Companheiro Vasco


José Meireles Graça,

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A Associação Conquistas da Revolução (sim, existe uma organização com este nome) resolveu encomendar ao arquitecto Siza Vieira um monumento de homenagem ao “Companheiro Vasco”.

Fui ver a respectiva página e não reconheço aquela prodigiosa quantidade de nomes. Deve tratar-se de comunistas e compagnons de route, a hidra do PCP desdobra-se em associações de todo o tipo para a defesa dos interesses do povo trabalhador, no jargão da seita.

O palavreado tem um lado saudoso para quem já era adulto à época do Verão de 1975, porque não há abominações que resistam ao optimismo dos vinte anos. O outro lado é bolorento – aquela conversa é a mesma há quase 50 anos.

O homenageado fez carreira no Exército (era coronel à data do 25 de Abril) e dentro do MFA pertencia a uma das correntes mais à esquerda. Tentou ser um Jaruzelski à portuguesa mas falhou, como aliás o projecto do mastermind da sovietização do país, Cunhal, que seria o herdeiro natural destes revolucionários de farda. Falhou por muitas razões, das quais as principais eram que Portugal não tinha fronteiras com países comunistas, a Igreja Católica ainda tinha muita força e, sobretudo no Norte do país, a maior parte da população detestava comunistas. Mário Soares e o PS, por não se quererem suicidar, e com discreto apoio americano e alemão, encabeçaram a resistência eficazmente.

Tivesse ganho e Portugal seria uma Cuba na Europa, as prisões estariam ainda hoje cheias de oposicionistas sortidos, em vez de emigrantes haveria no estrangeiro fugidos e refugiados, e talvez nem os comunistas celebrassem o companheiro Vasco porque as revoluções comunistas têm o hábito de devorar os seus filhos quando são um estorvo. Cunhal é que era Lenine, não este pobre diabo.

De modo que esta homenagem não é muito diferente de levantar um monumento a Manuel Buíça – Vasco Gonçalves não hesitaria em mandar fuzilar opositores se, o seu poder firme, achasse que isso era necessário para a afirmação de uma sociedade sem classes (outra vez o jargão, peço desculpa).

Siza presta-se a este papel – é lá com ele. Mas a escultura (se lhe posso chamar assim) vai ficar num local público – é cá connosco.

Escultura, grosso modo, é a arte de transformar matéria bruta (pedra, metal, madeira etc.) em formas espaciais com significado – é o que diz o dicionário.

Sucede que o significado desta construção é nulo. Representa qualquer coisa, mas Vasco Gonçalves é que não é de certeza. Nas palavras de Vera Maria Gouveia Barros, numa rede social:

Esta é a estátua de Vasco Gonçalves concebida por Siza Vieira. É um génio, de facto. Da Arquitectura e das finanças públicas, porque esta estátua serve para todas homenagens que se queira fazer. É o Vasco Gonçalves, mas pode ser o Carlos Lopes. Querem uma estátua do Lobo Antunes? Já está feita, é esta. Para a Rita Blanco? Esta serve. Só não dá para pessoas sem dois braços e duas pernas. Bravo!

E então, justifica-se um levantamento para protestar? A meu ver não, por duas razões:

O país está pejado de bonecos e instalações representando nada (ou pior, representando) e a coisa passa por apoio à Arte e por mobiliário urbano. Pode ser que com verdete e degradação os mastronços se fundam na paisagem, e que entretanto o prestígio de Siza Vieira faça os passantes verem o que lá não está.

E quem, como eu, é contra o apeamento de representações de personagens históricas porque o tempo novo lhes vê com maus olhos o desempenho, também não leva excessivamente a mal a glorificação de Vasco, mesmo que extemporânea: é um comunista, coisa lá deles. Sempre é uma antiguidade, mesmo que feita agora.

24 comentários em “Companheiro Vasco”

  1. Quem quiser perceber o que foi o periodo do 25/04/74 a 25/11/75 veja o filme do youtube ” a enxada da cooperativa “. O famoso prec que mostra o que pretendiam fazer de Portugal os revolucionários de prec na liga e cravo na lapela.

  2. Os braços no ar poderiam fazer lembrar o dito, mas só até o 25 de Novembro.
    Sem querer armar-me em crítico de arte, a estátua do Guterres está mais engraçada. Quando a vi revelada ao mundo, senti uma certa boa disposição.

  3. Ouvir o Ba sobre Padre Vieira e ler este José Meireles da Graça sobre Vasco Gonçalves é a mesma coisa: um e outro têm problemas de falta de noção do ridículo.

  4. Coitada da família de Vasco Gonçalves…
    Parece um boneco desses, dos miúdos, um transformer de gesso. Falta de gosto.
    Os vindouros, quanto a arte, futuramente, não têm nada para ver e regalar os olhos. Até as igrejas parecem uns armazéns caiados e com um sino escondido algures, disfarçadamente.
    Vá lá que lá por cima ainda encontramos pedra esculpida com beleza e harmonia pelo meio do verde …

  5. E Franco ainda não tinha morrido…
    E, afinal, a “Bruntete” chegou a mexer-se , ou não?…
    Mas com Talavera la Real ali onde está…
    JSP

  6. Sendo a cabeça um calhau, sem pés para o caminho e sem mãos para a obra, parece-me uma fiel representação.

  7. Será um monumento ao afundamento do país!
    Não datará apenas o prec, serve também para a época actual …

    1. Bem feito, que é na tua cidade. Nós por cá temos (a 8 km, num concelho vizinho) Guterres, um D. Afonso indescritível foi exportado para Zamora e há vários monos (monumento ao caixeiro-viajante e ao estudante, por exemplo) mas mal se dá por eles – um passa por restos de obras e o outro por um quiosque futurista.

    1. Parece que vai ser colocado no Areeiro perto duma estátua que também ninguém conhece.
      A propósito, vou procurar uma Lei ou coisa parecida, mas importante para o País feita nos governos de Sá Carneiro, uma importante, uma já chega. Vaidoso era ele, armado em menino da foz gostava de escrever à inglesa e por isso havia muitas rua com o nome dele Sá Carneiro Rua.

    1. “E mais uma estátua de apoiantes de regimes genocidas em Portugal…”
      Estátuas de apoiantes de regimes genocidas em Portugal?
      Não conheço nenhuma de Pol Pot e Bogosora do Ruanda,

      1. A fazer de conta que Pol Pot não era Comunista ?

        Temos muitas estátuas de apoiantes do Comunismo.
        Vasco Gonçalves foi mais um que se tivesse a logistica a favor teria obrigado todos à força a serem Comunistas.

      2. – A implosão da União Soviética surpreendeu-o?
        – Sim.
        – Como vê a conversão dos russos ao capitalismo?
        – Penso que a palavra «conversão» não é a mais adequada à mudança que houve e há na Rússia. O movimento socialista sofreu uma muito grave derrota. Contudo, o grande desafio histórico do futuro continua a ser a superação do capitalismo pelo socialismo.
        in: https://www.viriatoteles.net

        Para Vasco Gonçalves o fim do regime Comunista da URSS que assassinou dezenas de milhões de pessoas foi uma grande derrota. E assim temos mais um estátua em Portugal de quem admira regimes destes…

  8. Todo o programa do companheiro Vasco e ocasionais apoiantes:—Nós não podemos arriscar,com as eleições,,vir a perder todas as conquistas que a revolução trouxe.

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