Como se os mortos infectassem


Pedro Correia,

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Dia de Finados. Escolhido hipocritamente pelos titulares do poder político como dia de luto nacional enquanto se proíbe a população de prestar tributo aos nossos mortos em grande parte do País. Vamos a caminho dos três mil falecidos só de Covid-19 – fora as outras doenças, entretanto remetidas à clandestinidade, sem cobertura mediática. Muitos dos funerais foram feitos à pressa, sem possibilidade de uma despedida digna, como se houvesse que varrer entulho. Tratando-se, em tantos casos, de pessoas que não tiveram sequer direito a um último aceno dos entes queridos.

Esta inaceitável exclusão prolonga-se hoje, com muitos cemitérios encerrados por decisão das autoridades municipais. Como se fosse impossível visitá-los por turnos, mantendo as distâncias sanitárias e tomando as precauções que conhecemos. Como se os mortos infectassem. Como se honrar a memória dos que partiram fosse um pecado. Como se existir não fosse aprender todos os dias a conviver com o abandono, sabendo que a morte não é só ausência: é também uma presença, por mais discreta que pareça.

Eis-nos, pois, num dia ainda mais triste entre tantos outros por que temos passado neste ano de pesadelo. Leio o que ontem escreveu António Barreto, na sua sábia coluna do Público, e só posso dar-lhe razão: temos «esta sensação temível de que as autoridades correm atrás dos acontecimentos e se limitam a prever o passado». Aturdidas, também elas. E aturdindo-nos a cada medida que vão tomando, de improviso em improviso, navegando à deriva rumo sabe-se lá a quê.

24 comentários em “Como se os mortos infectassem”

  1. Boa tarde Pedro Correia
    Que continue tudo bem consigo.
    Assino por baixo.
    No meu “Chapéus ” tenho igualmente dado largos à minha indignação.
    Saúde
    António Cabral

  2. Não visito mortos no cemitério. Não é preciso. Eles caminham comigo, como dizia o poeta José Gomes Ferreira.
    Há um delirante filme de Jim Jarmuch em que se brinca com coisas sérias.
    A canção que faz parte do filme tem o cantor country Sturgill Simpson, a interpretar a canção-tema do filme e diz-nos que os mortos são fantasmas dentro de um sonho, uma vida que já não possuímos.
    «A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.», li um dia numa crónica de Victor Cunha Rego.
    Morre-se de tanta coisa, até de amor como o King Kong, no último andar do Empire State Building, segundo um poema do Eduardo Guerra Carneiro.

  3. Deve ser uma nova via política – Autoritarismo Desnorteado.
    Por várias razões – uma delas, sem dúvida, o Dr. Rui Rio -, o povo parece gostar deste PS, apesar dos incêndios, dos impostos, dos roubos a paióis, do familygate, dos dichotes brejeiros do Dr. Ferro Rodrigues, e, ultimamente, da forma atarantada como se passa dum GP de F1 ao mólho para uma ordem de isolamento.
    Quem é essa gente, que gosta tanto disto?
    Bem, eu conheço alguns. Conheço quem tenha ido ao GP, conheço quem tenha ido a cruzeiros quando já eram um problema.
    Ainda ontem assisti a uma conversa surreal. Conheço um moço que tem um carocha velho, normalmente enfiado num barracão, com que dá umas voltas uma vez por mês, para ir carregando a bateria, e para evitar o colapso total das coisas que não se usam (como o senso comum, por exemplo).
    Portanto a idéia era fazer-se à estrada, ir até à cidade mais próxima, voltar, e tornar a enfiar o carocha no barracão até ao próximo mês.
    O problema é que a cidade mais próxima fica noutro concelho, e o moço não tem paciência para ser parado pela polícia, talvez multado, nem feitio para explicar para onde vai e porquê – defeitos que adquiriu por ter nascido e crescido num país livre e democrático, onde nunca teve limitações deste tipo.
    Mas, contrapôs outro amigo, é necessário, por causa do contágio.
    Mas qual contágio, intervim eu. Quais são as possibilidades de contagiar ou ser contagiado dentro dum carro, sozinho?
    Nunca se sabe, foi a resposta que recebi.
    Agora, que pessoas que conheço há tanto tempo estejam tão desnorteadas que nem percebem a impossibilidade de haver um contágio nessa situação particular, ou, caso fosse possível haver, não percebem a total futilidade de usar máscara ou desinfectar as mãos a toda a hora, ou tudo o resto, deixa-me a mim desnorteado.
    Não sei se são do PS, ou votam no PS, mas que estão apanhados pelo PS, lá isso estão. O carocha ficou no barracão, em nome da sanidade. Eu até compreendo, mais ou menos, a aversão a ser chateado pela autoridade, só por ir daqui até ali e voltar para trás. Pela sanidade, não compreendo, a não ser que tenha perdido a minha, ou eles a deles.

    1. Até parece que se lá estivesse o Rui Rio o desnorte era diferente. Ainda era pior, ao tempo que eles andam a reclamar o uso obrigatório de máscaras na rua, ao tempo que eles andam a reclamar o estado de emergência, ao tempo que eles andam a reclamar o recolher obrigatório. Qual é que foi o partido que implementou a “lei da rolha” no tempo do Santana Lopes?
      Que a pandemia não sirva de desculpa para branquear a história.

        1. Não faz qualquer sentido a partidarite aguda nem no caso da pandemia nem na mistura dos diversos casos.
          As pessoas agem por reacção. E quando as acções são mais fortes as reacções são mais violentas. É dos livros.
          Se a partidarite funcionasse o partido do governo descia, e a oposição subia as intenções de voto. Mas o centrão desce a oposição desce, e só quem sobe são os partidos marginais. O que demonstra que as pessoas não olham aos partidos para mostrar descontentamento, servem-se é dos partidos para mostrar descontentamento, o que é diferente.

          1. Sou totalmente contra a partidarite. E também frontalmente contra este absurdo de politizar e partidarizar qualquer comentário. Parece que estou rodeado de gente enfiada em trincheiras.
            A vida e a morte são questões muito mais relevantes do que todas as cartilhas partidárias juntas.

      1. Então faça o favor de não branquear você a história. Não é Rui Rio quem está no governo, tanto quanto sei.
        No segundo parágrafo acho que fica clara a minha opinião sobre esse tema.

          1. Estou a ser o mais apartidário que consigo. As autoridades, o governo, são os que são e não outros. Não serão culpados da pandemia, são-no do desnorte.
            Pessoalmente escapa-me a lógica de muitas decisões, e isso preocupa-me.

    2. Tenha calma, não espante a caça.
      O GP F1, agora com esta nova treta da pandemia e o não ter ido aos açores, lá vai ele às urtigas.
      Se for necessário abrir a gaveta, temos os fogos, paióis, impostos, familygate, dichotes do ferro, a alameda e a atalaia (entram?) a queda da pedreira, a queda da árvore na madeira (entra?) e não se safa.

  4. É bater mais no ceguinho (ou no invisual) dizer que o Governo não sabe o que fazer, e que fez uma péssima gestão, embora não o admita, da confiança.
    No Verão era tudo uma maravilha, o milagre português, saiam à rua e venham à praia, comam e bebam, até vamos abrir os corredores aéreos.
    Hoje patrulha-se a fronteira Oeiras-Cascais, não vá o bicho alojado num qualquer pedestre que faça o calçadão.
    Vão arremessando umas medidas, ora concretas ora abstractas (como a da app, que se não foi pareceu atirar barro à parede a ver se pegava), sendo que muitas delas são insignificantes para os números totais.
    Para uma coisa a covid serviu, para dar a ideia de que se há adiamentos e esperas de consultas e cirurgias, apenas ao vírus se deve.
    Entretanto, foram eleitos mais uns caciques a meias entre PS e PSD, e começa o julgamento de um caso que num país a sério tinha mandado abaixo o Governo.

    1. O problema do Governo, como já aqui escrevi, foi ter acreditado na sua própria propaganda. Andaram a martelar na tecla do “milagre português” e desataram a “desconfinar” como se não houvesse amanhã. Confundindo desejos com realidades.
      O resultado está à vista. Agora andam a correr atrás do prejuízo.

  5. Burocracia mortífera
    Do 1º Ministro para o Presidente da Republica, do Presidente para o parlamento, da Assembleia da Republica retorno ao PR, que seguramente dará despacho favorável a mais uma encomenda fora de horário.
    Entretanto na falta de um Estadista a sério que se afirme capacitado e com determinação para acelerar o fim de uma indisfarçável tragédia, esta roda viva de negligência e morte a roçar a cobardia, apenas serve para diluir e baralhar responsabilidades, que a falta de caráter e rigor amontoados determinam.
    Convém lembrar aos altos (i)responsáveis que este covid-19 não se faz convidado, e continua a andar por aí à solta a fazer estragos em crescendo, sem obedecer à cartilha e burocracias dos inúteis e apagados perseguidores.

    1. ‘…um Estadista a sério ….capacitado e com determinação para acelerar o fim….tragédia’ ???? só se for um cientista a descobrir a vacina.
      ‘….continua a andar aí à solta a fazer estragos em crescendo….’ ???? quem, os comerciantes chineses, ou os comerciantes do calçado que foram à feira de Milão?

  6. Parece que os mortos portadores de SARS-COV-2 infetam mesmo, ou pelo menos são manuseados como tal. Ouvi ontem de umas irmãs que souberam que o seu irmão tinha sido internado com COVID-19 e nunca mais puderam vê-lo, nem no hospital nem depois de (segundo lhes foi dito, elas nunca o viram) morto: foi-lhes entregue o corpo num caixão fechado e nem se puderam certificar de que era o genuíno cadáver do seu irmão.
    Que eu saiba, um cadáver com SARS-COV-2 não o pode disseminar, mas a Desgraça Freitas pretende convencer-nos do contrário. Até os mortos infetam.

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