
«Com o colapso da URSS (“a maior catástrofe política” do século, segundo Putin) e o súbito sumiço do “socialismo real”, a Rússia acabou por puro acaso (ou muito azar) na “democracia”: um regime que notoriamente a prejudica. Sempre oscilante entre a inveja do Ocidente e a glorificação do particularismo eslavo, a Rússia voltou agora ao particularismo eslavo. Putin quer criar uma ideologia “patriótica e nacional”. Em Agosto, um artigo do Herald Tribune (de Nina Khrushcheva) descrevia essa campanha para reviver a “grandeza” da Rússia. Uma campanha que mete a televisão, a rádio e a imprensa, evidentemente. Mas também banda desenhada, cartazes pelas ruas, poemas no metropolitano e até, como de costume, a literatura oficial. Os militares readquiriram o seu antigo prestígio, os “Pioneiros” foram substituídos pelos “Nashis” e o KGB pela FSB. A tradição resistiu à crise e a Rússia (à custa do petróleo e do gás) renasceu na sua autêntica qualidade de império.
Era inevitável que a Rússia não se resignasse à derrota de 1989-1991; e era inevitável que, uma vez refeita, não ficasse muito diferente do que tinha sido. Ninguém de senso esperava que um Império, com dezenas de religiões, de línguas, de etnias, se tornasse num perfeito exemplo de uma democracia liberal e de um Estado de direito. A questão não é a de saber se a Rússia se vai ou não “ocidentalizar”, é a de saber como e quando passará à “reconquista” das “províncias perdidas”.»
A diferença entre um observador político digno de atenção e um bitaiteiro como tantos que enxameiam as televisões avalia-se neste longo excerto de um texto analítico de Vasco Pulido Valente intitulado “Uma nova Rússia?”, impresso no jornal Público a 2 de Setembro de 2007.
Quinze anos antes da actual agressão de Putin à Ucrânia estava já tudo previsto nesta linhas por quem sabia analisar os factos com lucidez, cultura, sagacidade e uma acutilância que nos deixam saudades.
Infelizmente, desde logo, porque restam poucos com o nível dele.

Pela sua argúcia Vasco PV era o alvo sistemático dos invejosos.
Os invejosos, esses, como sempre, estavam rodeados de aduladores.
Nem mais. Também isso já é um clássico.
Não há muitos assim, não.
Há por aí três ou quatro epígonos, mas nenhum com a categoria dele.
Neste momento a Federação Russa tem, federada, uma dúzia de “Repúblicas”.
Uma tem o poder político, centralizado.
Outras têm crude e gáz. Outras têm os pipelines. Outras cereais. Outras não têm crude, nem gáz, nem cereais. Têm carne para canhão.
Uma mistura explosiva, ao retardador.
A Rússia sairá mais fracturada e fragilizada desta aventura irresponsável.
O escasso núcleo dirigente em Moscovo comporta-se como um bando de baratas tontas, como ficou patente na declaração de ontem do MNE russo no Egipto: «Vamos ajudar os ucranianos a livrarem-se do regime, que é absolutamente antipopular e anti-histórico.»
Um Estado com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU confessa comportar-se como um esquadrão de mercenários.
Esta já é, pelo menos, a quarta ou quinta justificação oficial para terem cometido aquele acto de canhoneira típico do século XIX, na funesta madrugada de 24 de Fevereiro. Irão amargar isso por largos anos.
comporta-se como um bando de baratas tontas
Eu diria isso da clique dirigente da União Europeia:
(1) Impuseram as sanções ao enclave russo de Kalininegrado; depois levantaram-nas parcialmente, sem explicarem por quê, e aparentemente irão acabar por levantá-las totalmente.
(2) Impuseram sanções que, na prática, impedem a Rússia de exportar os seus cereais e fertilizantes. Agora apercebem-se de que esses cereais e fertilizantes são essenciais ao mundo e estão a estudar de que forma irão levantar as sanções para permitir a sua exportação.
(3) Disseram que querem deixar de consumir gás natural russo. Agora que a Rússia lhes está a cortar o gás natural, queixam-se de que é a Rússia quem as está a chantagear. Então querem ou não querem deixar de consumir o gás?
Dá para perceber que você viu frustrada uma vocação militar.
Devia ter ido para o Colégio Militar e sair de lá “um homem”.
Hoje era major-general na reforma e perorava na CNN Portugal em defesa de Putin.
As duas estão correctas. A UE tem-se comportado como uma ditadura e para piorar é estúpida , o Putin como lunático perigoso que pode provocar uma guerra nuclear demontra a todos mais uma vez que para a Rússia o que importa é a ameaça e violência não o negócio. É a segundo governo depois da desastrosa administração Obama a incentivar claramente que ninguém abandone armas nucleares.
“Irão amargar isso por largos anos.”
Que chatice, e o Pedro Correia tão preocupado com isso.
Mais preocupado andaria se estivesse no seu lugar. Alguém sem nome nem apelido.
Obrigado pela preocupação.
Não tem de quê.
E não está, salvo meu grosseiro erro, nesse “livro de horas” – no melhor sentido – que é “de mal a pior”. Não poderia lá estar tudo.
Creio que não. Mas o artigo merece leitura integral. Tenho-o, felizmente, nos meus arquivos.
Colonialista e imperialista desde sempre, não viverá doutro modo.
Sempre e só a força a conterá.
Imperialismo hiper-nacionalista de feição neocolonial, cego e surdo face à soberania dos povos vizinhos e às normas do direito internacional, revelando paranóia perante o suposto “inimigo externo” enquanto trata os seus próprios cidadãos-súbditos como inimigos. Sem hesitar em eliminar os mais incómodos. Pelos processos mais escabrosos.
A Índia é “um Império, com dezenas de religiões, de línguas, de etnias” e, não sendo propriamente “um perfeito exemplo de uma democracia liberal e de um Estado de direito”, não fica muito longe disso.
Da Russia já deu um salto para a Índia. Método dialéctico lavourense, o de comparar pêssegos com pinhões.
Como a manhã ainda só vai a meio, tem tempo para dar a volta ao mundo enquanto passeia pelos blogues.
A União Europeia não é Bruxelas nem U. v d Leyen.
A União Europeia é a Alemanha e os seus satelites.
E a recente Alemanha é G. Schroder e A. Merkel.
Estes criaram um gigantesco problema energético sobretudo devido às necessiades de LNG, estruturalmente indispensável na industria alemã.
Quem tem o poder e deverá resolver o seu problema é a Alemanhã.
Esta está a querer resolver o problema energético à custa da Ucrânia. Independentemente de este País ser uma boa ou uma má democracia.
Ou de este País ser, para Putin, Russia.
A restante União Europeia sofrerá, por tabela, o erro, o reconhecido perverso conluio entre a Alemanha daqueles líderes e a Federação Russa de Putin.
Do outro lado do Atlantico os EUA não perdem oportunidades.
Desista. Você nunca será um novo Vasco Pulido Valente.
«Seguro, como Passos Coelho, é o produto da “cultura de partido” que tomou conta e apodreceu a democracia portuguesa.
[…]
Passos Coelho e António José Seguro. Nenhum se distinguiu pela carreira académica ou profissional. Nenhum deu até hoje qualquer excepcional contribuição à política portuguesa. Cresceram os dois no incubatório infecto das “juventudes” partidárias, que, no PS e PSD, acabaram os dois por presidir. E chegaram os dois, dificilmente, à maturidade na atmosfera de rivalidade e de intriga em que vive, e para que vive, aquela espécie de ambiciosos menores.»
Vasco Pulido Valente, “Impotência” | Público, 06.Ago.2011
Esse texto, de 2011, podia aplicar-se aos sucessores de Seguro e Passos.
Vale para Rui Rio, que foi vice-presidente da Juventude Social Democrata.
Vale para António Costa, que foi sempre socialista desde pequenino e nunca exerceu actividade profissional para além da política.
Vale também para o ministro Pedro Nuno Santos, que foi secretário-geral da Juventude Socialista.
Vale para o ministro Duarte Cordeiro, que foi secretário-geral da Juventude Socialista.
Vale para a ministra Ana Catarina Mendes, que esteve na direcção da Juventude Socialista.
Vale para Jorge Moreira da Silva, ex-candidato à presidência do PSD, que foi presidente da JSD.
E tantos, tantos, tantos outros.
Até vale para José Sócrates, que começou a vida política como militante da JSD.
Á endogenia partidária soma-se a exclusividade dos partidos na nomeação de deputados.
Esta partidarite no exercício do poder político, tal como as Monarquias absolutistas, terá o mesmo destino destas, não sem antes arruinar o País.
Europa
«A famigerada “falta de solidariedade” de que tanto se queixa Portugal não passa do regresso a uma história interrompida. Uma história em que a “Europa” já não é necessária.»
Vasco Pulido Valente, “Uma ‘Europa’ desnecessária” | Público, 05.Ago.2011
E.U.A. e o mundo
«A queda do império produziu, como devia produzir, uma separação profunda entre os nostálgicos da velha vida e os que pretendem, à falta de melhor, transformar a América numa sociedade justa, igualitária e livre.
[…]
Sem governo e sem um objectivo comum (que o império lhe dava), a América não consegue mandar em si mesma e, por maioria de razão, na Europa e na Ásia, que pouco a pouco voltam ao seu particularismo e ao caos que ele presume e de que precisa para viver.»
Vasco Pulido Valente, “A decadência do império americano” | Público, 12.Ago.2011
Já cumpri a minha boa acção hoje.
Enquanto anda a revisitar os textos do VPV, não anda a perder tempo a espalhar ‘fake news’ do Kremlin e a repetir o que papagueiam os majores-generais putinófilos na CNNP.
muito obrigada

dada a sua boa vontade abstenho-me de publicar a opinião do VPV sobre os PR Cavaco e Marcelo.
Publique à vontade. Antes isso do que intoxicar-se com RT.
> intoxicar-se com RT
Isso não está proibido?
Não vá o vulgo incapaz ter pensamentos não autorizados superiormente
Fruto proibido é o mais apetecido.
Goste-se, ou não, com pancada, ou sem ela, VPV tinha uma inteligência bem acima da média. Além disso, sabia ler a História. E, pensando pela própria cabeça, o que não sucede com uns tantos que andam por aí, não tinha problema nenhum em exprimir o resultado das suas reflexões.
Mas, deixem que vos diga, não subestimem a Rússia (Federação Russa). No passado já demonstrou a sua resiliência e capacidade de sofrimento. Claro que Putin, com a invasão, enveredou por um caminho perigoso e de resultado imprevisível. Mas não pensem que eliminando Putin a crise desaparece. Lá, a semente foi lançada e já gerou descendência. A ânsia de glória permaneceu e cresceu naquela gente e aceitam bem a lei do chicote (ou da bala) – ainda que aplicada neles próprios. E dispõe de amplos recursos naturais desejados por todo o mundo.
Neste conflito vamos ver qual é a estaleca da Europa quase livre.
Mais um parágrafo e quase parecia uma homilia do sacrílego patriarca ortodoxo de Moscovo. O tal que abençoa as ogivas russas contra a Ucrânia.