bom Petisco
      emb. 120 gr

      € 1,59 /un

      1. Nao exagero se disser que os produtos com origem na fábrica Santa Catarina, na ilha de S. Jorge, Açores, são o Rolls Royce da industria conserveira em Portugal. A restante industria está a léguas desta qualidade. E então os lombos de atum.

        1. Vejo que não conhece a industria conserveira na totalidade.

          que a producção da Santa Catarina seja exelente, sem duvida. mas existe pelo menos uma fabrica em Portugal Continental que produz tão bem ou melhor que.

          Quem produz qualidade, raramente está na grande distribuíção 😉

    2. grande Sr. Luís. curto, conciso e honesto.

      tudo em duas frases !

      relativamente ao ultimo comentário, sobre o desfazer o atum, costumo usar a seguinte comparação com os meus amigos :

      “se compramos bons bifes, não chegamos a casa e trituramos para fazer hamburgueres, certo ?”

    1. Caso para dizer isso mesmo, Marta.
      É fácil, cheira muito bem enquanto cozinhamos e sabe ainda melhor.
      E podemos comer sem remorsos o atum porque não fizeram mal aos golfinhos.

  2. Nunca vivi no estrangeiro, por isso não sei se o mesmo se passa por outras bandas.
    Aqui, sei eu, que sistematicamente e em tudo, se troca o essencial pelo acessório.
    João de Brito

  3. A arte de pesca usada especifica que é (legal) usada para apanhar os bichinhos propositadamente, ao invés do arrasto, por exemplo.

      1. Drama e horror não sei, mas Lei haverá alguma.
        Como o Pedro sabe, cada embarcação não pode apanhar o número de atuns que lhe apetece, nem com as artes com que lhe apetece, nem onde lhe apetece…

  4. Dê graças por ainda comer atum,
    Espere até os Marxistas colocarem os animais que comemos como Classes Protegidas.

  5. Falta a descrição da morte de tomates e cogumelos.Arrancados, decapitados,frigidos talvez com cebolas e alhos no mesmo tormento.
    Na sua cozinha!

  6. Uma das vantagens de estar vivo é que podemos dizer o que quer que seja que logo a seguir aparece o Lavoura a fazer as correcções necessárias naquela ortografia suburbana que caracteriza tão bem o regime. Não conheço nenhuma outra vantagem de estar vivo.

  7. Se calhar deviam dizer que a empresa que processa essa conserva é neste momento uma empresa 100% pública, regionalizada por causa de então estar prestes a fechar as suas portas devido a estar mais do que completamente endividada, mas que depois de estar ligada directamente aos cofres públicos, consome impostos para poder andar no mercado vendendo farsas enlatadas juntamente com pedaços de atum e alguns líquidos.

  8. Por falar em coisas verdadeiramente importantes, seria bom que falassem em coisas verdadeiramente importantes. Hoje há muitos comentadores, muitos blogs, etc. Mas a maior parte são uma “mão cheia de nada”, quase só diversões e ruído. Eu vou falar em coisas verdadeiramente importantes. Penso que sabem ou deviam saber que a imprensa/comunicação social deve ter uma função social e uma função social não é circo. O que eles fazem? Divulgam notícias. E o que é uma notícia? Pois aqui é que está o problema. Eles não sabem! Para eles notícia é tudo e mais alguma coisa quanto mais estúpido e insignificante melhor e é importante que conte para as estatísticas. Há um concurso, quem publica mais “lixo”? Mas eles publicam o que vende. E alguns em vez de criticar esse “lixo”, divertem-se a comentar pois gostam de brincar e de serem manipulados. Seria bom que alguns pensassem que muitas vezes a culpa está em nós. O “lixo” acaba quando as pessoas crescerem e deixarem de gostar de “lixo”. Abram os olhos, cuidado com lobos disfarçados de cordeiros”. Mas se eu estiver errado, podem dizer!

    1. “O “lixo” acaba quando as pessoas crescerem e deixarem de gostar de “lixo”.” Com as pessoas a crescer não gostando do dito vamos ter uma lixeira em cada esquina.

    2. Querem aprender mais!
      https://www.publico.pt/2001/05/26/jornal/lixo-televisivo-e-outros-lixos-158108
      Mas o problema não são só as televisões, é tudo! Por isso hoje se fala em jornalistas e jornaleiros! Os jornalistas são bons a publicar noticias sobre o comportamentos errados de outros, mas eles são iguais e só vêm o que lhes interessa. Os códigos deontológicos, etc, existem para serem violados e enganar as pessoas. Ver mais aqui:
      http://visao.sapo.pt/opiniao/silnciodafraude/2018-02-22-Qual-e-a-utilidade-dos-codigos-deontologicos-

  9. Dissertar sobre o conteúdo exterior da lata é um mero exercício de estilo baseado na obrigatoriedade da informação existente no rótulo que, de acordo com as melhores práticas, deve de estar de acordo com a lei nacional e europeia.
    O que interessa saber é se a informação que lá consta, ainda de que de acordo com a lei, cumpre ou não com esta.
    Como Delito de Opinião, confesso que gostei, afinal não é todos dias que alguém se dá ao trabalho de ler esta informação e, melhor ainda, dissertar sobre ela e, melhor ainda outra vez, estar com fome e ter paciência para o efeito.

  10. Salto e vara é uma arte de pesca e a mais sustentável a nivel comercial. Quanto à laboração artesanal significa rmque existem muitas familias que recebem o seu salário por trabalhar nesta fábrica em vez de serem máquinas, como no vosso Portugal, que constantemente despedem pessoas… nós, Açoreanos, valorizamos a sustentabilidade, e por isso somos muito felizes! Lamentamos a sua ignorância.

  11. Caro Pedro, à custa de complicar o que é simples já leva, atá agora que ainda a procissão vai no adro, 34 substanciais, informados e um tanto complicados comentários. Afinal, a complicação compensa, E se simplificássemos a coisa e escrevêssemos para os Açores para eles eliminarem o supérfluo na informação? Estaríamos nós, no Sapo, dispostos a abdicar da nossa fonte de comentação? O emprego deles é a nossa ocupação. Temos que ser uns para os outros.

      1. No fundo, aprecio a capacidade que o Pedro muito estimula, de descomplicar e de tornar legível e simples aquilo que nos aparece como excessivo, absurdo e, às vezes, insignificante. Do pouco se faz muito.Assim é a escrita dos melhores Delitos. Não passo sem uma visita,embora fugaz, à sua abundante, rigorosa e penetrante prosa. Vamo-nos encontrando – nem sempre à mesma hora mas nos locais do costume.

  12. Gosto do ar pomposo com que algumas criaturas do alto da sua insuportável presunção afirmam que são – ovolactovegetariana -.

    Não se atrevam a questionar às ditas o que é que é isso. A resposta é um susto.

  13. Caríssimos, acredito que de tudo se pode fazer humor, mas neste caso não havia
    necessidade…nenhuma!

    A informação nutricional, o método de captura, e todas as demais noções que referiu são informação, útil ou muito útil…e conforme o conhecimento que temos percebermos a sua importância! Não quer isto dizer que quem não sabe seja um ” ignorante geral “, mas apenas que sabe pouco acerca daquele assunto…isto só para espicaçar um pouco a malta.

      1. Eu ficarei muito mais descansado por saber isso…e todos devemos ficar, porque a realidade é quântica…acima de tudo à medida que observamos algo mais perfeito isso é em geral sinal de algo mais perfeito em nós.
        Portanto, o mínimo que devo fazer, porque infelizmente ainda não subsisto sem me alimentar, depois de garantir a quantidade necessária de proteínas – principalmente aquelas com os aminoácidos essenciais ( a propósito, são 8 em 20 e são difíceis de encontrar em conjunto fora do reino animal ) , gorduras não saturadas , baixo nível de sal, açucares de degradação lenta, etc – devo garantir, para meu próprio bem , que aquilo que como provocou o menor mal possível aos outros seres e ao sistema em que vivo, isto sem comprometer o meu próprio desenvolvimento.

  14. a menos que o PC esteja a enviar uma mensagem á Conserveira, e que tais, por excesso de informaçao, excluindo que esteja a fazer publicidade á tal lata, serei unico a ter a lata de assumir que nao percebi o post.

  15. Se o meu caro, tivesse comprado um atum em lata de 70 cêntimos (o acessório) não teria agora assunto para este post (essencial…). Foram bem empregues os quase 3 € no excelente Santa Catarina, pelo atum e pela tertúlia que já vai em cinquenta e tal comentários “laborados manualmente”…Cumprimentos, Pedro.

  16. Filetes de atum com funcho para molho de tomate e cogumelos – como se diz por cá – “tal pena”!
    A crítica pela crítica, foi o que acabei de ler. Todo o atum de Santa Catarina é fantástico (a começar pelo natural) e é de lamentar que tenha utilizado a palavra ansiedade num post sobre algo tão bom.
    Talvez para a próxima possa pedir a alguém que lhe abra a lata, para não ter de passar por outra experiência tão traumatizante e assim poderá dedicar-se calmamente à cozinha.

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